Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ONLINE

Imprensa impositiva

Por Álvaro Pereira Júnior em 05/08/2014 na edição 810
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 29/7/2014; intertítulo do OI

Bom dia, vamos abrir o computador e ver quais as aulinhas, as ordens e as listas que a novíssima mídia on-line tem hoje para nós.

Por que tal guerra está acontecendo. Quinze motivos para você assistir tal série. Nove razões para você detestar tal ator. Trinta e três álbuns que toda criança deve ouvir antes dos 13 anos. Saiba tudo sobre a Coreia do Norte. Saiba tudo sobre inflação. Tudo o que você precisa saber sobre o ebola.

Todos os assuntos do planeta esquematicamente explicáveis, resumíveis. Tudo maniqueísta e mastigado.

Os textos são curtos. Os vídeos (cada vez mais usados em substituição ao texto jornalístico) não duram mais que dois minutos. Eles ensinam, decretam, sentenciam, pontificam, impõem. O ponto de partida: existe uma versão definitiva para todo e qualquer fato. Nós temos essa versão. E vamos empurrá-la a você. Ou melhor, explicá-la, porque somos bonzinhos. Somos do norte da Califórnia ou do Brooklyn, jantamos às 17h, gostamos de cervejas artesanais e hambúrguer de tofu.

É essa lógica didatista e autoritária –ainda que muitas vezes bem-intencionada– que detecto nos novos sites de notícias que têm causado barulho na internet. Isso, “sites de notícias”, vamos chamá-los assim. São dos EUA, o maior mercado mundial. Já influenciam publicações mais tradicionais.

Refiro-me a sites como “BuzzFeed”, “Vox”, “FiveThirtyEight” e “The Intercept”. Representam a primeira geração jornalística 100% nativa de internet. Usam recursos audiovisuais como elementos naturais da narrativa (e não acessórios, como costuma fazer a mídia tradicional). Não são adaptações de veículos impresso ou de TV. A web é seu ninho, seu habitat e seu caldo de cultura.

São, claro, diferentes entre si. O “BuzzFeed” é ultrapop e não liga muito para a exatidão. O “Vox” se pretende mais sério. O “FiveThirtyEight” disseca o mundo em estatísticas. “The Intercept” é, de todos, o mais “self-righteous”, carrega nos ombros todas as certezas do mundo.

Mas todos trazem esse traço comum: julgam-se portadores de uma verdade, ou melhor, da verdade. E a trazem já digerida para você, como um pedaço de carne dura amaciado por enzimas antes do consumo.

Caráter regressivo

Nos primórdios da web, há quase 20 anos, duas publicações exclusivamente on-line logo se destacaram: as revistas virtuais “Slate” e “Salon”, que existem até hoje. Tinham um tom bem mais leve e mordaz que a chamada grande imprensa. Também não sofriam com restrições de espaço –na web, se um autor quiser escrever um texto de 1 bilhão de parágrafos, ok.

A “Salon” teve rápida repercussão mundial. Inclusive no Brasil, onde um grupo de jornalistas de primeiro time criou o site “no.com.br” (que eu nunca entendi se se chamava “No” ou “No Ponto”), de clara inspiração “salônica”.

A “Slate”, não sei se alguém se lembra, tinha um discurso agudo de alternativa à grande imprensa. O primeiro editor-chefe foi Michael Kingsley, muito conhecido nos EUA por um programa de debates na CNN, em que ele sempre defendia posições “de esquerda’’ (ou do que passa por esquerda na política americana).

E a dona da “alternativa” e “esquerdista” Slate era… a Microsoft. Pois é, a cultura do Vale do Silício, por mais trilhardária e dominante que tenha se tornado, originou-se no movimento hippie, e até hoje vive desse verniz “outsider”.

Mas “Slate” e “Salon”, mesmo nascidas já na web, ainda eram fortemente baseadas em texto. Há 15, 20 anos, vídeos não eram tão comuns on-line. O YouTube nem existia. As conexões eram lentas e a internet, um universo em invenção.

O boom do jornalismo nativo de web está acontecendo agora. Poderia ser um sopro de liberdade, uma viagem maravilhosa por novos conteúdos e novos formatos. Mas não é assim que o vejo.

Acabo me sentindo como Jaz Coleman, vocalista da banda inglesa Killing Joke. Quando o britpop de Blur e Oasis tomou conta da Inglaterra, Coleman exilou-se no interior da Nova Zelândia. Queria ficar o mais distante possível da música “regressiva’’ que dominava as paradas britânicas.

É esse caráter regressivo que tanto me incomoda na novíssima imprensa on-line. Ou ela é rasa, ou é autoimportante. É sempre impositiva, infantilizada. E faz listas, listas, listas. São quantas horas de voo para a Nova Zelândia?

******

Álvaro Pereira Júnior é colunista da Folha de S.Paulo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem