Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA PARAENSE

O colapso da grande imprensa e a formação da opinião pública

Por Alexandre Pinho Fadel em 13/05/2014 na edição 798
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 560, 1ª quinzena/ maio 2014; intertítulo do OI

Após doze anos morando fora da minha terra natal, retorno a Belém e, com os olhos ainda distanciados do cotidiano citadino, constato que os dois maiores representantes da grande imprensa paraense (O Liberal e o Diário do Pará) perderam parcialmente o sentido do seu principal papel na sociedade, que é informar. E digo mais: o que observei foi que estes dois meios de comunicação, em razão de entrevero politico-familiar (Maiorana x Barbalho), não dispensam aos seus leitores um patamar razoável de respeito, e as consequências deste estado de coisas são perversas e preocupantes, consoante procurarei demonstrar.

Atente-se, desde logo, que, dado o grande relevo desempenhado pelos canais de comunicação na construção de uma democracia legítima, foi dedicado na Constituição da República um capítulo à Comunicação Social com o escopo de:

>> garantir a liberdade de atuação;

>> impedir embaraços na atividade informativa;

>> proibir qualquer tipo de censura (art. 220, caput e §§ 1º e 2º, da CRFB).

Ao mesmo tempo, tendo em vista a importância para a soberania pátria, a Constituição impôs que a propriedade dos meios de comunicação, assim como, a responsabilidade editorial, sejam “privativas de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos” (art. 222, caput § 2º, da CRFB). Para viabilizar a efetividade de tão elevados desideratos, é garantida, inclusive, a imunidade tributária aos jornais e ao papel destinado à sua impressão (art. 150, VI, d, da CRFB).

Resta claro, portanto, que este aparato normativo tem como intuito cercar de todas as garantias possíveis o chamado “quarto poder”, o qual tem como uma das mais relevantes atribuições a formação da opinião pública. É sabido que estando ausentes os direitos de buscar a informação, de informar, de opinar e de criticar não há como subsistir legitimamente o processo democrático. Em síntese, existe uma profunda relação entre a imprensa, como responsável pela formação da opinião pública, e a democracia. [A expressão “quarto poder” nos remete originalmente “à organização feudal em torno de três estados formadores do Parlamento: o Clero, a Nobreza e os Comuns”, e não “como alternativa aos poderes executivo, legislativo e judiciário”, e, desta maneira, “a imprensa como ‘quarto estado’ estaria representando os interesses do restante da sociedade, ou seja, o papel da imprensa seria tornar público temas antes só restritos ao Parlamento [inglês]” (RIZZOTTO, Carla Candida. “Constituição histórica do poder na mídia no Brasil: o surgimento do quarto poder”. Revista de Estudos da Comunicação, Curitiba, v. 13, n. 31, p. 111-120, maio/ago. 2012)]

Cegueira e omissão

Traçadas tais premissas, vamos aos fatos que levam, a priori, ao descrédito das informações veiculadas e dos próprios meios de comunicação acima citados. Lendo as colunas “Repórter 70” e “Repórter Diário” é possível encontrar expressões, para dizer o mínimo, insólitas para jornais de grande circulação, como “Mister M.” (O Liberal) e “Maiotralhas” (Diário do Pará), que facilmente são identificados pelos os moradores locais como, respectivamente, Helder Barbalho e Família Maiorana (fico imaginando o que passa pela cabeça de uma pessoa que não conheça as entranhas paraenses Brasil a fora quando lê tais expressões).

Enfim, as abordagens refletem um desrespeito grave com o leitor e, acima de tudo, uma desmedida tendência editorial que indica um total descaso com a informação, com os fatos (!), e desta forma acaba por prevalecer a (des)informação, a não-informação ou a informação ao avesso, que está longe de ser o desiderato da imprensa.

Estaria sendo exagerada a abordagem? Creio que não. Explico. Os jornais O Liberal e Diário do Pará possuem a maior tiragem no Estado e os mesmos são responsáveis pela cobertura local das questões políticas. Afinal, salvo episódios esporádicos, não encontraremos tais temas retratados em jornais de outros estados ou regiões. Portanto, excluídas as informações abordadas nos jornais que advêm de agências de notícias, paira uma grande penumbra sobre a veracidade fática do que está sendo divulgado.

É fato que os meios de comunicação possuem tendências ideológicas que permeiam suas pautas. Todavia, a estranheza do contexto paraense é o grau de primitivismo e arrogância com que as famílias Maiorana e Barbalho fazem as suas abordagens, e neste sentido sempre restará a indagação de qual o sentido de uma dada notícia/campanha capitaneada por tais meios de comunicação.

O “estado da arte” da grande imprensa paraense nos remete facilmente ao processo de disputa, violência e dominação empreendido pelo coronelismo imperante na República Velha brasileira, bem trabalhada por Vitor Nunes Leal em Coronelismo, Enxada e Voto. Ocorre que não nos encontramos no interior brasileiro, mas em um Estado (Pará) já com mais de 8 milhões de habitantes e uma capital (Belém) com população superior a 1,5 milhão (dados de 2012); e, em especial, não estamos mais na transição dos séculos XIX e XX, mas em 2014.Destarte, as práticas retrógradas, ainda recorrentes, geram consequências muito deletérias à democracia local, tendo em vista que a opinião pública é formada/forjada com a (des)informação.

Creio que expressei algo que todos os paraenses, com um mínimo de instrução e senso crítico, veem com muita nitidez, mas que um grande número de conterrâneos podem não discernir. Logo, fazer-se de “cego” é ser omisso e esta (in)ação prejudica a todos que vivem em um Estado com problemas sérios a serem superados. Aqui, aplica-se perfeitamente o provérbio “o pior cego é aquele que não quer ver”.

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Alexandre Pinho Fadel, mestre em Direito (PUC-Rio) e professor da Universidade da Amazônia (Unama)

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