Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DE ‘VEJA’

Sempre em campanha

Por Mauro Malin em 05/08/2014 na edição 810

A revista Veja afirma peremptoriamente na edição 2.385 (com data de capa de 6/8/2014), na Carta ao Leitor, que “não faz campanha. Faz jornalismo rigoroso e independente”. O enunciado não se sustenta. Veja faz muita campanha. Faz até campanhas meritórias (ver imagens abaixo).

Quanto ao jornalismo “rigoroso”, infelizmente a revista está longe disso. Seu próprio método consiste, há décadas, mais em encaixar a chamada realidade dos fatos numa pauta do que o inverso, como fazem todos os que tentam praticar jornalismo rigoroso.

Se fosse aberto um espaço na internet para ex-repórteres da Veja darem depoimentos sobre como foram instruídos a construir suas matérias (em seguida reconstruídas por editores), não faltariam histórias. Construir significa, principalmente, obter de fontes declarações que se enquadrem nos objetivos da redação. Ou fabricá-las, o que acontece com uma frequência que surpreenderia os incautos.

As intenções podem até ser boas, como as de alguns stalinistas do passado e do presente, mas o resultado, ao se produzir uma narrativa que está sobretudo na cabeça dos narradores, nunca é bom. Pode até ser muito ruim, devido a ligações perigosas, um risco da profissão. Em abril de 2012, veio a público um grampo em que o bicheiro Carlinhos Cachoeira aparece dizendo ao ex-agente da Abin Jairo Martins:

“Os grandes furos do Policarpo [Júnior, da Veja] fomos nós que demos, rapaz. (…) Limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do c… para o Brasil, essa corrupção aí. Quantos já foram, rapaz”.

Cachoeira está longe de ser fonte fidedigna, mas essa história até hoje não ficou clara. Assim como tanta coisa mais neste país.

Independente, também não

Passemos à categoria “independente”. Talvez a revista tenha tentado em diferentes momentos ser o mais independente possível, mas a isenção absoluta é um mito, como sabe o leitor.

Isso dito, louvemos tudo de bom que a Veja ofereceu a seus leitores ao longo de 46 anos de existência. Não foi pouca coisa. Na própria edição acima mencionada, reconheça-se a relevância da reportagem de capa, “Fraude. CPI da Petrobras. Uma gravação mostra que os investigados receberam perguntas dos senadores com antecedência e foram treinados para responder a elas. A farsa é tão escandalosa que pode exigir uma inédita CPI da CPI para ser desvendada”. (A última frase, entretanto, é tipicamente de campanha. Ninguém declarou abertamente que pode ser necessária uma “CPI da CPI”. A tese pode ter brotado da cabeça de um repórter, de um redator, de um interlocutor qualquer. Os editores acharam-na engraçada e resolveram jogar verde. Mas é um detalhe.)

Conflitos intestinos?

Seria interessante e muito revelador saber quem passou à Veja o “vídeo da caneta”. Talvez, talvez, insista-se, se tornaria evidente como existem várias lutas durante a campanha eleitoral, não apenas a disputa pelo voto entre os principais partidos, mas igualmente ferozes conflitos intestinos (que o diga Antônio Palocci). Talvez, leitor, não se afobe.

O que é paradoxal, mas muito consentâneo com o quadro político brasileiro, é que a Veja, em política, faz campanhas erráticas.

Não faz muito tempo, saiu em defesa da presidente Dilma Rousseff. Como assim? Sim, plenamente, tendo chegado ao exagero patético de concitar, numa Carta ao Leitor, ecoando o Duque de Caxias na batalha de Itororó, durante a Guerra do Paraguai: “Sigam-na os que forem brasileiros.” Na edição 2.262 (de 28/3/2012), publicou uma entrevista chocha, sem nenhuma informação relevante, mas que lhe permitiu deixar Dilma bem na foto (literalmente):

A Veja faz, sim, campanhas. Avalie você mesmo, leitor consciencioso.

1. Campanha contra as “esquerdas”

2. Campanha contra a “corrupção” e assemelhados.

3. Campanhas promocionais.

4. Campanhas curiosas

5. Campanhas cívicas

Cachorros grandes

Ainda na edição datada de 6 de agosto, encontra-se uma pérola dos arquivos do regime de 1964. No caso, arquivos do general Médici. Trata-se de um momento em que Amaral Neto (1921-95), dublê de jornalista e político, aparece avisando o então presidente a respeito de um programa que a TV Globo iria exibir, destinado a denunciar uma campanha subversiva da Veja contra o governo militar.

Briga de cachorro grande. A Veja aproveita para dar uma cutucada no PT e suas brigadas de guerrilha midiática. Confira.

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