Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Genes, ideologia, política e jornalismo

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 26/08/2014 na edição 813

Dilma Rousseff e Barack Obama, como praticamente todos os políticos que exercem o poder em democracias no mundo, se sentem injustiçados pela imprensa, e de vez em quando saem atirando contra ela, especialmente em anos eleitorais, como é o de 2014 no Brasil e nos EUA.

Entre as características em comum que os dois presidentes têm está o fato de eles serem os pioneiros de suas condições, ela de gênero e ele de etnia, no mais alto cargo público de suas nações.

Por isso mesmo, é provável que a autodefesa em relação a críticas seja mais aguçada que a de seus antecessores, é possível que se sintam alvo de preconceitos, por serem mulher e negro, e pode-se supor que pelo menos algumas das críticas que recebem sejam originadas por eles.

No final de junho, Obama atirou pesadamente na imprensa por ela ser, em sua opinião, frívola, e não se ocupar dos problemas reais do povo. Dilma, por sua vez, na mesma época, concentrou seus ataques ao jornalismo por ele ter sido, segundo ela, catastrofista em relação à Copa do Mundo de futebol.

Dilma, Obama e a torcida do Flamengo não gostam de ser criticados. E uma das principais funções da imprensa numa democracia é criticar os que governam. Por isso, a antipatia deles contra ela é inevitável.

Alguns, no entanto, tendem a enxergar mal o poder do jornalismo e a retaliar com medidas que podem ser muito prejudiciais à sociedade.

A mídia, em questões político-eleitorais, é muito menos poderosa do que o senso comum supõe, como tem comprovado sistematicamente a pesquisa acadêmica desde que Paul Lazarsfeld, nas eleições presidenciais americanas de 1940, 1944 e 1948, monitorou o comportamento eleitoral e de consumo de mídia dos cidadãos de uma típica cidade americana, Elmira, Nova York.

Ele concluiu que os meios de comunicação exerceram influência pequena ou mesmo nula sobre a decisão de voto das pessoas que constituíam seu universo de pesquisa.

Nos anos 1950, Lazarsfeld foi mais longe. Com novos estudos, passou a acreditar que as escolhas eleitorais “são relativamente imunes à argumentação direta” e “caracterizam-se mais por fé do que por convicção, mais por desejo do que por cuidadosa previsão de consequências”.

Milhares de estudos comprovaram posteriormente e até agora as descobertas de Lazarsfeld. Em 2009, John Alford e John Hibbing publicaram na revista Science artigo em que tentam demonstrar vínculos entre as inclinações políticas das pessoas e seus genes, entre ideologia e biologia.

Recente trabalho de professores das universidades de Chicago, Nova York e Tilburg, sob a liderança de Eugene Caruso, mostra que nossas crenças afetam não apenas o modo como avaliamos o mundo em termos de juízos de valor, mas também como percebemos concretamente pessoas e coisas no ambiente.

O estudo demonstrou que, diante de um jogo de três fotos de Obama, uma sem alteração e as outras acentuando ou atenuando o tom negro da sua pele, quem concordava com as posições políticas do presidente e tendia a votar nele achava que o verdadeiro Obama era o mais claro, e os que se opunham e iam votar no seu opositor o reconheciam como o mais escuro, em proporções estatisticamente significativas.

Assim, ou por genes ou por cultura, os cidadãos dificilmente mudam de atitude ideológica ou eleitoral por causa de qualquer eventual tipo de cobertura da política pela mídia. Mas quem é criticado tende a achar o contrário.

E, se a pessoa tem muito poder e pouco senso, pode tentar se vingar com medidas que ferem a liberdade de expressão e a democracia. ?

 

Mídia e Poder

Visões de governo e oposição

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é outro político que tem por hábito atacar o jornalismo sempre que ele o critica ou desagrada. Por causa da cobertura da Copa do Mundo, afirmou que a imprensa “não nasceu para ser partido de oposição”. Como não é incomum em suas falas, Lula cometeu um erro factual.

Na verdade, em muitos países, o Brasil entre eles, a imprensa nasceu exatamente com o propósito de fazer oposição. No caso brasileiro, o primeiro jornal foi o Correio Braziliense, que lutava pela independência do Brasil e contra a monarquia portuguesa.

Lula, como muitos, acha bom que a imprensa seja de oposição quando ele está na oposição. O PT gostava da “mídia burguesa” e
a municiava com informações quando ela criticava e denunciava o governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas, quando virou governo, passou a detestá-la por cumprir o mesmo papel.

Diferentemente de sua sucessora, Lula, tanto quando estava no Planalto quanto após tê-lo deixado, deu asas àqueles que, no seu entorno, tentam propor maneiras de coibir a liberdade de expressão no país. ?

É fácil em alguns países

Alguns poderosos quese irritam com a imprensa conseguem ter vida mais fácil e deixam de se preocupar com ela.

O exemplo mais recente vem do Egito, onde o regime de Abdel Fattah al-Sisi, atual presidente do país, que aplaudia revelações de abusos de seus antecessores feitas pela imprensa, condenou a dez anos de prisão jornalistas premiados da insuspeita emissora de TV Al
Jazeera, sob acusação de ter vínculos com o terrorismo e de degradar a imagem do Egito no exterior.

Sisi, como, antes dele, Saddam Hussein no Iraque, Muammar al-Gaddafi na Líbia, e tantos outros ditadores, em breve não precisará mais atacar a imprensa, pois ela já estará toda dominada no Egito.

 

Mídias sociais

Novidades na pesquisa

As mídias sociais e seus efeitos ainda mal diagnosticados no mundo e em especial no ambiente jornalístico continuam sendo estudados por acadêmicos em vários países. Abaixo, três pesquisas relevantes divulgadas em maio.

>> Métrica todo-poderosa – Edson C. Tandoc Jr., da Nanyang Technological University (Cingapura) e Ryan J. Thomas, da Missouri School of Journalism, pesquisaram como diversos veículos jornalísticos estão orientando suas diretrizes editoriais pela métrica de audiência de suas mídias sociais e apontam o risco de eles se deixarem escravizar pela audiência em vez de iluminá-la e desafiá-la. Com isso, dizem, os veículos podem ser uma barreira à criação de uma comunidade em torno de ideais compartilhados e ao compromisso coletivo com a democracia. O modelo “centrado na audiência e governado pela lógica de mercado” é eticamente condenável e negligencia o papel crucial do jornalismo de entender o que o público quer e balancear com
o que o público precisa, dizem.

>> De perdição a panaceia – Philip Schlesinger e Gillian Doyle, da Universidade de Glasgow, analisaram por meio de entrevistas em profundidade com executivos e editores do Daily Telegraph e do Financial Times o processo de transição desses dois jornais de um universo totalmente impresso para outro hegemonicamente digital e as tensões ocorridas nas redações durante essas mudanças e até o momento. As mídias sociais, inicialmente encaradas como inimigas e causa das desgraças dos jornais passaram a ser vistas por muitos como a salvação do futuro. A conclusão é que é preciso saber dosar as qualidades dos dois mundos para construir com sabedoria o que vem pela frente.

>> No centro de tudo – Deen Freelon, Sarah Merritt e Taylor Jaymes, da American University, foram a campo para monitorar como a imprensa tratou o papel das mídias sociais nos movimentos Primavera Árabe e Occupy Wall Street, que muitos chamaram de revoluções do Facebook. Constataram que em cerca de dois terços das matérias analisadas sobre esses assuntos, recolhidas em sites de dez jornais representativos, as mídias sociais foram destacadas como o centro dos acontecimentos, em especial na Primavera Árabe. Das 795 matérias analisadas, 505 diziam que as redes sociais eram instrumentais para os protestos. Essa tendência foi mais incisiva nos meios digitais do que nos meios tradicionais.

 

Copa do Mundo

No filme Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News, 1987), de James Brooks, o repórter e editor Tom Grunick (interpretado por William Hurt) ganha notoriedade, promoção, prêmios e mulheres ao aparecer chorando durante uma entrevista. Na verdade, ele usou recursos de montagem para simular essa emoção, mas isso pouco importa.

Existe no jornalismo em geral e no telejornalismo em particular uma compulsão por mostrar ou descrever lágrimas, talvez pela presunção de que quem chora é “autêntico” e de que essas cenas criam forte empatia com a audiência e resulta em sucesso para a matéria e seus autores.

Na Copa do Mundo de 2014, não faltaram oportunidades para destacar lágrimas, e os veículos jornalísticos não foram nada tímidos ao explorá-las. Todos os dias, manchetes generosas foram dedicadas aos choros de dor, medo, alegria, tristeza, civismo dos heróis da pátria brasileira que se sacrificaram por ela e por todos nós nos gramados nacionais.

Muito poucos abriram espaço para outras atitudes, sem lágrimas, como a dos jogadores da seleção da Argélia, que resolveram doar o dinheiro de sua premiação às vítimas palestinas do conflito do Oriente Médio. Os argelinos não choraram. Talvez por isso ninguém os notou na imprensa.

 

Veículos

Bezos muda a pergunta

Jeff Bezos começa a dizer a que veio no Washington Post. O jornal passou a oferecer assinaturas grátis de todo seu conteúdo digital aos assinantes de veículos regionais americanos que se associarem a ele nesse projeto. A ideia é aumentar sua audiência, torná-la nacional e, talvez, mundial.

Tudo indica ser uma operação em que todos ganham e ninguém perde: para os jornais associados, é uma atração extra para seus leitores; para o Post, um extraordinário aumento de circulação, sem custo adicional para nenhum deles.

O presidente do Post, Steve Hills, diz que Bezos mudou a pergunta essencial para os executivos do jornal. Antes, ela era: “Como vamos fazer dinheiro nos próximos dois ou três anos?” Agora, é: “Como vamos ter uma grande audiência digital nos próximos dez ou vinte anos?”

Entre os jornais regionais importantes que já aderiram ao negócio estão Dallas Morning News, Honolulu Star-Advertiser, Toledo Blade, Minneapolis Star Tribune, Pittsburgh Post-Gazette e Milwaukee Journal Sentinel.

O Post sob o comando da família Graham tinha como dístico “Um jornal para Washington e sobre Washington”. Ele estava em praticamente todas as casas da cidade e vizinhanças durante décadas e concentrava quase toda sua cobertura nas questões locais e nas nacionais originadas na capital. Essa era a força de sua receita e o motivo de orgulho de seus editores.

Agora, a rota é diferente. O objetivo é seguir a linha de outros veículos que se internacionalizaram antes, como The New York Times, The Economist e Financial Times. A ideia é fazer do Post uma marca mundial e aumentar seu faturamento publicitário e de assinantes graças a isso.

Pela pesquisa e inovação

a Associação Mundial de Jornais divulgou em junho um “manifesto por uma aliança internacional em favor da pesquisa e inovação nos meios de comunicação”. Segundo seus idealizadores, que a indústria necessita com urgência de um esforço bem-sucedido para entender as condições do ambiente em que opera e para desenhar saídas para impasses a que está submetida.

O “ecossistema de inovação” que idealmente derivará desse projeto deve se desenvolver em torno de quatro pilares: a visão estratégica compartilhada que está expressa no manifesto, um processo de treinamento e aconselhamento, a coprodução de serviços e tecnologias em parceria com o mundo da pesquisa e transferência de tecnologia com interface específica entre editores, provedores de tecnologia e startups.

O nome do projeto é “Media Innovation Hub” e seu objetivo principal é acelerar mudanças na indústria para que ela possa enfrentar a dura realidade atual (o manifesto lembra que na Europa a circulação paga dos jornais caiu 25% entre 2008 e 2012 e nos EUA o faturamento publicitário decresceu 42% no período).

A ideia é apresentar seus primeiros resultados no prazo de um ano. Do Brasil, fazem parte o grupo RBS e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande Sul. Entre outros, participam a Agência France-Presse, a Universidade Vrije de Bruxelas
e a Escola Politécnica Federal de Lausanne (Suíça).

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Carlos Eduardo Lins da Silva é livre-docente, doutor e mestre em comunicação; foi diretor-adjunto da Folha de S.Paulo e do Valor

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