Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA A QUENTE

A gente não atira no ‘basso’

Por Carlos Alberto Sardenberg em 26/08/2014 na edição 813
Reproduzido do Globo, 21/8/2014; intertítulo do OI

Faz algum tempo, correu na rede a notícia de que uma pessoa conhecida havia sofrido um tiro no “basso”. Isso mesmo. O redator do primeiro site a contar a história não acertou no baço e assim circulou a suposta informação.

Parece que nem era isso, mas não importa. Mesmo que tivesse havido uma primeira apuração criteriosa, o resto foi copiar e colar. Isso passa longe do jornalismo.

O caso é simples, mas quem faz jornalismo está constantemente diante de situações assim – a de checar a informação que chega à redação, mesmo quando parece clara.

Estávamos ao vivo na CBN no dia em que caiu o Cessna que levava Eduardo Campos. A primeira informação que nos chegou, e que colocamos no ar, dava conta da queda de um helicóptero.

Era um erro. Testemunhas diziam isso mas, a rigor, não havia ainda como saber se era mesmo um helicóptero. Já se via fogo e destruição, e muita gente vira algo desabar do céu.

Ora, só podia ser um helicóptero. Um jato não passa por ali, não pelo menos voando tão baixo a ponto de atingir as casas e cair.

Mas aconteceu. Portanto, o melhor seria ter dito que havia caído uma aeronave. Fizemos isso logo depois, no curso da apuração, quando repórteres e as diversas fontes seguras – naquelas circunstâncias – não conseguiam ver hélices ou algo que identificasse um helicóptero. Parecia já um desastre bem maior.

Nesse momento, a apuração percorria diversos caminhos, das testemunhas locais aos órgãos de controle de voo, polícias, hospitais e políticos.

E a tragédia se desenhou num tempo que pareceu longo, mas foi questão de minutos: um Cessa partira do Rio para Santos levando Eduardo Campos e sua comitiva; o candidato não aparecera onde era esperado; assessores não o encontravam pelo celular; um jato tentara pousar no Guarujá e arremetera.

Pessoal e profissional

Era evidente a conclusão. Mas não colocamos no ar enquanto era só isso, uma conclusão abstrata tirada de uma série de indícios. Excesso de zelo?

Nada. Apenas o exercício do jornalismo. Não se pode dar uma notícia dessas na base do “parece que” ou “tudo leva a crer”… Afinal, poderia ser outro avião que caíra em Santos, tendo o de Eduardo Campos feito um pouso de emergência sabe-se lá onde.

Impossível? Muita coincidência?

Mas já tínhamos exatamente isso – uma história impossível, que estava acontecendo bem diante de nossos olhos.

Faz muito tempo, quando o jornalismo brasileiro estava numa fase de modernização, participei de um debate com um colega americano, então impressionado com a sem cerimônia com que nossos jornais diziam: fulano matou; o assassino foi capturado; o prefeito roubou.

Era preciso escrever: o suposto crime; o acusado; o denunciado.

Está certo, comentávamos, mas há casos evidentes, em que se vê a coisa acontecer. Mesmo assim, nos dizia o colega americano. E passou um filme que mostrava a cena chocante em que Jack Ruby matava a tiros Lee Oswald, ao vivo, na tevê. Oswald está sendo levado por policiais, Ruby sai de um grupo de jornalistas, empunha o revólver e executa Oswald , que viria a morrer.

Nenhuma dúvida.

Não mesmo? Suponha, nos provocava o colega, que Ruby errou o tiro ou que seu revólver falhou ou algo assim. E que o pessoal da CIA aproveitou a circunstância, levou Oswald para um canto e o assassinou. Ou ainda, teria a CIA armado tudo?

Não podemos, nós, jornalistas, cair nas teorias conspiratórias. Mas é preciso desconfiar, apurar e rechecar.

A um determinado momento na quarta-feira da semana passada [retrasada], entre meio dia e uma da tarde, já estávamos certos de que havia caído o avião de Eduardo Campos e que não havia sobreviventes. Mas esperamos até obter várias confirmações para dar a notícia toda.

Fizemos jornalismo. Não copiamos nem colamos nada. Assim fizeram muitos outros colegas de muitos outros veículos.

Nesses momentos, aumenta exponencialmente a audiência em todas as mídias, mas não a de todos os veículos. O público sabe onde buscar a informação confiável.

Neste momento em que se discute o futuro e, sobretudo, a qualidade do jornalismo no Brasil, queria deixar este depoimento, entre o pessoal e o profissional. Depois de mais de quase 45 anos de jornalismo, alguma coisa se aprende.

Tudo isso para dizer que aqui no sistema Globo a gente não atira no basso de ninguém, não faz nada escondido e, sobretudo, não usa anônimos para mexer no perfil dos outros.

******

Carlos Alberto Sardenberg é colunista do Globo

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