Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > GUERRA AO ERRO

A correção de erros no jornalismo online

Por Lívia Vieira em 20/05/2014 na edição 799

Reproduzido do objETHOS, 19/5/2014

Na era da instantaneidade e do ‘tempo real’, vivemos atualmente o que Ignacio Ramonet chama de “a explosão do jornalismo”. Segundo o autor, passamos das mídias de massa para a massa de mídias. Ou seja, se antes havia uma certa hegemonia, com poucos veículos agindo como emissores de informação, hoje o cenário mudou: cada vez mais pessoas produzem conteúdos (noticiosos ou não) em diversas mídias. Mais notícias circulando em curtíssimo espaço de tempo na internet, criadas ou não por jornalistas, nos fazem chegar às seguintes questões: o jornalismo online está produzindo informação com menos erros? E de que forma os veículos corrigem seus erros? Como funciona o sistema de publicação de erratas no jornalismo online brasileiro? Há modificações nas páginas dos webjornais não informadas aos leitores, ou seja, há erros que não se transformam em erratas, mas simplesmente em atualizações?

Essas foram algumas das perguntas norteadoras de minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, entitulada ‘Parâmetros éticos para uma política de correção de erros no jornalismo online’. A defesa ocorreu no dia 11 de abril, e teve como avaliadores os professores Francisco Karam, Luiz Gonzaga Motta e Sylvia Moretzsohn. O orientador da pesquisa foi o professor Rogério Christofoletti.

Um conceito para o erro jornalístico

O primeiro passo foi a sistematização de um conceito de erro jornalístico, a partir de uma visão crítica sobre o estudo de diversos autores e da aproximação com o conceito de erro médico: 

De natureza técnica e ética, o erro jornalístico é a incorreção, falsificação ou imprecisão na publicação de uma notícia, causado por negligência, imprudência ou imperícia. A não admissão do erro ou sua ocorrência deliberada afetam a qualidade e a credibilidade do produto jornalístico junto ao público leitor ou a outros grupos interessados.

Monitoramento de erros nos webjornais

A segunda etapa foi resultado do monitoramento de 1.500 notícias por 100 dias nos webjornais O Globo, Zero Hora, Folha de S. Paulo, G1 e R7. Tratou-se de um período bastante frenético da pesquisa, em que selecionei as páginas a serem monitoradas três vezes por dia. Essa imersão nas modificações feitas nas notícias, possibilitada pelo site Change Detection (que destaca em amarelo o que foi incluído e em tachado, os trechos suprimido), foi essencial para uma interpretação profunda acerca da correção de erros. Foram observadas dez falhas: falta de transparência, retificação não visível, interrupção do processo de retificação, revisão deficiente, pressa, perpetuação do erro, falta de interação com o leitor, notícia original sem menção ao erro, reprodução automática de material de terceiros e excesso de modificações.

Dos casos analisados na dissertação, selecionamos um para exemplificar. No dia 16 de fevereiro de 2013, o portal R7 afirmou, no primeiro parágrafo da notícia, que “diante da onda de violência que já deixou 106 mortos…”; e ainda disse, no subtítulo da matéria, que “neste sábado, 25 pessoas foram presas, segundo cinco advogados”. Duas palavras erradas foram o bastante para mudar completamente a informação. Na verdade, não foram 106 mortos, mas 106 ataques; e a informação dos 25 presos não havia sido passada pelos advogados (como sugere a palavra “segundo”). Era: 25 pessoas foram presas, sendo cinco advogados. Os erros permaneceram ao longo de quase 24 horas no site do R7. Inclusive a matéria foi manchete do portal durante todo o dia 16. Depois, foi simplesmente retificada sem qualquer errata que, nesse caso, seria extremamente necessária.

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Entrevistas com editores de O Globo, Folha de S. Paulo, Zero Hora, G1 e R7

Para embasar a construção de uma política de correção de erros no jornalismo online, objetivo da pesquisa, foram realizadas entrevistas presenciais individuais em profundidade com o Diretor de Conteúdo do portal R7, Luiz Pimentel; com o Secretário-Assistente de Redação da Área Digital da Folha de S.Paulo, Roberto Dias; com a Diretora de Redação da Zero Hora e dos jornais do Grupo RBS no Rio Grande do Sul, Marta Gleich; e com o Editor Executivo de Plataformas Digitais de O Globo, Pedro Doria. Em razão da política interna do portal G1, a entrevista com o Editor Executivo Renato Franzini só pôde ser realizada por e-mail e por intermédio do Globo Universidade, que centraliza a interlocução entre Academia e veículos do grupo. No caso do jornal Zero Hora, ainda foi realizada uma entrevista por e-mail com o Diretor de Redação do Diário Catarinense e dos jornais do Grupo RBS em Santa Catarina, Ricardo Stefanelli , pois ele coordenou, em 2007, a criação do Manual de Prevenção de Erros do Grupo RBS.

Esta foi, sem dúvida, uma das etapas mais enriquecedoras do trabalho, que possibilitou muitas descobertas sobre o processo interno das redações analisadas. Veja abaixo o resumo das questões abordadas com os editores:

Tema Resumo da análise
A existência (ou não) de uma política de correção de erros Dos cinco webjornais apenas um possui um documento específico sobre o processo de correção de erros. E mesmo na Zero Hora esse documento não é mais difundido como na época do seu lançamento, em 2007, necessitando, inclusive, de uma revisão. Outra questão que chama atenção é o fato de o portal R7 disponibilizar seu manual de redação somente de forma interna.
Como os erros chegam à redação A comunicação de erro por parte do leitor é um processo que está dentro das preocupações dos webjornais, mas que nem sempre funciona como deveria.
O processo de revisão das notícias O R7 possui três profissionais específicos para revisão, mas eles atuam após a publicação das notícias. A Folha de S. Paulo não permite que o repórter publique direto, sem passar antes pelo editor assistente. Nos demais webjornais, não há revisores e os repórteres publicam direto.
O fluxo da correção de erros De forma mais ou menos estruturada, todos os webjornais possuem um fluxo de retificações. No G1, esse fluxo parece estar bem mapeado, assim como na Folha de S. Paulo, que centraliza na editoria de Painel do Leitor. No R7, em O Globo e na Zero Hora, esse fluxo varia de forma perigosamente subjetiva.
As seções de correção de erros e o ombudsman Somente o portal G1 e a Folha de S. Paulo têm uma seção específica para correção de erros. Sobre a ombudsman da Folha de S. Paulo, é muito positivo o fato de haver uma crítica diária, que circula internamente na redação.
A mensuração dos erros A Folha de S. Paulo é o único webjornal que possui uma mensuração de erros. Curiosamente, a Folha é mencionada pelos editores do portal R7 e de O Globo de forma negativa. Na Zero Hora, já houve esse controle no jornal impresso, mas atualmente não há.
A atribuição do erro ao repórter Pelas respostas, ficou bastante perceptível o peso do erro na figura do repórter, o que não parece ser a melhor política.
Avaliação sobre o processo de correção de erros Apesar de haver uma nítida preocupação com os erros cometidos, poucas são as medidas tomadas especificamente nesse sentido.

 

Política de correção de erros no jornalismo online

Com base nos parâmetros éticos de qualidade, verdade e credibilidade, aliados ao monitoramento das notícias nos webjornais selecionados e às entrevistas com os editores, foi estruturada uma política de correção de erros no jornalismo online. De forma resumida (veja a versão completa nas páginas 204 a 210 da dissertação), a política contém os seguintes itens:

>> Antes de ser publicada, a notícia deve passar por revisão, visando minimizar os erros e aumentar a qualidade do webjornal. Mesmo em casos de notícias de última hora, pelo menos uma pessoa, além do repórter, deve ler as informações e corrigir eventuais erros.

>> Ao ser descoberto, o erro deve ser corrigido, sem subterfúgios. A correção do erro deve ser feita o mais rapidamente possível, pois ela gera confiança e credibilidade.

>> A retificação deve ser necessariamente disseminada pelos mesmos canais nos quais a informação incorreta foi divulgada (redes sociais, site, blogs, etc).

>> O texto da correção deve ser claro e objetivo. É recomendado informar o tempo em que a notícia permaneceu com erro, para contemplar os leitores que tiveram acesso à ela em diferentes momentos.

>> A lista de correções de erros deve estar acessível em seção específica, para que o leitor consulte as retificações. Mas só isso não basta: a notícia original deve igualmente conter menção à retificação.

>> Uma notícia jamais deve ser despublicada, mesmo que ela contenha graves erros jornalísticos. Tentar apagar o rastro do erro nunca é a melhor solução.

>> A comunicação de erro por parte do leitor deve ser feita por meio de um formulário específico no site. O ícone que dá acesso a esse formulário precisa estar visível em todas as páginas de notícias e, de preferência, acompanhado de texto que explique seu significado.

>> Em caso de cumprimento do “Direito de Resposta”, interpelado por uma fonte ou por terceiros, o webjornal deve publicá-lo no mesmo link da notícia original, corrigindo-a.

>> Os erros cometidos devem ser mensurados, para que haja reflexão e consequente prevenção contra futuros erros. No entanto, é importante que o erro não seja atribuído exclusivamente ao repórter, pois num webjornal dificilmente alguém erra sozinho.

>> A partir da mensuração, devem ser feitas reuniões periódicas com editores e repórteres para reflexão acerca dos resultados. Nesta etapa, o papel do ombudsman é fundamental, pois ele pode coordenar as críticas e análises do processo de correção de erros de forma isenta.

>> Periodicamente, deve ser realizada uma pesquisa com leitores e fontes que verse especificamente sobre a correção de erros. Ouvi-los é fundamental para melhorar os processos e para aferir a permanente efetividade desta política.

Dessa forma, entendemos que as diversas reflexões feitas contribuem para a melhora na qualidade do produto jornalístico. O intuito era lançar luzes sobre um assunto inerente à profissão, mas difícil de ser tratado. A nosso ver, após 20 anos de jornalismo online podemos afirmar que ele não pede pressa, mas qualidade.

Referências

RAMONET, Ignacio. A explosão do jornalismo: das mídias de massa à massa de mídias. São Paulo: Publisher Brasil, 2012.

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Lívia Vieira é mestre em Jornalismo pelo POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

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