Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO DIGITAL

Jornal online português nasce gratuito

Por Ivan Satuf em 27/05/2014 na edição 800

É possível manter conteúdo jornalístico online de qualidade e original apenas com receitas provenientes da venda de espaço publicitário? De Portugal, mais precisamente de Lisboa, vem uma resposta corajosa. Lançado em 19 de maio, o Observadorpromete alinhar independência editorial, integração com os leitores e inovação dos formatos narrativos sem a cobrança de assinaturas.

Mais do que um novo projeto, trata-se de um manifesto contracorrente. De todos os lados chegam mensagens pessimistas sobre o futuro do jornalismo e dos jornalistas. Jornais impressos perdem assinantes, enquanto emissoras de rádio e canais televisivos lutam contra a dispersão da audiência. Todos se queixam da queda brusca das verbas obtidas junto aos anunciantes. Seria a internet a solução?

Estamos próximos de completar duas décadas de experiências jornalísticas na web. Entretanto, um modelo autossustentável permanece intangível. O tão sonhado Eldorado do jornalismo digital ainda não foi encontrado, ao menos é isso que nos levam a crer os discursos dos grandes conglomerados jornalísticos. Tentativas de monetizar o conteúdo online para além da publicidade não faltam. Quase todo o material publicado no site do The Wall Street Journal é bloqueado para não-assinantes. Outro gigante do mundo jornalístico, o The New York Times, permite que qualquer internauta acesse gratuitamente 10 notícias por mês. Para ler mais, só aderindo a uma modalidade de assinatura. É o modelo paywall seguido por empresas de todo o mundo, inclusive do Brasil, onde Folha de S.Paulo e O Globo, entre outros, também impõem limites de acesso.

Do digital first para o digital only?

Um dos trunfos do Observador é justamente se desvincular dos grandes grupos midiáticos. Para iniciar as operações, o jornal online contou com o financiamento de um grupo limitado de acionistas. Todos tiveram seus nomes divulgados para não dar margem a especulações. Talvez a única ligação direta com a “velha mídia” seja o local escolhido para alojar a redação, o mesmo prédio no tradicional Bairro Alto, em Lisboa, onde funcionou o extinto vespertino Diário Popular. Sob os escombros do passado surge a tentativa de erguer novas estruturas sem perder a essência do jornalismo: rigor com a informação, compromisso com o leitor e defesa dos princípios éticos.

Nos últimos anos, ganhou força uma corrente que defende o digital first, ou seja, a publicação das notícias de última hora (ou breaking news, no jargão inglês) nas plataformas online, seja o computador ou os dispositivos móveis. Depois, as notícias seriam elaboradas para outros veículos. O Observador não tem braços impressos, radiofônicos nem televisivos. Não tem obrigação de publicar primeiro online para depois “expandir” o conteúdo em outras plataformas.

O projeto optou por um design responsivo, ou seja, a interface gráfica se adapta automaticamente ao formato de tela dos diversos dispositivos (computador, smartphone e tablet). Assim, não foi preciso desenvolver aplicações móveis (apps) para os diferentes sistemas operacionais, como o iOS ou o Android. Basta navegar pelo browser a partir de qualquer suporte digital.

Propostas como a do Observador geram uma série de perguntas, entre as quais destacamos duas extremamente relevantes:

Estaríamos migrando do digital first para o digital only?

Sim ou não

O modelo baseado somente no âmbito digital já foi experimentado com diferentes abordagens. Para ilustrar o histórico, recorremos a três exemplos fracassados.

1. Após um longo período de sucessivos prejuízos, a revista Newsweek extinguiu a edição impressa em dezembro de 2012, dedicando-se exclusivamente ao digital, mas voltou a publicar em papel em março de 2013, após ser adquirida pelo grupo IBT Media.

2. A News Corporation, organização dirigida por Rupert Murdoch, lançou, em fevereiro de 2011, o The Daily, periódico produzido exclusivamente para tablets. O projeto foi extinto em menos de dois anos, após sucessivos prejuízos.

3. No Brasil, o site NoMínimo resistiu durante alguns anos da década passada ao reunir jornalistas renomados como Zuenir Ventura, Villas-Boas Corrêa e Tutty Vasques, mas encerrou as atividades por falta de apoio financeiro.

É claro que existem casos de sucesso de digital only no jornalismo, como o norte-americano Huffington Post, mas a lógica está muito mais próxima da agregação de conteúdos produzidos por terceiros do que da produção original de conteúdo.

É realmente possível atrair receita publicitária suficiente para manter o acesso gratuito ao público?

O Observador pretende competir em alto nível com os principais meios de comunicação portugueses. Possui uma equipe de 40 pessoas que mistura profissionais jovens e experientes, com idades que variam dos 21 aos 57 anos. Salários, custos operacionais, encargos tributários… Fazer jornalismo non-stop não é barato. Além do mais, as empresas jornalísticas criticam a emergência de novos intermediários que usam seus conteúdos para ficar com uma fatia importante das verbas publicitárias. Na mira estão Facebook e Google. Entretanto, a integração com as redes sociais é elemento fundamental para o Observador. Sobre a sustentabilidade financeira, os próprios idealizadores deixam a questão aberta às incertezas:

“O Observador, que é uma empresa relativamente pequena quando comparamos com as outras empresas de media, e que tem custos muito controlados, precisa apenas de uma pequena parte do nosso mercado de publicidade digital para alcançar o equilíbrio económico. Achamos que é possível chegar lá, mesmo que, no futuro, talvez possamos vir a cobrar por alguns dos nossos conteúdos. Pode ser que sim, pode ser que não, ninguém sabe como será o futuro da internet.”

O parágrafo acima foi retirado de perguntas e respostas que apresentam o site ao público em geral. Vale a pena ler para compreender a proposta e acompanhar os desdobramentos (ver aqui).

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Ivan Satuf é jornalista, mestre em Comunicação Social e doutorando em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior, em Portugal, onde integra o Laboratório de Comunicação Online (LabCom)

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