Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA ESPORTIVA

E vestir a camisa, pode?

Por Marcos Emílio Gomes em 10/06/2014 na edição 802

Tiziano Crudeli é um jornalista experiente, com 50 anos de carreira na imprensa esportiva italiana e uma paixão que viria a transformá-lo num símbolo da parcialidade na cobertura de futebol. Crudeli torce para a equipe do Milan e não esconde de ninguém essa paixão que cultiva desde criança, quando trocou as cores do pequeno Forli, de sua cidade natal, na Emilia-Romagna, pelas da vitoriosa equipe lombarda. Nas transmissões da TV 7 Gold, ele comenta os jogos da equipe usando a camisa do clube, berra, vibra, chora e até pragueja como um fanático integrante de torcida organizada, mandando às favas a objetividade e receitando estratégias para a atuação do time. Tornou-se, assim, uma atração das transmissões, um elemento a mais no universo do entretenimento. Jornalismo, aparentemente, não é mais o negócio de Crudeli.

Há exemplos de matiz semelhante na crônica esportiva brasileira. O célebre compositor e apresentador Ary Barroso, que entre outros feitos revolucionou as transmissões de futebol pelo rádio introduzindo elementos como a gaita que soprava para chamar a atenção antes de fazer um comentário especial ou ler uma mensagem publicitária, era um flamenguista tão ferrenho que anunciava ataques de equipes adversárias com a expressão “Ih, lá vêm os inimigos”. Numa ocasião, abandonou o microfone nos minutos finais da locução e foi para a beira do gramado comemorar um campeonato de seu time do coração.

Armando Nogueira, que comandou a implantação do jornalismo na TV Globo, era botafoguense e nunca se sentiu eticamente constrangido de defender o time nos debates televisivos sobre futebol. Nelson Rodrigues sustentava que o Fluminense era o melhor time de todos os tempos e que, se os fatos demonstravam algo diferente, “pior para os fatos”. No jornal Estado de Minas, a imparcialidade esperada pelo leitor decorre, em certa medida, de um paroxismo: há um colunista exclusivo e apaixonado para cada um dos três maiores clubes mineiros, o América, o Atlético e o Cruzeiro.

Informar com isenção

Se esse tipo de comportamento tem o mérito de deixar transparente para a audiência a inclinação clubística dos integrantes da chamada crônica esportiva, há outros lados da questão a examinar. Pode-se, nesse cenário, esperar que o jornalismo sobre futebol e, por extensão, qualquer esporte, cumpra rigorosamente a função de informar com isenção tanto o torcedor quanto o cidadão menos envolvido com as agremiações, mas ainda assim interessado no noticiário sobre esse universo? Há compromisso com a verdade nessa cobertura? Não se descobre uma situação ainda pior ao se considerar o caráter regional de abrangência dos veículos?

A Globo, por exemplo, tem telejornais diários locais para tratar do mundo do esporte, o que, por um lado, garante que os assuntos de maior interesse para a audiência regional tenham destaque, mas também determina um foco bairrista. Bem mais evidente no jornalismo impresso, essa característica costuma ser facilmente percebida quando há notícias sobre interesses divergentes de parte de clubes de diferentes regiões ou de entidades estaduais. Não é raro encontrar “análises” sobre o desempenho de equipes cariocas, paulistas, gaúchas ou mineiras tratadas como adversários a serem batidos pelos conjuntos locais.

O caso recente da discussão do rebaixamento da equipe paulistana da Portuguesa ou do time do Fluminense, circunstância que na verdade dependente de julgamentos em tribunais esportivos, é apenas um em que essa abordagem bairrista turvou a discussão essencial sobre o descumprimento, ou não, das regras do Campeonato Brasileiro. (Um resumo para quem não acompanhou o caso: a Portuguesa utilizou um jogador que deveria permanecer suspenso numa partida e, com isso, perdeu pontos que poderiam livrá-la do rebaixamento para a série B, beneficiando o Fluminense, que se manteve na série A.) Por que veículos da imprensa (e não apenas a paulistana) trataram o episódio como se o time do Rio tivesse se beneficiado de alguma manobra condenável?

Não faltam vozes que sustentam a tese segundo a qual o esporte, por envolver paixões quase irracionais, pode, sim, ter essa embocadura, digamos, enviesada, em nome de um relacionamento emocional entre o veículo e sua audiência. O problema é que o jornalismo resultante dessa visão pode acabar comprometido em sua credibilidade e se tornar, aos olhos do público, um fenômeno de entretenimento tão folclórico quanto Tiziano Crudeli. A ainda recente experiência vivida pelos torcedores do Atlético Mineiro, frustrados na expectativa de ver a equipe disputando a final do Mundial de Clubes, é pedagógica quanto às consequências corrosivas do jornalismo engajado.

Campeão da Taça Libertadores da América, o time embarcou para o Marrocos sob uma chuva de análises que consideravam a dificuldade de enfrentar a equipe alemã do Bayern no jogo decisivo e praticamente nenhuma sobre os riscos de pegar um motivado esquadrão marroquino, o do Raja Casablanca, para qualificar-se a disputar o título. A decepção e a surpresa dos atleticanos não foram suficientes para motivar a autocrítica por parte da imprensa, que até hoje, meses depois, continua tratando do episódio como um fiasco do Atlético, chamando o Raja de azarão e desconsiderando o fato de que seu papel teria sido mais bem desempenhado caso tivesse levado a sério a missão de informar-se e informar sobre outros possíveis adversários do time mineiro, antes do Bayern.

A oportunidade de narrar, comentar e reportar os feitos da única seleção participante de todas as Copas – vencedora de cinco edições – não ensinou a imprensa brasileira, ou pelo menos uma parte considerável dela, a trocar entusiasmo e parcialidade por apuração e refinamento crítico, em respeito, aliás, a seu público. Agora, quando se aproxima a realização de mais um mundial, trata-se do assunto como se a equipe nacional fosse a mais natural das candidatas ao título, sujeita, no máximo, a ser “surpreendida” por outra seleção, “derrotada por seus próprios erros” em alguma fase da competição ou “psicologicamente vencida” por alguma circunstância misteriosa. O torcedor, que já tem a publicidade a impulsionar seus sonhos de invencibilidade verde-amarela, raramente é lembrado de que alguns adversários podem estar mais bem preparados, ter táticas mais efetivas e apresentar conjuntos mais eficientes.

No célebre episódio do Maracanazo – da derrota do Brasil para o Uruguai no estádio do Maracanã, na Copa de 1950 –, sabe-se hoje que um verdadeiro apagão informativo contribuiu para ampliar o clima inicial de já ganhou e posterior de frustração. Assim como compunham de fato o time favorito, os integrantes da seleção brasileira diziam, nos bastidores, que a outra equipe finalista podia surpreender por ter méritos táticos e uma rígida disciplina em campo – informação que só chegaria aos brasileiros durante a partida, tarde demais para preparar torcedores para entender o que se viu durante o jogo. Uma característica peculiar do jornalismo bairrista é, por sinal, a incapacidade de lidar com fatores que transcendem os limites paroquiais. Assim, tanto o mérito do Uruguai em 1950 continua sendo quase ignorado quanto são desprezadas a competência italiana nas quartas de final de 1982 e a eficiência do time francês na final de 2006 – outros momentos em que, a julgar pela cobertura, foi o Brasil quem perdeu e não o adversário quem venceu.

O melhor de todos

Esse comportamento pouco objetivo geralmente também estimula algumas análises de perspectiva histórica que não levam em conta justamente o ambiente e as condições de cada época. Pelé é, até agora, o maior artilheiro da história do futebol. Compará-lo a jogadores de outras épocas na tentativa de eleger o melhor de todos os tempos é um exercício que passa ao largo de detalhes como a evolução tática do esporte, o aperfeiçoamento do preparo físico dos atletas e até as características tecnológicas do equipamento. Pelé enfrentava, boa parte do tempo, zagueiros que fumavam, bebiam, ganhavam pouco e tinham um nível elementar de treinamento. Um craque de hoje, em contrapartida, tem marcadores mais bem preparados – mas é impossível dizer como se sairiam com chuteiras de meio quilo e bolas pré-históricas, o tipo de equipamento com o qual se havia o “rei do futebol”.

Ayrton Senna, outro que frequentemente é constrangido, in memoriam, a aparecer no pódio de campeão da história, foi efetivamente o melhor das corridas e campeonatos que venceu. Vender ao leigo a ideia de que foi o maior de todos os tempos pode ser encarado como um estelionato jornalístico. O profissional de imprensa tem tanta responsabilidade por passar adiante a informação quanto por situá-la no seu verdadeiro contexto. Fora disso, exerce a manipulação.

Mas existe cobertura esportiva que não seja, na essência, contaminada pela parcialidade? No amplo processo de marketing que transformou o esporte – praticamente qualquer esporte – num balcão bilionário de atividade turística e comercial, a questão da isenção jornalística nesse universo não teria se tornado uma irrelevância à qual quase ninguém dá atenção? E os poucos que ainda fazem esforços para informar, noticiar e estabelecer interlocução com a capacidade crítica da audiência não acabaram por se transformar em profissionais inconvenientes, apegados a pelos de ovo e desprezados pela maioria dos leitores, espectadores, internautas e ouvintes?

Essa é uma discussão que toca o campo da ética jornalística e, como todos os grandes debates relativos ao tema, não tem respostas simples nem únicas. Lidar com variados matizes na abordagem do assunto é da natureza desse debate – e fatiá-lo em camadas pode ser uma tática adequada. Primeiro, apenas para estabelecer uma ordem analítica, pode-se tratar da separação básica entre entretenimento e jornalismo. A mídia, hoje um conceito usado indiscriminadamente, pode ser definida como o conjunto de veículos que carregam algum tipo de conteúdo informativo, seja arte, diversão ou informação na sua acepção mais restrita. A imprensa é o segmento jornalístico da parte da mídia que atende ao direito do cidadão de ter informação. Isso parece óbvio para os profissionais do ramo, mas precisa ser lembrado sempre para que não se confunda o jornalismo com a publicidade – que também é informação, mas cuja missão é atender ao direito de informar, das pessoas e organizações.

O esporte, quando veiculado como espetáculo, como evento, é entretenimento. Está naquele escaninho da mídia que contempla a diversão. Mas o mundo do esporte ou os fatos que ocorrem na arena do evento e ao redor dele, como elementos de interesse público, integram a cobertura jornalística, quando acompanhados pela mídia conforme o critério de responder ao direito do cidadão de ser informado a respeito. Não por acaso, algumas emissoras separam a equipe de transmissão de esportes da que realiza a cobertura jornalística dos eventos. Assim, enquanto um locutor à la Crudeli pode esgoelar-se sobre as virtudes de uma equipe, existentes ou não, a reportagem sobre esse mesmo espetáculo procura ouvir os dois lados, dirimir dúvidas sobre determinados lances, apurar notícias nos bastidores do estádio e das entidades e entrevistar personagens ou especialistas sobre temas relacionados aos fatos.

Isso não acontece no Brasil, e o produto dessa mistura tanto pode ser a locução apimentada por falsas emoções – para sustentar a audiência – quanto a cobertura recheada de obviedades. É curioso notar que as entrevistas de técnicos e jogadores transmitidas pela TV continuam repletas de respostas irrelevantes e raramente contestadas, mas aumentam em duração na medida em que se adotam os backdrops, aquelas placas que exibem marcas de patrocinadores atrás dos entrevistados.

Já não é, portanto, somente a atitude de torcedor ou bairrista do jornalista a criar problemas para a credibilidade da imprensa esportiva, mas também os interesses de marketing relacionados ao esporte. Hoje, praticamente ninguém entrevista uma grande estrela do mundo esportivo sem que a conversa seja autorizada (ou até testemunhada) pelos patrocinadores do atleta, pelos promotores do evento e, não raramente, pelas empresas de mídia que compraram os direitos de transmissão de um jogo, corrida ou campeonato. Na outra mão, contratos de grandes esportistas costumam ter cláusulas que os obrigam a dar entrevistas para promover grandes eventos – diante dos backdrops, claro.

Interesse público

A espetacularização do esporte determinou, ao longo do tempo, a criação de um cenário que traz enormes vantagens para as pessoas que se interessam pelos eventos, assim como levou à profissionalização dos atletas, num jogo (sem trocadilho) em que é fácil perceber os ganhos de quase todos os lados – apesar do papel de moldura para backdrops exercido por todos, incluindo o público.

Simplificando ao extremo observações do estudioso Robert Waterman McChesney, professor da Universidade de Illinois que se tornou uma das grandes autoridades na análise do papel da imprensa na sociedade capitalista, pode-se dizer que a mídia, como indústria, tem lucros ao veicular informação de grande interesse público; as entidades relacionadas ao esporte ganham ao estabelecer calendários e regras que disciplinam e dão emoção aos eventos; praticantes se aperfeiçoam para tornar-se celebridades e enriquecerem com sua atividade; empresas investem para associar suas marcas e produtos aos esportes, aos nomes famosos e às arenas em que eles se exibem; e o público ganha com transmissões ao vivo e aprimoradas, além de conquistar direito a instalações confortáveis, seguras e eficientes. O preço pode ser excludente, mas isso se explica, pois a disponibilidade de lugares não é elástica como a demanda.

Uma consequência não tão positiva do fenômeno é o fato de que, com a ampla divulgação para poucos eventos concentradores de atenção, os de menor relevância, antes com público disponível, tornam-se inviáveis. McChesney observa que, quando a TV americana investiu fortemente na transmissão de lutas de boxe, na década de 1950, a quantidade de clubes que realizavam esse tipo de espetáculo nos Estados Unidos reduziu-se de 300 para 50, em oito anos. Basta olhar para os pequenos times de futebol localizados fora dos grandes centros, no Brasil, para ver a repetição desse filme.

Curiosamente, tirando-se os não raros arroubos de selvageria localizados nas arquibancadas e imediações dos estádios, as torcidas se tornaram uma parte do show, mais visível e importante na proporção da relevância do espetáculo. Na Copa do Mundo de Futebol, como nos grandes jogos da liga de basquete americana ou do rúgbi inglês, o torcedor tem um script invisível de assovios, olas e bandeiraços ao qual se entrega com disposição diante das câmeras – não poucas vezes sem entender patavina do que acontece no jogo.

O papel do jornalismo esportivo nesse roteiro é que está sendo desempenhado de um jeito, digamos, estranho. Diferentemente do que acontece na cobertura política e econômica, nas quais a vigilância sobre a atitude dos protagonistas é premissa do trabalho bem-feito, a imprensa esportiva realiza grande parte de seus esforços em torno dos elementos de promoção do espetáculo e não muitos na direção do que se convencionou chamar de jornalismo investigativo. Não foi por acaso que o último grande escândalo estritamente relacionado ao esporte – a revelação sobre a máfia dos árbitros que fraudava e vendia resultados dos jogos de alguns campeonatos, em 2005 – veio a público por intermédio de uma revista de circulação nacional e interesse geral que muito raramente se debruça sobre o tema. Nestes meses de pré-Copa e anos de pré-Jogos Olímpicos, os impactos financeiros, sociais e culturais dos eventos são cobertos nas editorias de economia, política e opinião bem mais do que na área de esportes. A audiência está informada sobre atrasos nas obras e gastos mal realizados na preparação do país para os eventos – e isso é bom – e quase nada sobre a articulação entre Ministério dos Esportes e Ministério da Educação para fazer das universidades também centros de formação atlética, assunto que, por sinal, nunca será encaminhado se a imprensa não se interessar por ele.

Para alívio de alguma culpa regionalizada, não se trata de uma situação nova nem exclusiva do Brasil. Num artigo apresentado há 14 anos, em que respondia à questão “por que o jornalismo esportivo é um oximoro?”, o professor Edgar Mason, então do departamento de Comunicação do Instituto de Tecnologia Unitec, da Nova Zelândia, aponta diferençastão profundas entre o jornalismo e jornalismo esportivo a ponto de concluir que são atividades distintas, porque as qualidades que contribuem para fazer bem o primeiro (entre elas equidade, equilíbrio e intuição) não se aplicam ao segundo, cujo contexto é de entretenimento e de notícias infectadas pela parcialidade. No livro Inside the Sports Pages, o estudioso canadense Mark Douglas Lowes relata dezenas de situações em que jornalistas de periódicos locais agiram mais como promotores de determinadas modalidades do que como investigadores. Não por má-fé. Mas, sim, pela necessidade de manter fontes, sustentar o interesse dos leitores ou mesmo garantir o próprio emprego. Obviamente isso não acontece apenas na cobertura de esportes, mas este texto mantém o foco nesse assunto.

Há jornalistas que figuram como exceção nesse panorama. O que se pode temer é que eles existam exatamente como confirmação de uma regra e que, dada a maneira pela qual evolui o relacionamento entre o esporte e a mídia, sua influência será cada vez menor, a ponto de parecer extintos, mesmo que um ou outro continue na militância profissional comprometida apenas com quem lê, assiste, ouve as informações ou navega no meio delas. E, se esse parece um risco sem impacto para outras atividades, não faz mal recordar um pouco de história para perceber como a manipulação no mundo do esporte pode gerar consequências.

Hitler pretendia fazer das Olimpíadas de Berlim de 1936 um símbolo da supremacia ariana. A domesticada imprensa alemã, naquele embalo em que se confunde a pátria com as chuteiras, só fazia realçar esse ponto de vista. Jesse Owens, um velocista negro cuja família já havia enfrentado o racismo no sul dos Estados Unidos, atrapalhou um bocado esse objetivo do führer, mas não o suficiente para impedir que surgisse dois anos depois o documentário alemão que comparava os atletas arianos a deuses e, numa confusão proposital, estimulava a juventude à prática esportiva e ao alistamento militar.

Esporte e política

Na ditadura brasileira, o general Emílio Garrastazu Médici achou tempo, entre os tantos afazeres de um presidente da República, para palpitar pela demissão do técnico da seleção brasileira, o comunista João Saldanha, antes da Copa de 1970. Depois, comemoraria um êxito do time nacional “com uma bandeira na mão e uma bola no pé”, como recorda Elio Gaspari no livro A Ditadura Escancarada (Intrínseca, 2014). No outro extremo, é conhecida a história do debate constrangedor entre extremistas da esquerda sobre torcer ou não pelo Brasil na campanha do México. Uma boa razão para ter repórteres vasculhando permanentemente o mundo do esporte é a grande quantidade de políticos cuja carreira passou pelo envolvimento com clubes, federações e confederações desportivas, para não falar dos que estacionaram e enriqueceram nessas atividades, paralelamente à vida pública.

Se essas pautas, porém, são pesadas e comprometedoras quanto ao futuro do jornalista esportivo na sua atividade (uma vez que as “fontes” poderiam secar depois da primeira reportagem), por que não se vê pelo menos um exercício efetivo de defesa dos direitos do torcedor – ressalvadas as honrosas exceções – entre esses profissionais que acompanham competições e treinamentos todos os dias? Como são os banheiros dos estádios? Quanto custam os sanduíches nas arquibancadas e quem detém as concessões para vendê-los? Como funciona o comércio de drogas no meio das torcidas? Quanto tempo um torcedor comum leva para chegar ao estádio de ônibus? De onde vêm e para onde vão os flanelinhas do entorno dos estádios? E, para não ficar apenas no mundo do futebol nem em temas profundos, como é o mundo que cerca os jogadores de vôlei fora das quadras, em suas constantes viagens para disputar torneios internacionais? Eles viajam na classe executiva ou na econômica, onde suas pernas não cabem entre as poltronas?

Com tanta gente cercando os eventos esportivos com olhos supostamente jornalísticos, como é que o desabamento de parte de um estádio, um confronto brutal entre torcidas organizadas ou o acidente com fogos de artifício nas arquibancadas acabam surpreendendo tanto a imprensa quanto o incêndio numa casa de shows ou a múltipla colisão numa rodovia, onde supostamente não há repórteres de plantão? Não seria de esperar que os riscos, as ameaças e os abusos fossem antes apontados pelos jornalistas, evitando até mesmo algumas tragédias?

A cobertura da Copa no Brasil será um desafio considerável para a raquítica imprensa esportiva. Não se pode ignorar que foi nesse tipo de editoria que os trituradores de custos das empresas jornalísticas agiram com mais vontade e que disso decorre a falta de respostas para uma parte das perguntas alinhadas neste texto. Bem mais do que os jornalistas, são certamente as empresas que se contentam com a cobertura convencional, barata e, convenhamos, de baixo risco, já que a concorrência se move no mesmo ritmo. Podem-se fazer muitas coisas praticamente sem nenhum dinheiro. Jornalismo geralmente não é uma delas.

***

Eles sabem do que falam

A Revista de Jornalismo ESPM pediu a quatro destacados jornalistas do meio alguns comentários sobre aspectos da atuação da imprensa esportiva. Eis o que dizem as vozes da experiência:

>> Jornalista ou torcedor

Jornalista pode torcer. Só não pode distorcer. Nem mentir.

E mente o jornalista que cobre futebol e diz não ter um time de coração.

Como não deixar a paixão influenciar no exercício da profissão?

É, das coisas difíceis, uma das mais fáceis de fazer…

Basta seguir o manual: contar o que vê, não importa as cores que tenha.

É claro que vou torcer pela seleção brasileira nesta Copa do Mundo, como torci em todas as outras, em três apenas como torcedor e nas últimas 11 como jornalista.

Nem por isso deixarei de criticá-la ou contar seus podres se podres houver.

O mesmo se dá com o Corinthians, meu time durante 20 anos mais 44 de carreira.

Vibrei e vibro com suas vitórias e não disfarço.

Mas fiquei um bom tempo sem poder ir vê-lo no estádio porque denunciei a entrada de dinheiro da máfia russa em seus cofres, via a tal da MSI. Chamei de doping financeiro.

Houve corintiano que achou que eu era contra o Carlitos Tevez, trazido pelo dinheiro sujo. Imagine.

Sou jornalista, mas não sou burro. (Juca Kfouri,colunista da Folha de S.Paulo, blogueiro do UOL e comentarista da rádio CBN)

 

>> A maldição do placar

Já foi mais fácil, bem mais fácil. Era ir ao centro de treinamento e esperar
o coletivo terminar. Os cinco ou seis setoristas cercavam o jogador e tiravam
o principal para o jornal do dia seguinte e para os programas esportivos da noite. Quem tinha uma “especial” para o domingo puxava a fonte para um canto e falava reservadamente. Mudou. Agora tem a zona mista, um chiqueirinho cercado de grades por onde os jogadores passam e a reportaiada transforma numa verdadeira zona. Agora tem as entrevistas coletivas de dois ou três jogadores selecionados pela assessoria de imprensa. Complicou o acesso físico. Em compensação, facilitou a interação virtual. Nos Twitters e Facebooks da vida, os jogadores que sofrem de incontinência verbal oferecem factoides diários. Por mensagem e Whatsapp, alguns abrem portas.

O problema, no fundo, não é dos meios, das facilidades e dificuldades da modernidade. O problema é de fundo. Cada vez fazemos um jornalismo esportivo mais canalha. Tentamos simplificar um dos mais complexos esportes coletivos. O futebol é multifatorial. Os resultados acontecem pela qualidade dos jogadores, pela inteligência do treinador, pelos salários em dia, pelo comparecimento da torcida.

Mas também acontecem pelas razões mais aleatórias. O montinho artilheiro, o dia ruim do goleiro, a distração do bandeirinha. No vôlei, no basquete, o melhor vence na maioria absoluta das vezes. No futebol, o Asa de Arapiraca complica o Palmeiras,
o Mazembe humilha o campeão de tudo, o Internacional. Aí entramos nós. Fazemos
o diabo para explicar qualquer resultado. Colocamos próteses de lógica em tudo. Assim transformamos o time que perdeu jogando melhor em um retumbante fracasso. E fazemos os sortudos virarem gênios. Alguns fazem isso por absoluta falta de recursos intelectuais. Outros, por má-fé mesmo. Jogam para a torcida. O boleiro percebe o truque. E é nesse instante que a relação jornalista-fonte vai para o vinagre. É a maldição do placar. Fazemos, na marra, o resultado explicar o jogo. (Sérgio Xavier, ex-diretor de redação da revista Placare atual de Playboy)

 

>> O bairrismo e a agonia dos clubes menores

É lógico que tem bairrismo no esporte. É um grande problema, mas compreensível, à medida que se entende que os jornalistas exercem sua atividade, na maior parte do tempo, dentro de uma região geográfica, na qual criam vínculos com atletas, dirigentes e cartolas, além de falar, geralmente, para um público que está nessa mesma área e se interessa mais pelo que ocorre com seu clube e seus adversários tradicionais.

A mesma situação explica por que a CBF, localizada no Rio, favorece a convocação de jogadores cariocas, que, muitas vezes, ocupam o lugar de atletas em muito melhor condição, mas que atuam longe da sede da entidade.

A própria medição de audiência favorece a cobertura regionalizada. Como a medição em tempo real não alcança o Brasil inteiro, a audiência cai muito quando uma emissora de TV transmite um jogo de outra região que não São Paulo, por exemplo. Isso pode não ser verdade, porque outras praças podem estar compensando essa audiência local perdida, mas a medição não enxerga essa realidade. E a moeda da mídia eletrônica é a quantidade de pontos na medição de audiência. Ainda bem que isso tende a mudar com a concorrência nesse setor.

Esse problema se torna mais um drama na vida dos pequenos clubes do interior, que, quando jogam em suas cidades, sofrem também a concorrência de público promovida pela televisão, que simultaneamente transmite confrontos de times maiores. E, como os jogos desses clubes não impulsionam a audiência, eles são marginalizados no processo de negociação dos direitos de transmissão. Para piorar, só atuam três meses no ano, em campeonatos regionais, e se tornam cada vez mais pobres. É de se perguntar onde serão revelados os novos talentos à medida que essa sequência de fatos vai matando os clubes menores. Curiosamente, os grandes times do Brasil andam correndo um risco bem parecido. Hoje, na hora dos clássicos nacionais na TV, acontecem também transmissões, em outros canais, dos jogos dos melhores times do mundo, na Europa. Daqui a pouco… (Milton Neves,apresentador da rádio e da TV Bandeirantes, criador do site Terceiro Tempo)

 

>> Um mal planetário

Cobrir a seleção brasileira, sobretudo numa Copa do Mundo, é uma arte. O limite entre fazer jornalismo e torcer, misturando as coisas, é tênue. Antes de mais nada é necessário dizer: as demais seleções importantes do planeta padecem do mesmo mal: Espanha, Argentina, Itália… O que os jornalistas desses países torcem para os respectivos times durante uma Copa do Mundo é algo quase inacreditável. Portanto, não se trata de um “fenômeno brasileiro”. Nas minhas quatro, tive a tarefa de seguir a seleção brasileira. Treinadores diferentes (Zagallo, Felipão, Parreira, Dunga…), assessores de imprensa diferentes e uma mesma preocupação em relação à imprensa: “Vocês precisam nos ajudar. Nosso sucesso será o sucesso de você”. Sucesso de quem, cara-pálida? Felizmente sempre trabalhei em veículos independentes, preocupados com uma cobertura isenta, analítica, crítica, quando necessário. E isso me causou, por outro lado, dificuldades.

Nunca fui privilegiado nas coberturas, como alguns colegas mais “afinados” ao binômio: trabalho-”torcida”. Mas não me queixo: é muito melhor trabalhar sem o rabo preso, sem obrigações. Não chorei no corte de Romário, não culpei a convulsão de Ronaldo pela derrota para a França, não vibrei com o penta e com a família Scolari, não xinguei Roberto Carlos pelo meião abaixado, não elegi Dunga como o inimigo público número 1. Fiz o meu trabalho, com o distanciamento necessário. E, se pudesse ter um desejo atendido para uma próxima Copa do Mundo, pediria: me deixem cobrir outra seleção, pelo amor de Deus. (Arnaldo Ribeiro, apresentador e comentarista do canal ESPN que fez cobertura da seleção brasileira nas últimas quatro Copas)

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Marcos Emílio gomes é jornalista e sócio da Solares Comunicação e Marketing. Foi publisher da Editora Abril, editor-executivo da revista Veja e diretor de redação da revista Quatro Rodas

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