Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > PESOS E MEDIDAS

O jornalismo do homem cordial

Por Júlio Ottoboni em 06/05/2014 na edição 797

Há uma série de assuntos que passam distante dos jornais e chefias de Redação. Temas proscritos, copilados em um índex maldito, proibidos em muito pela presunção de se acreditar que as relações de causa e efeito são sempre pontuais, quando não superficiais. Vende-se a ideia que o Brasil já está desnudo por sua tropicalidade e miscigenação em suas relações sociais, que o Estado é uma extensão da família. Infelizmente o maior mercador desta farsa é a imprensa, quando se apresenta egocêntrica e manipuladora.

Criou-se, há muito tempo, a noção de que tudo deve ser resumido por equações simplistas. A base do discurso, por mais falso que seja, deve-se promover o ideário no qual a miscigenação racial, cultural e religiosa brasileira formou o “homem cordial”, generoso e afável. Algo que até Dom Bosco, em suas visões telúricas, duvidaria.

Exemplos da “cordialidade” surgida nos anos 1930, e que perdurou até os anos 60, podem ser vistos hoje nos documentários e reportagens sobre o que espera o visitante na Copa do Mundo de Futebol. Uma cortina de fumaça, usada à exaustão, cujo fim é esconder as vicissitudes de uma sociedade com graves problemas de identidade e diferenças profundas.

O jornalismo brasileiro trata o que está fora de sua compreensão – compromisso, ou mesmo por mero capricho – como inexistente. Os esforços para se ter uma imprensa de abrangência nacional se transformaram fendas profundas onde se fincou de vez o tripé formador de opinião do país. São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília ditam a escrita e a leitura de uma nação mal resolvida.

A integração nacional pela imprensa nunca deixou de ser uma “licença poética” do jornalismo. Algo hoje praticamente abandonado – a não ser pela Rede Globo e seu ideário – mais por imposições mercadológicas que editoriais. Essa proposta cedeu lugar a outra prática, cada vez mais burocratizada, insensível, uniforme e, por fim, pasteurizada.

Por falta de competência, de visão estratégica ou mesmo por comodismo, não há interesse em cruzar informações e sobrepor os fatos numa rede de conexões. Deixar pontas soltas acabou por se tornar especialidade na imprensa nacional. O Brasil é um palco de grosserias e intolerâncias há muito tempo, aprimorado agora no uso maciço das redes sociais. Mas esse cadarço solto não será amarrado, o sapato continuará frouxo, mesmo que leve ao tropeço e a queda.

Sem autocrítica

A imprensa perde em muito ao ingressar sem a devida autocrítica em movimentos meramente oportunistas. A “banana contra o racismo” ganhou imensa repercussão por tratar-se da agressão estrangeira contra um brasileiro, diga-se de passagem, feita por um indivíduo em um jogo de futebol. Entretanto, episódio semelhante ocorreu em Santa Catarina, onde grande parte da torcida de um estádio de futebol imitou sons de macacos contra um jogador negro de um time paulista. A reverberação foi muito menor, apesar da gravidade ser infinitamente maior.

A propósito, sempre foi do feitio da imprensa tratar as situações do esporte – em particular do futebol – como algo à parte, como se ali não estive presente um microcosmos da sociedade. A desculpa é o “calor da emoção” – novamente o mesmo princípio conceitual do ‘homem cordial’ – como se isso não motivasse tantos outros feitos cotidianos.

Difícil entender a postura da imprensa brasileira. A mesma agressão pode ter valores distintos, conforme os humores dos tutores da informação. Como esconder do público, por exemplo, que um repórter da TV Bandeirantes ficou literalmente encharcado por cusparadas e recebeu inúmeros xingamentos apenas por ser de São Paulo. O jornalista, um dos melhores do meio esportivo, sofreu essa violência ao cobrir uma partida de futebol em Curitiba, no Estádio Couto Pereira.

Bastou o caso ser em solo nacional para vingar a desonestidade intelectual e o fato não ser noticiado. A “imprensa cordial” simplesmente ignorou o ocorrido. O jornalista chegou a comentar desolado que “nunca doeu tanto uma cusparada”. Ele já havia sido vítima de muitas delas em diversos estádios do Brasil. Evidente, esse escarro doía mais, por vinha cheio de rancor provinciano e preconceito.

Complicado mesmo é quando a própria imprensa é protagonista destas asquerosidades. Jornalistas e até órgãos de imprensa se incumbem de promover o racismo, bairrismo e até mesmo tratar com sentimentos xenófobos pessoas oriundas de outras regiões do país. Fato, inclusive, bem mais frequente do que se imagina. Há uma onda segregacionista ganhando tamanho e força em território nacional. E com a cumplicidade quase total da mídia.

Pontas soltas

Deixar pontas soltas, sem querer amarrá-las, é algo que soa a cretinice retumbante ou a uma covardia repulsiva. Bairrismo, xenofobia, racismo e separatismo a agressões físicas e morais e vilania política, entre outros disparates, sempre estiveram presentes no Brasil real. Um país que existe queiram ou não os editores-censores e seus noticiários.

Embora divulgado, um caso recente se tornou emblemático e atualíssimo nesta discussão. Um grau a mais que uma simples manifestação bairrista, mas dotada de um discurso – no mínimo – desonesto, para não dizer criminoso. O governador do Acre, Tião Viana (PT), avançou como um cão raivoso contra os paulistas. Chamou-os de maneira generalizada de “preconceituosos”, pois o governo de São Paulo protestou contra o envio de imigrantes haitianos que chegavam aos montes sem qualquer aviso prévio ou pedido de acolhida.

Num arroubo de demagogia, Viana convidou – com grande repercussão na imprensa nacional e internacional – os flagelados do Haiti para se abrigarem no Acre. Seu ato teve um alto preço, o estado acriano passou a receber uma imensidão de desesperados e famintos. Sem condições de ampará-los, passou utilizar os aviões que levavam doações para a região atingida por uma grande cheia para deportar os indesejados.

Desde 2012, o governador petista envia centenas de refugiados para São Paulo e Porto Alegre. E imputa aos outros estados e governos a condição de marginalizar os negros estrangeiros e adotar políticas “higienistas”. A imprensa informou, entretanto não consegue livrar-se da falta de memória. Esqueceu-se de conectar fatos e discursos, com raízes históricas. Entre eles as polêmicas do final do século passado, quando eclodiram movimentos separatistas nos estados do Norte e Nordeste. A motivação era o “imperialismo sulista”, encabeçado por São Paulo, que se enriquecera pela exploração dos nordestinos e nortistas.

O mesmo é recorrente no Sul e no Sudeste, onde já se tentou estancar o movimento migratório de diversas formas, forçando a Constituição de 1988 a garantir o “direito de ir e vir”. O levante de 1932, em São Paulo, mesmo negado na história paulista, ficou conhecido como a Revolução dos Italianos, por seu forte componente anárquico e separatista.

O arremate dessas questões ainda tem ressonância nas tensões internas de divisas entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Tocantins e Pará, em diversos pontos da Amazônia, isso quando não extrapola e envolve países vizinhos. Ou seja: há sim, no país, um rastilho separatista que a qualquer momento pode se incendiar.

Sentimentos insepultos

Novamente o futebol traz a tona esses sentimentos insepultos, entretanto ignorados. Mesmo com uma das rivalidades mais ferozes entre os clubes, as torcidas do Internacional e do Grêmio, ambos do Rio Grande do Sul, tiveram seu momento de congraçamento quando o Corinthians, clube paulista, foi rebaixado. Em algumas ruas de Porto Alegre se via ambas as torcidas, até então inimigas, abraçadas e queimando bandeiras de São Paulo. A imprensa ignorou solene e covardemente o caso. Como se ali não houvesse notícia ou informação relevante.

Entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, as ações neonazistas crescem em proporções espantosas e dão as caras da intolerância nas manifestações de rua e contra qualquer um que não seja alinhado à sua ideologia. Impregnados de discursos separatistas, esses grupos ainda refletem atos da década de 1930, quando as “colônias” decoravam as paradas cívicas do Estado Novo com bandeiras do Terceiro Reich e do Brasil nas vias públicas das capitais na Região Sul.

A situação tem chegado a extremos. É relativamente comum testemunhar situações em que profissionais são alijados de empregos em determinadas regiões do país por sua origem, naturalidade ou descendência. Há exigências que beiram o absurdo e a inconstitucionalidade. Fazem parte do cotidiano do Brasil segregacionista, contudo nunca se tornam pauta na imprensa.

A situação é de extrema complexidade, mas furtar-se a ela, como se o ato de tapar os olhos promovesse o desaparecimento do problema, só agrava o quadro e retardará a solução. Cabe a imprensa reportar e analisar esse processo sem temores de ser taxada de sensacionalista ou alarmista. A questão existe e precisa ser tratada. E nunca custa lembrar: jornalismo se faz com prudência, que não é sinônimo de covardia e omissão.

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Júlio Ottoboni é jornalista, pós graduado em jornalismo científico

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