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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNAIS PARA IMIGRANTES

Para ler longe de casa

Por Matías M. Molina em 18/02/2014 na edição 786
“Imprensa Italiana no Brasil”, de Angelo Trento. Editora da Universidade Federal de São Carlos. 276 págs., R$ 35,00 # reproduzido do suplemento “Eu & Fim de Semana” do Valor Econômico, 14/2/2014

O Brasil teve no passado, entre o fim do século XIX e começo do XX, uma variada e dinâmica imprensa em língua estrangeira. Havia jornais escritos com caracteres latinos, góticos, hebraicos, arábicos ou japoneses, em mais de uma dúzia de línguas, e destinados a leitores das mais diversas tendências políticas, que iam de um conservadorismo ultramontano até o anarquismo mais radical. Foi período do grande surto de imigração, durante o qual 3,5 milhões de pessoas chegaram ao país.

A maioria dessas publicações se concentrava em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mas praticamente todas as unidades da União tiveram folhas em vários idiomas.

Predominavam os jornais de língua italiana, com mais de 30 títulos; havia uns dez no Rio e pelo menos 22 em São Paulo, onde em 1907 chegaram a circular cinco diários simultaneamente. A predominância da imprensa nessa língua é compreensível, uma vez que entraram mais imigrantes italianos, 1,2 milhão, que de qualquer outra nacionalidade.

Essas publicações, sua penetração entre os imigrantes e sua relação com o país que os acolheu são o objeto do livro “Imprensa Italiana no Brasil”, de Angelo Trento, lançado no fim do ano passado. A imprensa já fora abordada em capítulos de obras sobre a imigração, como “Italianos no Brasil: Andiamo in ‘Merica”, de Franco Cenni, mas o livro de Trento é, sem dúvida, a obra mais completa sobre um tema pouco conhecido.

Pesquisador e professor universitário, Trento observa que anteriormente os historiadores se serviram da imprensa apenas como fonte e que as poucas incursões nesse terreno foram inseridas marginalmente; ele quer analisar seu conteúdo, orientação e função.

Segundo Trento, o dado mais importante é a proliferação de jornais em língua italiana. Num exaustivo levantamento em arquivos e bibliotecas públicas, de longe o mais completo feito até hoje, catalogou mais de 800 publicações de diversas periodicidades, número que, adverte, “não é certamente definitivo e talvez não esteja nem perto de sê-lo”. Trento fornece, num apêndice, informações sobre todos eles.

Embora a quantidade pareça surpreendente, observa, a maioria era de jornais anêmicos, de vida curta e atropelados pela penúria de leitores, pelas dificuldades financeiras, a improvisação e a limitada profissionalização dos jornalistas, “meros imigrantes com alguma instrução”.

Mas também havia publicações de influência e vida mais longa. Como o semanário anarquista “La Battaglia” (1904-1913), com tiragem nunca inferior a 3 mil exemplares e picos de 5 mil, números expressivos para a época; o primeiro jornal socialista, “Il Messagero”, que superava as 4 mil cópias; “Avanti!”, que chegou aos 8 mil exemplares.

No entanto, a imprensa de mais longa duração foi a que Trento qualifica de burguesa, como “La Tribuna” e “Il Piccolo” de São Paulo, “Il Bersagliere” e “La Voce d’Italia”, do Rio, que durou mais de 40 anos; “Stella d’Italia” e “Staffetta Riograndense”, do Rio Grande do Sul. Ou jornais de humor, como “Il Pasquino Coloniale”, que viveu 31 anos e chegou a tirar mais de 30 mil cópias.

Algumas publicações não hesitavam em recorrer a expedientes duvidosos para sobreviver, grudando-se a empresários ansiosos por destaque. “São os italianos bem-sucedidos nos negócios ou no comércio que promovem ou sustentam a imprensa local”, afirma um escritor citado por Trento.

Dos quatro diários socialistas, o mais influente, de maior circulação e vida mais longa foi “Avanti!”, voz forte na greve de 1917

A elite da coletividade italiana subsidiava a imprensa e a usava para autopromoção e como arma em suas brigas e disputas comerciais. Os jornais se digladiavam e desferiam “furiosos e repetidos ataques pessoais ao protetor do adversário”. Assim, “Il Piccolo”, que vivia à sombra de Rodolfo Crespi, um dos maiores industriais do país, atacava seu concorrente Francesco Matarazzo e o jornal ligado a este, “La Tribuna”, que, por sua vez, reagia. A desavença só foi resolvida pela intervenção de autoridades diplomáticas.

Os jornais publicavam pouca informação sobre o Brasil. Sobre questões de política interna, agiam com prudência; a informação e os comentários eram escassos. Assim como, com exceções, era rara sua preocupação com os problemas sociais da coletividade. Tratavam de maneira genérica situação de exploração, “sem ilustrar casos específicos, posto que os responsáveis por tal exploração eram muitas vezes italianos e, provavelmente, anunciantes”.

A principal preocupação eram os acontecimentos e a política da Itália. Os jornais se atribuíam a missão de modelar a consciência dos leitores; reforçar sua identidade, reforçar a “italianidade” e manter vivos “as lembranças e os pensamentos da pátria”. Trento observa que havia um trabalho de construção de uma identidade étnica e de uma “Itália imaginária, desconhecida pela maior parte dos expatriados, concebida para ressaltar tradições nacionais, raízes comuns e valores compartilhados”, e lembrar “o passado glorioso de nossa gente”.

As publicações de esquerda tiveram papel de importância muito superior a sua circulação. A primeira foi “Il Messaggero”, de orientação socialista, lançado em 1891 como bissemanal e depois, diário. Dos quatro diários socialistas, o mais influente, de maior circulação e vida mais longa foi “Avanti!”. Surgiu um bom número de folhas anarquistas, a maioria de curta duração, e de publicações sindicalistas, entre as que se destacou “La Scure”, “um dos mais sérios e sofisticados periódicos anarco-sindicalistas”. Segundo Trento, os jornais socialistas e os melhores sindicalistas eram ricos em análises do quadro político italiano e internacional, privilegiando o movimento operário.

Mas eram raras as ocasiões em que a imprensa de esquerda mencionava os problemas locais. Às vezes, as únicas referências ao Brasil eram o nome da cidade em que as publicações tinham sede e algumas notas extraídas da imprensa local. “O leitor se deparava, portanto, com resenhas semanais sobre agitações operárias no mundo inteiro sem saber o que ocorria no país em que vivia”.

A falta de recursos era recorrente. Esses jornais eram feitos quase sempre por amadores, o que explica a vida curta e periodicidade irregular da maioria: “circula quando pode”. A vida média era de seis meses a um ano. Vários dirigentes dessas folhas eram presos ou expulsos do país, acusados de agitação.

Essa imprensa reproduziu a eterna vocação dos movimentos de esquerda de dedicar boa parte de seus esforços não para enfrentar o inimigo comum, mas para brigar entre si. Os conflitos entre essas publicações podiam terminar em trocas de acusações e difamações. Os alvos preferidos dos anarquistas eram os socialistas, “cães raivosos do chiqueiro legalista e oportunista” ou “o escarro destilado por uma cloaca máxima”.

Os socialistas defendiam a participação na vida política e a via parlamentar. Mas sindicalistas e anarquistas não queriam soluções que adiavam “para as calendas gregas a revolução social” e não admitiam quaisquer formas de representação política, nem de reformas por meio de uma série de reivindicações que pulverizavam a ideia da revolução.

Para os anarquistas, os aumentos salariais e a redução das horas de trabalho, defendidas por socialistas e sindicalistas, anestesiavam os trabalhadores e eram conquistas ilusórias. Combatiam qualquer gradualismo e as greves parciais. Defendiam a agitação que levaria à greve geral.

E não eram raras as disputas entre os próprios socialistas, com acusações de receber dinheiro dos capitalistas para reduzir as críticas às condições de trabalho de seus anunciantes; “Avanti!”, o maior jornal do Partido Socialista, morreu provavelmente por disputas internas. Nem havia concórdia entre os libertários puros, os anarco-sindicalistas e os seguidores de outras facções.

Mas todos defendiam o internacionalismo, eram anticlericais e condenavam o militarismo e a “degeneração moral da sociedade burguesa”. Por questões morais, os anarquistas pareciam puritanos. Condenavam o futebol, um “esporte bárbaro”, praticado somente pelos ricos, e pelos pobres por imitação; os bailes nos salões públicos, por serem “campos de sedução das filhas do povo”, que eventualmente seriam encaminhadas à prostituição; o Carnaval, no qual aparecia “todo o cretinismo burguês”, enquanto os pobres ficavam na miséria.

Outro alvo comum eram o patriotismo acrítico da elite, “os exploradores patrióticos” e o “patriotismo adinheirado”. Para os anarquistas, o patriotismo era o câncer da humanidade e atacavam os heróis patrióticos da Itália, como Giuseppe Mazzini, o herói da unificação italiana, e Garibaldi (“a serviço da monarquia”). A maioria dos jornais de esquerda se manifestou contra as aventuras militares da Itália na África, que sacrificava “tantos filhos da plebe”.

Foi o “Avanti!” que lançou a palavra de ordem da histórica greve geral de maio de 1917 em São Paulo, que começou numa das fábricas de tecidos de Rodolfo Crespi e se alastrou pela cidade. A imprensa de esquerda apoiou unanimemente a Revolução Russa desse ano: “a utopia de ontem é, hoje, realidade”, segundo um jornal anarquista; o Partido Comunista, no Brasil, surgiu de um grupo de anarquistas, para os quais não havia contradições entre os dois movimentos.

Os anos que se seguiram ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foram de grandes mudanças para os jornais em italiano. A imprensa operária definhava, apesar de algumas tentativas nos anos 1920 para reativá-la. A imprensa burguesa, incluindo as folhas moderadas, começou uma guinada gradual, mas constante, em direção ao fascismo.

Terminada a Primeira Guerra Mundial, os governos de Roma eram considerados fracos pela imprensa italiana no Brasil, que os julgava culpados de terem jogado o país ao caos e alimentado um clima de violência. Os jornais opinavam que, no plano internacional, a Itália tinha sido esfaqueada pelas costas e ficaram assustados com a emergência, do outro lado do mar Adriático, de um novo país, a Iugoslávia.

Anarquistas condenavam o futebol, “esporte bárbaro” dos ricos, e viam no Carnaval uma expressão de “cretinismo burguês”

Ante o medo do comunismo e da instabilidade política, acolheram Mussolini como a solução, passando a apoiá-lo, primeiro com discrição e depois com fervoroso entusiasmo. As agressões, arruaças, assassinatos e desmandos dos grupos fascistas eram minimizados pela imprensa italiana no Brasil, para quem os culpados eram sempre os socialistas; os “camisas negras” fascistas só reagiam a provocações. Parte da imprensa moderada se manteve levemente discreta, mas, a partir de meados dos anos 1920, aderiu ao regime de maneira acrítica. Os editoriais dos jornais eram substituídos por artigos de figuras do regime ou discursos do Duce. Até o equilibrado “Fanfulla” exaltou Mussolini como baluarte contra o bolchevismo e elogiou sua missão regeneradora. O governo de Roma recompensava essa imprensa com subsídios, financiamentos, franquias telegráficas. Se os incentivos não surtiam efeito, recorria-se à chantagem.

A imprensa não teve muito trabalho para convencer seus leitores: a aprovação da colônia italiana ao governo fascista de Roma e a admiração por Mussolini eram quase unânimes. A elite aderiu com fervor: Crespi deixou em seu testamento 500 mil liras para o Duce; os “camisas negras” velaram o corpo de Francesco Matarazzo.

Houve um pequeno núcleo de imprensa antifascista. Eram folhas de vida curta, impotentes para convencer a colônia, sofriam as represálias do corpo diplomático italiano e estavam divididas pelas brigas internas. Os jornais mais combativos foram “Alba Rossa” e “Guerra Sociale”, anarquistas, “La Difesa” e “Il Risorgimento”.

Essa etapa da euforia fascista acabou durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a Itália se alinhou com a Alemanha e o Brasil, com os aliados. Os jornais em língua estrangeira foram impedidos de circular. Depois da guerra, alguns foram relançados, mas sem a penetração do passado. Quase todos definharam e poucos sobreviveram.

Trento examina o surgimento, auge e declínio dessa imprensa. Analisa seu conteúdo, mas não se detém na descrição dos principais jornais. Uma exceção é o “Fanfulla”, sobre o qual escreveu, talvez com excessiva parcimônia. Foi, sem dúvida, o jornal de maior peso e autoridade, o mais influente e um dos mais longevos em italiano publicados no Brasil. “Fanfulla” e “Deutsche-Zeitung”, da colônia alemã, eram os diários mais influentes em língua estrangeira.

“Fanfulla” foi fundado em 1893 por Vitaliano Rotellini, ex-tipógrafo e anarquista nascido em Roma. Foi chamado o papa dos jornalistas italianos no Brasil. Trento menciona que o jornal apresentava, até o período entre as duas guerras mundiais, um panorama equilibrado e harmonioso de notícias e atribui o seu sucesso às informações sempre completas e à qualidade das fontes; era o mais responsável dos jornais italianos. Tinha uma sucursal em Roma, correspondentes em Buenos Aires e Londres, em várias cidades do Brasil, e uma densa rede, com cerca de 60 colaboradores, no interior de São Paulo.

Sua tiragem era superior à de todos os outros jornais italianos. Na América Latina, só perdia para o tradicional diário “La Patria degli Italiani”, de Buenos Aires. Trento faz a surpreendente afirmação de que “foi o segundo maior diário de São Paulo, em qualquer idioma, entre o início do século XX e o final da década de 1930, tendo passado das 15 mil cópias de 1910 às 40 mil de 1934, muitas delas lidas também por brasileiros”. O maior jornal, sem dúvida, era “O Estado de S. Paulo”, mas é arriscado assegurar quem ocupou o segundo lugar. No começo do século XX, dois vespertinos, o “Diário Popular” e “A Plateia”, tinham uma circulação razoável; no fim da década de 1920 e na de 1930, “A Gazeta”, o “Diário da Noite” e a “Folha da Noite” tinham forte procura.

Mas não há nenhuma dúvida de que o “Fanfulla” assumiu a vanguarda de algumas inovações técnicas. Foi, por exemplo, o primeiro jornal de São Paulo a introduzir o uso de linotipos para a composição, informação não mencionada no livro resenhado.

“Fanfulla” soube também, como escreveu Trento, interpretar as exigências, paixões e reivindicações dos italianos de São Paulo, atraindo leitores de quase todas as classes sociais. Quando Rotellini, o fundador, vendeu metade das ações e voltou à Itália em 1910, o jornal iniciou uma virada que o levaria a aderir ao fascismo, alcançando sua maior penetração na década de 1930. Deixou de circular em 1942, durante a guerra, e foi relançado em 1947. Teve ainda fôlego para vender 20 mil exemplares nos anos 1950, mas declinou paulatinamente. Transformou-se em semanário, com o nome de “La Settimana”, depois “La Settimana del Fanfulla” e “Fanfulla” de novo, até deixar de circular na versão impressa neste ano; continua na versão digital. (A principal obra sobre o jornal é a dissertação de mestrado de Marina Consolmagno na Universidade de São Paulo, que, lamentavelmente, não foi publicada em forma de livro).

O leitor pode sentir falta do perfil de outros jornais, como “Avanti!”, “Il Piccolo”, “La Battaglia”, ou “La Patria degli Italiani” e “Il Diritto”, do Rio de Janeiro. Mas isso não diminui a importância da obra de Angelo Trento. A partir dela, a imprensa em língua italiana não poderá ser relegada a uma nota de rodapé na história da imprensa brasileira.

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Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição

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