Terça-feira, 28 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº938

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / GRACIELA MOCHKOFSKY

‘Mídia argentina tem bons jornalistas e maus empresários’

Por Mauro Malin em 27/05/2014 na edição 800

“A Argentina tem uma tradição de bons jornalistas e maus empresários de jornalismo”, sintetiza Graciela Moschofsky, após vinte anos de atividade em dois grandes jornais de seu país, o Página/12 e o La Nación, e dez anos de pesquisa para escrever dois de seus seis livros, Timerman e Pecado Original – Clarín, los Kirchner y la lucha por el poder.

Na Argentina, ela concluiu, os bons jornalistas podem exercer sua competência e vocação de crítica ao poder em períodos mais ou menos curtos. Em termos rasos, quando os maiores meios de comunicação do país, em regime ditatorial ou democrático, não estão numa relação promíscua com o governo, ou querem pressioná-lo para firmar acordos espúrios mediante os quais são financeiramente beneficiados em troca de apoio.

Graciela é convidada da Festa Literária Internacional de Paraty deste ano (de 30/7 a 3/8) e outro livro-reportagem seu, Once, será lançado no Brasil pela editora digital e-galáxia. Once é o nome da estação ferroviária onde um horrível desastre de trem matou 51 pessoas e feriu mais de 700, em 2012. Trata-se de um relato sem anestesia da tragédia e de suas causas principais: uma privatização que deixou o serviço, cuja supervisão foi abandonada pelas autoridades, deteriorar-se além de qualquer limite aceitável.

No período atual, quando a relação entre os Kirchner [Néstor (1950-2010) e Cristina, a atual presidente] e o grupo Clarín passou de uma amigação por conveniência para uma guerra selvagem, profissionais qualificados da geração de Graciela abandonam a imprensa e pretendem fazer suas próprias experiências no universo digital, seguindo o exemplo dela e de seu marido e companheiro de trabalho, Gabriel Pasquini, criadores da revista El Puercoespín. E novas gerações também entram no palco.

Uma autobiografia profissional precoce de Graciela, “Ilusões perdidas”, foi publicada na revista piauí e pode ser lida aqui.

A seguir, os principais trechos de entrevista feita por Skype.

Independência temporária

Ao longo do século 20 houve janelas de independência e de alguma liberdade na mídia jornalística, como no início da década de 1990, ponto de partida de uma época dourada do jornalismo na Argentina. Janelas que logo se fecham. Momentos de brilho que logo são ofuscados. Tive a oportunidade de aproveitar duas dessas janelas que se abriram às possibilidades de fazer grande jornalismo. E também vi como essas janelas se fecharam e como eu e minha geração fomos expulsos da mídia jornalística.

Nos primeiros anos de minha carreira, trabalhei num jornal muito importante, Página/12, o diário que, na minha geração, modernizou o jornalismo na Argentina, incorporando, de um lado, a tradição do jornalismo narrativo americano – descrever literariamente as histórias reais –, e, de outro lado, incorporar a investigação contra o poder, a atitude do watchdog, outra tradição americana. O resultado foi uma geração que tinha que escrever suas histórias com beleza literária e, ao mesmo tempo, ser dura com o poder, investigá-lo e ser crítica em face dele.

Durou pouco tempo e depois não se pôde mais fazer isso na Argentina. Só é permitido quando convém aos empresários de jornalismo. Mas lhes conveio num período central de minha formação como jornalista.

La Nación

Em seguida, passei a outro diário, dos mais tradicionais na Argentina, o La Nación, de postura totalmente diferente do ponto de vista ideológico, e no qual a escritura era mais hermética e onde se fazia maior uso de indiretas, não de uma linguagem direta. Coube-me aproveitar o momento em que esse jornal havia decidido deixar de ser ideológico e passar a ser profissional. O modelo de seus donos era nesse momento o Washington Post e se criou então uma equipe de investigação das coisas do poder.

Isso permitiu uma cobertura que teve muito brilho, na qual havia espaço para relatos sobre o que realmente ocorria, muito críticos diante do poder político e econômico, e ao mesmo tempo escritos com ironia, com graça literária.

A crise de 2001

Veio a crise de 2001 – a Argentina sofreu entre 2001 e o início de 2003 uma das piores crises econômicas, sociais e políticas de sua história –, e o jornalismo nunca se recuperou dessa crise. Desde então, nos últimos dez anos, o jornalismo na Argentina tem sido partidário, os meios de comunicação estão a favor ou contra o governo, sem quase nada entre essas opções.

Eu e outras pessoas da minha geração abandonamos os jornais, sentimos que não se podia fazer um jornalismo de qualidade, independente, em nenhuma mídia na Argentina, ou quase nenhuma.

Jornal e poder

Meu refúgio foram os livros. Já publiquei seis livros de não ficção, de reportagem. Tenho aí, por um lado, a possibilidade de ser independente para escolher os assuntos e desenvolvê-los como desejar, sem censura e sem controle, e ao mesmo tempo me ocupar de temas de que a mídia jornalística não se ocupou, ou não se ocupou direito. Por exemplo, a relação entre ela mesma e o poder político.

Dois de meus livros, Timerman e Pecado Original, servem para contar o que aconteceu com o jornalismo na Argentina. [Jacobo] Timerman [1923-99] foi um grande editor de jornalismo nos anos 1960 e 70. Sua carreira se estendeu durante os anos de dominação militar, duas ditaduras na Argentina. Escrevendo sobre sua biografia, o que fiz foi contar essa relação entre jornalismo e poder político. Essa história termina no final de nossa mais recente ditadura, no final dos anos 1970 e começo dos 80.

Pecado Original, ao contar a história do Clarín, o maior grupo de mídia, multimídia, da Argentina, o que faz é contar a história da relação entre imprensa e poder, desde a retomada da democracia, em 1983, até 2011, quando o livro foi concluído.

Anos de formação

Minha experiência com o personagem Timerman foi muito interessante e intensa porque comecei muito jovem, tinha 27 anos, e terminei quando tinha 33. Foram os anos em que comecei a cobrir mais intensamente, como jornalista, o poder na Argentina.

Foi uma experiência muito completa, no sentido de que eu investigava como haviam sido as coisas para os jornalistas que agora eram meus chefes ou eram as lendas do jornalismo argentino, meus antepassados jornalísticos. Como eles haviam construído, ou participado da construção de uma relação com o poder e com a empresa jornalística que eu mesma agora vivia.

Eu ia entendendo como era essa relação pela minha própria experiência e conhecendo a história de como se havia construído essa relação. Foi uma grande experiência de formação profissional e pessoal.

Sem adjetivos

Fiz um grande esforço para não usar adjetivos ao escrever a biografia de Timerman. Ele pode ser visto como alguém luminoso ou canalha segundo o aspecto que se queira focalizar. Me parece que o interessante nele é o que há de interessante em personagens que são bom material para biografias, e que, no caso dele, além disso, dizem muito sobre a Argentina. Trata-se de um período muito complexo para a sociedade argentina e para mim.

Ele era um imigrante judeu russo que queria entrar no establishment da Argentina, na época dominado pelos militares, entre os quais há muito antissemitismo. O que ele pretendia era, portanto, muito complicado. E, ao mesmo tempo, lidar com as estruturas de poder na Argentina procurando ser parte desse poder. Esse é um homem com faces brancas e pretas, mas sobretudo com muito cinza no meio.

Meu bem, meu mal

Ele tratava bem e mal, com a mesma intensidade, gente que trabalhava com ele e perto dele. Dava a jornalistas as maiores oportunidades, mandava-os conhecer a Europa para aprimorar sua formação, e ao mesmo tempo os humilhava publicamente, diante de toda a redação.

É uma personalidade extrema que, por sua participação na história política, põe em relevo a complexidade e a dificuldade do lugar que quis ocupar na Argentina, que me interessava mais do que sua história pessoal. A relação da imprensa com o poder. Ele quis ser mais inteligente do que o poder e por isso pagou um preço muito alto, quase o mataram [na tortura] por querer ser mais inteligente do que eles. E mostra também quais são os limites para os empresários de jornalismo na Argentina.

A história do Clarín e de como se converteu num grupo tão poderoso econômica e politicamente é o material que usei em Pecado Original, segunda parte da história da relação entre imprensa e poder. A maneira como a mídia jornalística fez negócios na Argentina mostra centralmente o controle que o Estado ainda tem sobre muitos aspectos importantes do desenvolvimento dela.

A mídia, basicamente, e o Clarín é o grande exemplo disso, o que fez foi estabelecer acordos com os governos de turno para conseguir mais poder e crescer financeiramente. O Clarín fez acordos desde a ditadura até 2008, quando rompe a relação com o governo de turno.

Fez acordos com os presidentes e seus funcionários em troca de garantir uma cobertura mais favorável. Em distintos momentos dessa relação, passou de uma atitude de oficialismo e de apoio, nos momentos em que estava em negociações econômicas com o governo, para a crítica, quando não necessitava dessa relação, não necessitava conseguir alguma vantagem econômica, ou quando estava pressionando para consegui-la.

Extorsões e pressões

Houve uma relação de extorsões e pressões, de apoios, que se vincula não com o interesse público e a missão do jornal de informar a realidade a seu público, mas diretamente aos interesses econômicos e financeiros do veículo e sua necessidade específica de expansão nesse momento.

Isso começou com [Néstor] Kirchner. O Clarín e Kirchner tinham uma relação de grande amizade e proximidade. Era o principal jornal oficialista. Em 2008, devido a uma série de desacordos políticos, sobretudo, e econômicos, se produziu uma ruptura.

Kirchner e Cristina decidem destruir o Clarín, num episódio sem precedentes na história do jornalismo na Argentina. Destruí-lo no que mais lhe importava, sua estrutura financeira. Começam a tirar os negócios do Clarín em tudo que o governo podia interferir. Concessão de licenças, ou a decisão de não prolongá-las, tanto para a transmissão do futebol como para TV móvel, por exemplo.

O momento crucial dessa guerra é quando o governo faz passar a Lei de Meios, é o que está ocorrendo agora na Argentina. Essa lei foi aprovada, depois da derrota do Clarín num recurso à Justiça contra o governo, e agora o Clarín deve dividir-se em seis pequenas empresas e deixar de ser a grande empresa multimídia dos anos 1990. O livro é basicamente sobre uma relação próxima que acaba se convertendo numa guerra selvagem.

Do amor ao ódio

O momento central da ruptura foi quando, em 2008, a Argentina vive um momento político e social muito complicado. O governo havia feito um decreto e logo tentou fazer passar uma lei para criar impostos sobre as exportações agrícolas, sobretudo de soja e outros grãos.

É difícil resumir isso numa entrevista, mas o episódio se converteu num movimento divisório da sociedade argentina, porque englobava uma série de outros fatores, que têm a ver com a história da política argentina. Foi o momento de maior polarização na Argentina. A sociedade se dividiu em torno dessa medida, portanto a favor e contra o governo. O Clarín, que até então apoiava o governo, tomou posição contrária e Kirchner não aceitou.

Governava Cristina. Kirchner disse ao CEO do Clarín, Héctor Magneto, que o jornal tinha que apoiá-los. Magneto respondeu que o jornal ficaria neutro, o que significava que o Clarín não apoiaria os Kirchner. Kirchner recebeu isso como uma grande traição e não o perdoou. Evidentemente, não se tratou de um episódio isolado, foi um processo.

Fim da bonança

Agora se acabaram dez anos economicamente tão bons para a América Latina – para o Brasil num sentido, e para a Argentina noutro, mas bons para o continente em geral. Na Argentina, basicamente essa bonança se baseou, como sempre, no preço internacional da soja e na exportação da produção agrícola, que trouxe para o país uma quantidade sem precedentes de dinheiro.

São ciclos. Cada vez que os preços internacionais das commodities caem, ou muda a relação, a Argentina o sente diretamente. Razões históricas e políticas fizeram com que não tenha havido o processo de industrialização que houve em outros países, então continuamos dependendo da importação, o que nos torna vulneráveis a esses ciclos.

Na mão do governo

Diante da Lei de Meios, é preciso ver como funciona a imprensa na Argentina e quais são as possibilidades de independência. Dou algumas cifras. A Grande Buenos Aires, nosso principal centro urbano, com 13,5 milhões de habitantes, tem 18 diários. Quando chegam estrangeiros interessados no assunto imprensa, dizem: “Bem, 18 jornais numa cidade é sinal de uma sociedade culta, bem-formada, com uma grande liberdade de imprensa e de expressão”. Pareceria haver uma situação em princípio muito boa, que os jornais têm um papel importante na sociedade. Que as pessoas leiam diários e se informem é algo socialmente bom.

Mas o que nós, jornalistas da Argentina, sabemos é que nenhum desses jornais pode viver um mês sem receber dinheiro ou do governo, ou de empresários que recebem dinheiro do governo. Então, o que acontece é que esses diários têm uma agenda política determinada. Não há nenhuma relação entre a independência jornalística e essa aparentemente florescente indústria na Argentina.

Eu me formei na imprensa propriamente dita, portanto não falo de rádio e televisão, embora o esquema geral de relacionamento com o poder seja o mesmo, até porque se trata dos mesmos donos. Mas, se os jornais vivessem apenas da venda de exemplares e da publicidade que recebem, não teriam como existir. Teriam que fechar amanhã.

A circulação total dos jornais argentinos é de 1,3 milhão de exemplares [diários]. Dos periódicos existentes no país, 40% vendem menos de mil exemplares cada. A maior parte da mídia depende diretamente do governo.

Experiência digital

El Puercoespín surgiu há quatro anos como uma tentativa minha e de meu marido, editor e colega Gabriel Pasquini de ter um meio próprio em que nos sentíssemos reconhecidos. Começou como uma experiência para entender como se poderia utilizar o potencial da internet para comunicar-se, expressar-se. Fazer jornalismo de qualidade num meio novo, porém já sendo nós dois jornalistas com pelo menos 20 anos de experiência, fazendo o que sabíamos fazer, apenas em novo formato.

Passamos um ano explorando o que poderíamos fazer. Terminamos nos decidindo por uma revista digital sobre política e cultura, global, onde teríamos textos em geral longos. Teve mais êxito do que esperávamos. No final de 2013 tínhamos 120 mil leitores, e éramos só nós dois fazendo-a de casa, com uma rede de jornalistas, gente inteligente em diferentes cidades do mundo que contribuíam com seu trabalho.

Quando chegamos a esse ponto, o Puercoespín se havia convertido em algo maior do que o que poderíamos sustentar, sozinhos, sem financiamento, que nunca teve. Nos demos conta de que ou o convertíamos numa empresa, ou não poderíamos sustentá-lo. Ou teríamos que transformá-lo no blogue pessoal, e essa não era nossa intenção.

Fugaz campanha de assinaturas

Nesse momento lançamos uma campanha de assinaturas, uma coleta, para ver se entre esses 120 mil leitores haveria pelo menos uma porcentagem significativa de assinaturas para podermos contratar duas ou três pessoas que nos ajudassem. Necessitávamos de capital.

A campanha de assinaturas começou muito bem. A maior parte desse apoio vinha da Argentina. Em dado momento, ocorreram no país duas coisas que conspiraram gravemente contra a campanha e a mataram. O governo instaurou restrições às compras com cartão de crédito pela internet, e às compras em dólares com cartão. O preço da nossa assinatura, tendo em vista a inflação alta na Argentina, tinha sido fixado em dólares. Cinco dólares por mês.

O governo criou um imposto de 20%, depois de 30%, sobre as compras em dólares. Depois, quis que as pessoas gastassem dinheiro dentro da Argentina. E nosso sistema se fazia por intermédio de uma empresa americana. Não há nenhuma empresa na Argentina que pudesse fazer isso em âmbito internacional. Nossos leitores não são só argentinos.

As pessoas deixaram de comprar em dólares com cartão de crédito porque o governo disse que a Receita argentina ia analisar as declarações de imposto de renda de quem o fizesse. Isso freou todos os pagamentos com cartão, o golpe foi fatal para nossa campanha. Ao término dessa primeira experiência como empresários capitalistas, tivemos que fazer uma pausa, anunciada em abril. Temos agora que equacionar nossa situação financeira para poder manter o padrão de qualidade dos últimos anos.

Qual modelo de negócios?

Teremos que encontrar um capitalista, encontrar, como se diz agora, um modelo de negócios para sustentar a revista.

Para mim, foi uma experiência muitíssimo educativa. Ela nos obrigou a pensar em todos os aspectos do nosso negócio e não apenas em como produzir material jornalístico. E nos fez conhecer muitas experiências pelo mundo afora.

No ano passado formamos uma rede de meios digitais independentes que reuniu os principais do continente, que chamamos aliados, da Colômbia (La Silla Vazia), do México (Animal Político), do Chile (Ciper e The Clinic), do Brasil (Agência Pública), do Peru (Reporteros), de El Salvador (El Faro), da Nicarágua (Confidencial) e da Guatemala (Plaza Publica). Estamos em contato com eles. Há em geral no continente o surgimento, ainda pequeno e minoritário mas cada vez mais interessante, de uma mídia digital que vai avançar no futuro.

Mídia digital feita por gente que não é da nossa geração, que também está farta da falta de independência ou qualidade no jornalismo de seu país e decidiu se lançar, em vez de continuar se queixando, algo que nós, jornalistas, fazemos muito bem, dos chefes, da nossa mídia, das condições de trabalho. Tomar a iniciativa de criar algo novo, e que é parecido com o que os da nossa geração sonhavam.

Há uma mudança de geração, e uma das coisas maravilhosas da revolução na internet, além de mudar a relação entre jornalistas e suas audiências, foi ter permitido que muita gente que, como nós, não poderia reunir capital para lançar mídias impressas, lançasse, por mais ou menos tempo, publicações de qualidade.

Estou vivendo em Nova York neste ano, com uma bolsa, e na semana passada recebi três ligações de colegas da Argentina que saíram de meios tradicionais em 2014 e, guiados pela experiência do Puercoespín, querem lançar suas publicações digitais sobre política na Argentina e estão nos usando como assessores e consultores, devido à experiência que temos. Creio que é algo muito bom.

>> Entrevista de Graciela Mochkofski a Perfil.com (em espanhol)

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