Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > GUERRA AO ERRO

Pesadelo diário

Por Carlos Castilho em 20/05/2014 na edição 799
Reproduzido da Revista de Jornalismo ESPM nº 9 (abril, maio e junho de 2014)

As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) não alteraram apenas as técnicas, normas de redação e edição no jornalismo contemporâneo. Elas também provocaram alterações na definição dos parâmetros de avaliação de erros na investigação, processamento e publicação de notícias.

Trata-se de uma mudança transcendental, pois ela afeta um dos fundamentos do jornalismo e interfere na atividade diária de repórteres, editores, produtores e comentaristas. Isso sem falar no fato de que a revisão dos parâmetros qualitativos e quantitativos na identificação de erros jornalísticos tende a influenciar também o comportamento dos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

Os conceitos tradicionais de erro no jornalismo começaram a mudar quando a combinação do processo de digitalização e a popularização da internet deu origem a dois fenômenos interconectados: a chamada avalancha informativa e o fim da exclusividade da imprensa na produção e distribuição de informações.

Vale esclarecer que o termo imprensa é empregado neste artigo para designar o conjunto de empresas cujo modelo de negócios se apoia na comercialização de informações. A notícia é o conteúdo recebido pelo leitor, ouvinte, telespectador ou internauta antes de ser inserido no contexto individual; e informação, o material produzido pelo jornalista (profissional ou não profissional) mediante seleção, agregação de valor e formatação para disseminação. Um mesmo número, fato ou evento pode ser tratado como notícia ou informação, conforme a posição do ator no processo de comunicação.

A avalancha informativa gerou uma inédita aceleração na circulação das notícias, a intensificação da concorrência entre produtores de notícias, o aumento da fluidez e imprecisão dos mecanismos de verificação de credibilidade e exatidão. A soma de todos esses fatores aponta numa única direção: a perspectiva de aumento da incidência relativa de erros jornalísticos.

Curva ascendente

Um estudo feito pelos professores Scott Maier e Philip Meyer, entre os anos de 2002 e 2003, mostrou uma incidência de 61% de erros em 4.800 notícias publicadas por 14 jornais regionais americanos. Os resultados da pesquisa, a mais completa já feita na imprensa mundial, são relevantes porque marcam um forte aumento na incidência de erros em textos publicados em jornais, num período em que a imprensa ainda não tinha sofrido o pleno impacto da superoferta informativa gerada pela internet. As conclusões foram publicadas nas páginas 545 a 547 do artigo “Accuracy Matters: A Cross Market Assessment of Newspaper Error and Credibility”, (J&MCQ, edição 82, 2005, ver aqui).

A quantificação do aumento da incidência de erros é uma questão complexa e controversa, porque depende de inúmeras variáveis sobre as quais não há um consenso uniforme nem entre os integrantes de redações jornalísticas nem no segmento acadêmico do jornalismo. Há diversidade de conceitos sobre erro no jornalismo, sobre critérios de identificação e de classificação. Isso faz com que os dados obtidos em pesquisas quantitativas sejam de difícil generalização e aplicação prática, como mostra a tabela ao lado comparativa organizada pelo professor Scott Maier e publicada no artigo citado (tradução e adaptação nossa do original em inglês).

Craig Silverman, autor do blog Regret the Error, um dos raros no gênero do mundo, afirma que a frequência de erros informativos tende a crescer não porque os profissionais e amadores praticantes de atos jornalísticos (ou seja, pessoas sem formação técnica em jornalismo que praticam atos informativos ocasionais em blogs pessoais, redes sociais, vídeos e fotos no YouTube ou similares) sejam menos rigorosos, mas porque o volume de informações disponibilizado para o público cresce vertiginosamente, bem como os recursos tecnológicos para identificar erros jornalísticos se tornaram muito mais sofisticados.

O crescimento enorme na circulação de notícias pela internet – em junho de 2013, por exemplo, num só dia, circularam 548 mil mensagens no Facebook, Google Plus, Twitter e blogs pessoais (ver aqui) – deu origem à controvertida estratégia de “publique primeiro, corrija depois”, adotada por muitas páginas noticiosas online. Na imprensa pré-internet, uma frase como essa equivalia a uma heresia jornalística. Na era digital, a frenética disseminação viral de notícias passou a exigir novas abordagens do problema, já que as normas vigentes atualmente nas redações se mostram insuficientes para lidar com a nova situação.

Convivência difícil

A punição individual do erro deixa de ser viável quando o mundo passa a consumir 1,5 bilhão de gigabytes por mês, segundo dados fornecidos pela empresa Cisco e publicados pelo jornal O Globo em 11/2/2014 (ver aqui). Isso obriga o jornalismo a ir buscar noutras disciplinas elementos para repensar as estratégias de tratamento do erro, algo que para a maioria dos repórteres e editores é “inevitável no exercício da profissão”, conforme depoimentos colhidos por Kirstie Hettinga, autora da pesquisa que serviu de base para seu artigo “Experiencing Error: How Journalists Describe What’s Like When the Press Fails” (Journal of Mass Media Ethics, Volume 28, número 1, 2013).

O erro é um dos maiores pesadelos de um jornalista, mas a realidade cotidiana obriga os profissionais a conviver com ele. Philip Meyer, em seu livro The Vanishing Newspaper, afirma que um “jornal diário sem erros factuais é inviável porque não consegue cumprir prazos de fechamento… O desafio é achar o equilíbrio adequado entre rapidez e exatidão, entre ser completo ou apenas interessante” (a citação foi extraída do original em inglês. No Brasil a obra, lançada pela Editora Contexto em 2007, recebeu o título Os Jornais Podem Desaparecer?).

O professor Philip Meyer também acha que os jornalistas exageram na sua preocupação em transmitir uma imagem de perfeição, porque “o público sabe que um jornal não é àprova de falhas”. Ele sugere que, se os profissionais deixarem de priorizar as sanções para estudar os erros cometidos, a confiança do leitor não será comprometida porque ele saberá que haverá sempre uma correção.

O erro jornalístico é essencialmente um erro humano, área na qual o psicólogo inglês James Reason, autor do livro Human Error, é um dos mais respeitados pesquisadores. Ele é o autor da teoria do “queijo suíço” (ver aqui), desenvolvida com base em estudos feitos sobre investigaçõesde acidentes aéreos, um segmento onde o estudo do erro é levado muito a sério.

Para Reason, existem três tipos de erro humanos:

1. Os lapsos provocados por fatores psicológicos;

2. Os erros provocados pela aplicação equivocada de regras ou normas;

3. Os erros em consequência de planejamento ou conhecimento deficientes.

Os lapsos ocorrem no jornalismo quando alguém comete erros de digitação, se engana na hora de olhar para a câmera de TV, tropeça na leitura de um texto ou troca o nome de um entrevistado. São situações, normalmente involuntárias e imprevistas, sobre as quais é difícil impor um controle. O antídoto é o treinamento e recapacitação, mas mesmo assim não se pode evitar o risco de repetição. A punição nos casos de lapso tem efeitos negativos porque, geralmente, aumenta a insegurança do responsável, afirma Reason.

Já os erros baseados em violação de regras e em conhecimento deficiente são considerados mais graves porque geram consequências muitas vezes irreversíveis. Um exemplo clássico de erro na aplicação de regras no jornalismo é o descumprimento da recomendação de consultar os dois lados de uma questão ou a reconfirmação de dados recebidos de fontes informativas. A falta de checagem motivada pela pressa na publicação de uma informação é a causa mais comum dos erros jornalísticos por descumprimento de regras, segundo Scott Maier.

Os erros baseados em conhecimento deficiente são responsáveis por notícias fora de contexto, como acontece com frequência crescente na interpretação de decisões financeiras, políticas ou diplomáticas num texto jornalístico. São áreas em que a complexidade dos fatos e eventos noticiados é cada vez maior, o que aumenta a possibilidade de erro, já que o jornalista luta contra o tempo na tentativa de identificar corretamente o contexto dos acontecimentos.

Nessa categoria podem-se incluir também os erros gerados por dados distorcidos ou incompletos fornecidos por fontes consultadas por jornalistas. Esses erros são cada vez mais comuns porque aumentaram os casos de fontes com agenda e interesses próprios. O noticiário sobre política, economia, esportes e criminalidade é o que apresenta maior incidência desse tipo de erro jornalístico que geralmente passa despercebido, tanto pelas redações como pelo público.

Os lapsos e deslizes podem ser corrigidos por meio de seções específicas no veículo de comunicação porque geralmentesãopontuais, mas são difíceis de prevenir por serem involuntários e personalizados. Em sua pesquisa, Kirstie Hettinga identificou redações que registram e catalogam lapsos de repórteres e editores para que cada profissional possa encontrar a sua própria maneira de preveni-los.

Os erros jornalísticos provocados tanto pelo uso equivocado ou pelo não uso de regras ou procedimentos, bem como os ocasionados por desconhecimento de contexto ou falha no planejamento editorial, são difíceis de corrigir porque são identificados a posteriori, mas podem ser prevenidos caso haja uma política de pesquisa de erros na empresa ou organização jornalística. Esse tipo de erro também é geralmente inconsciente, o que dificulta a sua identificação prévia à publicação.

Ação e punição

Mudar a cultura de tratamento do erro num jornal, revista, telejornal ou página noticiosa na web não é uma tarefa fácil porque implica rever rotinas e principalmente valores que transcendem a cultura das redações. A sociedade contemporânea está acostumada a tratar o erro como uma ação sujeita a punição, contrariando o pensamento científico segundo o qual dificilmente haverá um acerto sem erro prévio.

O filósofo Karl Popper reforça o papel do aprendizado ao afirmar que “nosso modo de aprender mediante tentativa e erro consiste exatamente em eliminar os erros cometidos ao entendê-los e superá-los, em vez de apenas penalizá-los”. O francês Francis Jambon, autor de uma tese de doutorado sobre erros na computação chamada “Erreurs et Interruptions du Point de Vue de l’Ingénierie de l’Interaction Homme-Machine” (ver aqui) é categórico: “O erro humano é o preço pago pela formidável capacidade de adaptação e tratamento da informação pelos seres humanos”.

A correção de erros tornou-se uma obsessão para a imprensa porque a credibilidade da mídia está associada à sua sobrevivência financeira, especialmente na traumática transição atual de modelos de negócio. Quase todos os grandes jornais, revistas, telejornais e páginas noticiosas na web adotaram o recurso do “erramos” para ganhar a confiança do público. Paul Farhi, autor do texto “Mistaken Nation”, publicado na American Journalism Review, edição de dezembro de 2012/ janeiro de 2013 (ver aqui), adverte que, no entanto, “o primeiro rascunho da história pode acabar calcificado pela rotinização das correções”, se elas não forem acompanhadas de um aprendizado sobre causas e consequências de erros no jornalismo.

Esse aprendizado se constitui hoje no grande desafio a ser enfrentado pelo jornalismo no que se refere à questão do erro informativo. A maior parte dos trabalhos desenvolvidos nessa área destacam o lado anedótico, o moral e o normativo, voltados para a elaboração de novas regras. A nova situação criada pela aceleração e ampliação no fluxo de notícias gera a necessidade de estratégias semelhantes às adotadas há quase meio século pela indústria aeronáutica e que estão na base das recomendações desenvolvidas por James Reason.

Trabalho sistemático

A investigação de acidentes aéreos tornou-se uma área permanente de trabalho focada na identificação de lapsos, erros baseados em regras e erros por falta de conhecimento. Com base nesse trabalho sistemático, foram criados bancos de erros por meio dos quais foi possível não sómelhorar o treinamento de pilotos como aprimorar o desempenho das aeronaves e sistemas de apoio ao voo, por meio de inovações tecnológicas descobertas durante a investigação de acidentes.

O jornalismo na era digital pode adotar procedimentos similares com uma preocupação essencialmente preventiva. Como o fluxo das informações tende a se tornar descentralizado e horizontal nas redes sociais, a prevenção e correção de erros informativos ganham cada vez mais um caráter coletivo. Nesse ambiente, a imprensa assume um papel fundamental como paradigma de credibilidade, já que é impossível impor um controle a todos os milhões de indivíduos que publicam informações na internet.

O primeiro passo para a prevenção sistemática de erros jornalísticos, tanto por profissionais como por praticantes de atos jornalísticos, é a formação de grupos permanentes de investigação. O objetivo é começar a desenvolver uma nova cultura do erro em ambiente jornalístico, afirma Kirstie Hettinga. A figura dos fact checkers (checadores de dados e informações) é essencial, mas ela precisa estar conectada a um banco de erros por meio do qual será possível identificar correlações com causas, contextos, fontes e procedimentos.

Quanto maior e mais diversificado for esse banco de erros, maior a possibilidade de identificação de fatores de prevenção, o que coloca o jornalismo do futuro definitivamente no caminho do big data ena estratégia de dar mais importância a medidas preventivas do que à punição de responsáveis.

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Carlos Castilho é jornalista, membro da direção do Observatório da Imprensa, professor de jornalismo digital e doutorando em Mídias do Conhecimento na Universidade Federal de Santa Catarina.

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