Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & ELEIÇÕES

Objetividade e imparcialidade em xeque

Por Hugo Xavier em 15/07/2014 na edição 807

A campanha eleitoral já começou e, em breve, as ações dos candidatos à presidência devem estar entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. Com o país polarizado entre PT e PSDB, as críticas em relação à cobertura parcial de determinados veículos não vão demorar a aparecer. De fato, imparcialidade e objetividade são fatores essenciais para um jornalismo que se propõe ser correto e de qualidade. No entanto, esses dois conceitos podem não ser tão valorizados pelos brasileiros na cobertura jornalística.

A edição deste ano do Reuters Institute Digital News Report, relatório que traça um panorama do consumo digital de notícias no mundo, reservou um espaço para apresentar o quanto a objetividade e a imparcialidade são relevantes para os consumidores de notícias online. Seguindo a direção contrária dos outros nove países que participaram do levantamento, o Brasil mostra que esses dois preceitos jornalísticos não têm influência sobre a confiança dos leitores nas fontes de informação.

De acordo com o estudo, que entrevistou 1.015 brasileiros de áreas urbanas, 71% deles preferem notícias com abordagens imparciais, em que o repórter apresenta os diversos aspectos da informação e deixa a opinião a cargo dos consumidores. No entanto, ao serem questionados se confiam mais nos veículos imparciais ou naqueles que, claramente, defendem uma posição, o resultado foi quase um empate: 51% contra 49%, respectivamente. Em todos os países participantes houve uma preferência maior pelas fontes que praticam um jornalismo imparcial. A Dinamarca ficou em segundo lugar no ranking entre os com mais pessoas que optam por um jornalismo com opinião, sendo a escolha de 21% dos respondentes. Mesmo assim, bem longe dos 49% de preferência no Brasil.

Segundo o relatório, os resultados desta questão estão diretamente ligados ao nível de educação do país. Relacionando esses números com outros estudos, a conclusão é que, se você tem diploma universitário e uma boa renda, vai preferir ter provas estabelecidas para formar sua própria opinião. Por outro lado, se você possui baixa escolaridade e sua situação financeira não é das melhores, a tendência é que opte por um jornalismo mais subjetivo, em que os fatos são interpretados para você.

Veículos podem ter opinião

Diante disso, podemos nos perguntar: os que consomem informações com abordagens opinativas estão realmente bem informados? Teriam determinada ideia sobre um acontecimento (ou candidato) se estivessem mais embasados sobre todos os fatos que envolvem a questão? Quando a influência das notícias veiculadas pela mídia pode interferir diretamente nos resultado de uma eleição presidencial, essas questões, de praxe na atividade jornalística, ganham ainda mais relevância.

No entanto, o paradoxo dessa situação é que enquanto muitas redações tentarão fazer uma cobertura imparcial da eleição, grande parte de seu público parece não valorizar isso, preferindo uma abordagem opinativa. Assim, mais dúvidas aparecem: será que para a sociedade o jornalismo correto não é mais sinônimo de jornalismo objetivo e imparcial? A resposta poderá ser encontrada nos comentários das redes sociais que, certamente, discutirão a abordagem das matérias sobre os candidatos.

Vale ressaltar que os veículos podem ter opinião e declarar abertamente seu apoio a determinado candidato, como fez a CartaCapital há poucos dias, anunciando sua escolha por Dilma. Mas é preciso que a defesa do político seja feita por meio de colunas assinadas, artigos e editoriais, como preza o bom jornalismo. Afinal, uma reportagem enviesada que se vende como imparcial é encontrada apenas em veículos desonestos e antiéticos.

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Hugo Xavier é jornalista

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