Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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A hipótese do cozimento e a evolução humana

Por Felipe A. P. L. Costa em 29/10/2013 na edição 770

Em sua edição de 20/7, a Folha de S.Paulo publicou um artigo relativamente extenso, “Cozinho, logo existo”, da renomada cientista brasileira Suzana Herculano-Houzel. Além de pesquisadora e professora universitária, a autora lida com divulgação científica (e.g., HERCULANO-HOUZEL 2002), sendo, inclusive, colunista daquele jornal (ver aqui).

Nos últimos anos, Herculano-Houzel publicou (sozinha ou em coautoria) artigos técnicos importantes, sobretudo na área de neuroanatomia comparada, incluindo uma análise inovadora do número de neurônios em cérebros de mamíferos (HERCULANO-HOUZEL et al. 2007) e uma avaliação das implicações metabólicas de tal variação (FONSECA-AZEVEDO & HERCULANO-HOUZEL 2012). No artigo de julho na Folha, ela procurou situar suas descobertas recentes em um contexto evolutivo mais amplo. Embora o texto tenha me parecido agradável e, em linhas gerais, bastante acessível, penso que a autora deixou transparecer alguns equívocos significativos, os quais poderiam induzir o leitor a erros e mal-entendidos.

Pergunta pertinente, resposta inapropriada

De um modo geral, o que mais me chamou a atenção foi o aparente desarranjo entre o tipo de questão que é levantada no artigo (algo do tipo “por que os seres humanos passaram a cozinhar os alimentos?”) e a natureza da resposta que a autora oferece e discute (algo do tipo “porque é mais fácil e rápido extrair calorias de alimentos cozidos”). O problema, nesse caso, é que a pergunta levantada – bastante pertinente e por si só das mais intrigantes – é de natureza essencialmente histórica; pede, portanto, uma resposta de natureza igualmente histórica. Ocorre que a explicação oferecida é de natureza metabólica; como tal, embora possa estar inteiramente correta no âmbito da fisiologia, não serve como resposta a uma pergunta de natureza histórica.

A resposta apropriada deveria adotar um ponto de vista filogenético (i.e., quando e como os nossos ancestrais passaram a cozinhar alimentos) ou adaptativo (i.e., de que modo e até que ponto tal inovação tecnológica passou a afetar a sobrevivência de nossos ancestrais). Em outras palavras, para responder apropriadamente à pergunta “por que os seres humanos passaram a cozinhar os alimentos?”, não basta constatar que o cozimento implica em determinados benefícios metabólicos, é necessário colocar tais benefícios em perspectiva – e.g., que tipo de contexto ecológico favoreceria a adoção do cozimento e que vantagens seletivas isso traria? Vejamos um exemplo de como isso pode ser feito.

De acordo com a chamada “hipótese do cozimento” (ver WRANGHAM et al. 1999; para comentários em português, ver WRANGHAM 2010), cozinhar (sobretudo raízes, tubérculos e outras estruturas do corpo das plantas ricas em carboidratos) foi uma inovação tecnológica que permitiu a nossos ancestrais aumentar em muito a taxa de extração de calorias dos itens ingeridos. A partir de então, uma mesma quantidade de energia podia ser obtida a intervalos de tempo bem menores. Isso por si só teria tido amplas, profundas e duradouras consequências na ecologia dos hominídeos, incluindo alterações no “orçamento doméstico” (e.g., as atividades envolvidas com a manutenção do metabolismo corporal passaram a ser atendidas em períodos de tempo mais curtos) e no comportamento de forrageio dos indivíduos (e.g., uma menor quantidade de tempo precisava ser alocada na procura de alimentos). Em um contexto de competição intergrupal, aqueles grupos que detivessem tal tecnologia devem ter usufruído de ganhos significativos (e.g., redução nos níveis de mortalidade, elevação no tamanho médio do grupo e colonização de novos hábitats até então inexplorados) em relação aos grupos que não sabiam cozinhar.

Problemas pontuais

Olhando o texto mais de perto, também deparei com alguns problemas pontuais. Por exemplo, no resumo que antecede o corpo principal do artigo (não sei se foi a própria autora quem o escreveu ou se já foi alguém do jornal), lemos o seguinte:

“O domínio da técnica de cozer alimentos representou vantagem competitiva para o homem em relação a outros animais.”

A expressão “vantagem competitiva” está sendo usada aqui, ao que parece, no sentido de “vantagem seletiva”. Tratar-se-ia, nesse caso, de um grande equívoco. Não custa ressaltar: a seleção natural é um processo que opera entre indivíduos de uma mesma população (i.e., coespecíficos que vivem juntos em um mesmo hábitat). Não faz sentido afirmar, portanto, que uma determinada característica tenha conferido aos nossos ancestrais uma vantagem seletiva em relação a outras espécies de animais.

Na frase seguinte, lemos:

“O aprendizado lhe permitiu obter rápida e facilmente combustível energético para alimentar 86 bilhões de neurônios e deu impulso a funções cerebrais cognitivas, não ligadas à sobrevivência.”

Afirmativa triplamente problemática. Em primeiro lugar, não é necessário evocar a ocorrência de aprendizagem. Em segundo lugar, caberia ressaltar (como a própria autora faz mais adiante, no texto principal) que o controle do fogo – e, talvez, o próprio cozimento – não teria começado com a espécie humana (Homo sapiens), mas sim com um de nossos prováveis ancestrais (Homo erectus). Por fim, o mais importante: a afirmativa de que as funções cerebrais cognitivas não estariam ligadas à sobrevivência é, na melhor das hipóteses, um palpite gratuito e desnecessário.

Dicotomia explicativa

Embora alguns estudiosos defendam a ideia de que as nossas funções cognitivas sejam um “subproduto” da evolução de outras características do cérebro, há também quem argumente a favor de explicações adaptativas, segundo as quais o desenvolvimento de tais funções teria sido lapidado pela seleção natural. Não estou aqui dizendo que a autora deveria ter abordado essa questão em seu artigo, estou apenas alertando contra afirmativas gratuitas e desnecessárias (e.g., na frase acima, o trecho “não ligadas à sobrevivência”) que, muitas vezes, servem apenas para induzir o leitor a erros e mal-entendidos.

No fim das contas, penso que o caso mencionado acima serve para ilustrar o tipo de confusão que pode acontecer quando não observamos a dicotomia fundamental que ronda todo e qualquer fenômeno ou processo biológico. De um lado, temos as explicações funcionais, envolvendo ontogenia e fisiologia; de outro, as explicações históricas, envolvendo filogenia e aptidão – para mais detalhes e exemplos, ver, neste Observatório, “Ciência, tecnologia, embromação” e “Considerações acerca do envelhecimento”.

Referências citadas

FONSECA-AZEVEDO, K. & HERCULANO-HOUZEL, S. 2012. Metabolic constraint imposes tradeoff between body size and number of brain neurons in human evolution. PNAS109: 18571-6.

HERCULANO-HOUZEL, S. 2002. O cérebro nosso de cada dia: Descobertas da neurociência sobre a vida humana. Rio de Janeiro, Vieira & Lent.

HERCULANO-HOUZEL, S. & outros 3 coautores. 2007. Cellular scaling rules for primate brains. PNAS 104: 3562-7.

WRANGHAM, R. W. & outros 4 coautores. 1999. The raw and the stolen: Cooking and the ecology of human origins. Current Anthropology40: 567-94.

WRANGHAM, R. W. 2010. Pegando fogo: Por que cozinhar nos tornou humanos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

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Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor; autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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