Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Dilma muda discurso sobre papel da imprensa nas investigações

Por Cristiane Jungblut em 23/09/2014 na edição 817

A presidente Dilma Rousseff recuou e tentou consertar a declaração de que o papel da imprensa não é investigar e sim divulgar informações, dada na sexta-feira [19/9]. Agora, Dilma disse agora que o “jornalismo investigativo pode fornecer elementos ou indícios”. Ela citou até o caso “Watergate”, no qual os jornalistas americanos apontaram, com base num informante, os problemas que acabaram afetando o governo de Richard Nixon. Irritada, a petista disse que “fizeram uma confusão” com suas declarações e que ela estava falando na necessidade de se ter um processo formal e legal de investigação onde as provas não sejam comprometidas.

Dilma defendeu, por exemplo, a tipificação de crimes como a corrupção e o do caixa dois. Bem-humorada, a candidata à reeleição ainda defendeu seu direito de usar o Palácio da Alvorada para dar entrevistas, afirmando que, se não puder fazer isso, vai virar uma presidente “sem-teto”.

– Fizeram uma confusão danada com a minha declaração. Agora, o jornalismo investigativo pode até fornecer elementos. Vamos lembrar de um caso clássico: o Watergate, que forneceu elementos. Agora, quem fez a prova foi a investigação oficial. Se ela não fizer a prova, você não consegue condenar ninguém. Assim é o processo. O que temos de obter cada vez mais é maior rapidez da investigação e que seja muito mais claramente tipificados os crimes. Vou dar um exemplo: o caixa dois não está no Código. O processo de combate à impunidade requer tipificar e rapidez nos julgamentos – disse Dilma, acrescentando:

– Estávamos discutindo impunidade. O que é grave no Brasil? Se você investigar e detectar corrupção, para você não deixar as coisas impunes, você tem de propor uma ação penal na qual as provas são apresentadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. E vai para julgamento e, lá, ainda tem direito ao contraditório.

Para Dilma, esses são motivos que dificultam o combate à impunidade no país.

– É essa discussão que estava aqui falando com vocês. A imprensa investiga, investiga para informar e até para fornecer prova, como é o caso do Water Gate. Não é nem prova, o correto é indício. Agora, o que no Brasil estou falando é de aperfeiçoamento institucional e legal, do qual precisamos. Tenho certeza de que a impunidade é elemento essencial da reprodução da corrupção. Na medida em que a pessoa se considera acima de qualquer suspeita, doa a quem doer, atinja quem atingir, a coisa fica complicada.

Para ela, só a investigação é eficaz no combate às práticas ilegais.

– Portanto, o processo de investigar e acabar com a impunidade diz respeito à gente acelerar o processo de investigação e garantir que não se alegue que as provas foram comprometidas por A, B, C ou D. Que se garanta que prova seja consistente. Isso é uma coisa. A impunidade (o combate) se dá no âmbito dos processos judiciais. Quantos julgamentos conhecemos que estão em andamento? – disse ela.

“Sem-teto”

Dilma ainda foi enfática ao defender seu direito de usar o Palácio da Alvorada para dar entrevistas, lembrando que os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula sempre fizeram isso. Ao responder à declaração do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), José Dias Toffoli, de que o Alvorada e símbolos do governo não deveriam ser usados, Dilma considerou “estranho” o posicionamento.

Bem-humorada, a petista disse que não vai mais usar a Biblioteca do Alvorada e pediu que os cinegrafistas “desfoquem” as imagens. Mas repetiu várias vezes que não ficaria bem ser uma “sem-teto” e ter de dar entrevistas “na rua”.

– Respeito muito a posição do presidente do Tribunal. Agora, só quero lembrar que todos os meus antecessores usaram o Palácio. Até porque, caso contrário, serei uma sem-teto, não terei onde dar entrevista. Porque não tenho casa, não pode ser no Palácio da Alvorada, serei sem-teto e irei para a rua dar entrevista. Não tem outro local. Tenho por mim que, todos os presidentes que me antecederam, Fernando Henrique e o meu querido companheiro Lula, usaram o Alvorada, deram entrevista aqui e isso não causou problema para ninguém – disse a candidata à reeleição pelo PT.

Amiga de Toffoli, que foi advogado do PT por anos, a presidente Dilma disse que vai aguardar uma manifestação final do TSE.

– Espero ainda uma posição do Tribunal esclarecendo sobre esse assunto. Agora, que eu serei uma sem-teto, eu serei. Porque, além de dar entrevista, quero lembrar que exerço também minha função presidencial. Por que fico aqui e não lá no Planalto? Porque não posso fazer nada lá no Planalto em dia de semana. O meu dia não é igual a um dia normal: não tenho aqueles dez minutos para a minha campanha e naqueles dez minutos eu trato do problema do governo. Trato sistematicamente do problema do governo. Não parei de fazer isso. É obvio que a decisão vou acatar e o respeito que tenho pelas opiniões. Agora, o que estranho é que todos aqueles que me antecederam usaram este Palácio para dar entrevista.

Apesar de se dizer cansada, presidente afirmou adorar as atividades de rua.

– O brasileiro gosta de agarrar, abraçar e beijar. Eu também. E a selfie é a maior invenção desta campanha. O Rousselfie falam para mim – disse Dilma, brincando que há até a “selfie terceirizada”:

– Tem até a selfie terceirizada, que é quando não consegue e dá para o outro fazer.

Ida aos Estados Unidos

A presidente Dilma Rousseff terá uma agenda de campanha nesta segunda-feira, em Minas Gerais, e à noite embarca para Nova York, onde participará da Assembleia Geral da ONU. Dilma disse que será uma viagem muito rápida e que, por isso, não participará de eventos como a Cúpula do Clima ou a reunião dos indigenistas.

– Farei pronunciamento e volto para o Brasil. Será uma viagem chamada bate e volta – disse a presidente.

Nesta segunda-feira, ela ferá caminhada na cidade de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Minas Gerais. Ao falar sobre a viagem, a candidata à reeleição fez questão de dizer que iria, primeiro, a Minas Gerais. Dilma é mineira, e o PSDB do candidato à Presidência Aécio Neves está no governo estadual atualmente.

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‘Papel da imprensa não é o de investigar e sim divulgar informações’, diz Dilma sobre escândalos

Cristiane Jungblut (Globo.com, 19/9/2014)

A presidente Dilma Rousseff disse que vai pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) acesso ao depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa dentro do processo em que ele é beneficiado pela delação premiada. Enfática, Dilma disse que “não é possível” a imprensa ter informações e que, como presidente da República, não pode tomar providências com base no “disse me disse”. A petista disse que vai fazer o pedido ao ministro Teori Zavascki, que é o relator do caso no STF. Para a candidata, o papel da imprensa “não é de investigar e sim de divulgar informações”.

A reação de Dilma ocorreu porque o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, negou acesso ao depoimento de Paulo Roberto Costa. Ela disse que não faz prejulgamentos e que, sem as informações oficiais, não pode “tomar providências”. Para Dilma, a impunidade é o maior mal do país atualmente.

– Pedirei ao ministro Teori a mesma coisa: quero ser informada se no governo tem alguém envolvido. Não tenho porque dizer que tem alguém envolvido, porque não reconheço na revista “Veja” e nem em nenhum órgão de imprensa o status que tem a PF, o MP e o Supremo. Não é função da imprensa fazer investigação e sim divulgar informações. Agora, ninguém diz que a informação é correta. Não prejulgo, mas também não faço outra coisa: não comprometo prova. Porque o câncer que tem nos processos de corrupção é que a gente investiga, investiga, investiga e ainda continua impune – disse Dilma, acrescentando:

– Não é possível que a revista “Veja” saiba de uma coisa e o governo não saiba quem é que está envolvido. Pedi primeiro para a PF, que me disse: não posso entregar, a investigação está em curso e peça ao MP. E o MP me disse a mesma coisa: se ele me disser, ele contamina a prova. Se ele me disser, ele contamina a prova.

E reiterou, irritada:

– Quando sai uma denúncia na “Veja” ou em qualquer outro jornal, eu não tomo medida, porque sou presidente da República, baseada no disse me disse. Tomo medida baseada inclusive naquilo que sou a favor, que é da investigação absoluta. Vamos deixar uma coisa clara aqui: Quem é que descobre as práticas de corrupção no Brasil? A PF. Porque a PF tem hoje uma autonomia integral para investigar quem quer que seja. No Sempre que vazam informações que estão em investigação, sabe o que acontece? Compromete-se a prova. O MP denuncia e não pode ser condenado, porque a prova foi comprometida. Não é possível que alguém queira que a fonte de investigação no Brasil não sejam os órgãos oficiais. E são PF, MP e Judiciário.

Para Dilma, os crimes ficam impunes no Brasil por causa do vazamento de informações.

– O que queria saber? Queria saber sim, para eu tomar providências. O que eles me dizem? Se entregar a prova para você, estarei comprometendo a investigação. Acho que nessa investigação, ela está sendo diferente. A própria revista Veja diz que o inquérito, os depoimentos, a delação estão criptografados e guardados num cofre. Isso significa que nenhuma das falas é garantida. Ninguém sabe o que é – disse a presidente, afirmando que tem um “imenso compromisso contra a impunidade”:

– O pai no sentido de protetor, o compadre do crime de corrupção, do crime de lavagem de dinheiro, do crime financeiro é um só: a impunidade. Pode saber que criar condições para (combater ) impunidade, é uma coisa que o país tem de avançar. Antes, tinha o engavetador- geral da república. Hoje, tem um procurador-geral da República que investiga e tem autonomia.

A presidente se irritou ao ser perguntada sobre a declaração de Paulo Roberto de que teria recebido R$ 1,5 milhão de propina no processo de compra da refinaria Pasadena. Ela já tinha encerrado a entrevista e voltou para falar sobre o assunto.

– Se você me disser para quem ele disse, quem disse e como é que disse, eu respondo. Recebo informações de juiz, de procurador e de delegado da PF. Sou a favor de investigar, nada colocar para debaixo do tapete. Acho que o maior mal atual é a impunidade. Se investiga, descobre o mal feito e não condena, cria a sensação de que não teve pena nenhuma. Sabe por que protege com a impunidade? Porque você não prende, não pune e só tem um jeito: tem que punir. Por isso é que se diz: tolerância zero – disse ela, irritada e falando enquanto caminhava na rampa interna do Palácio da Alvorada.

Dilma ainda criticou a especulação na Bolsa de Valores e no mercado financeiro com base no resultado de pesquisas eleitorais.

– Acho ótima a reação da Bolsa. Quando a Bolsa cai, eu falo: será que eu subi? Tá ficando ridículo isso. Especulação tem limite! E acho que tem gente ganhando com isso. Eu não sou, eu perco, tá? Acho desagradável o fato de acharem que uma coisa está vinculada à outra. Quando sobe, ou quando desce. Não comentei e não comento pesquisa nem quando sobe e nem quando desce. Nunca comentei na vida – disse, irônica.

Escândalos iniciados na imprensa

>> Collor. Pedro Collor de Mello, irmão de Fernando Collor, deu entrevista à revista “Veja”, em 1992, que acabou resultando no impeachment do presidente. Ele dizia que PC Farias era “testa de ferro” do irmão, com grande influência nas decisões do governo. O GLOBO publicou que o Fiat Elba de Collor fora pago com cheque do fantasma José Carlos Bonfim, provando que o presidente não estava fora do esquema PC.

>> Anões do Orçamento. Em 1993, José Carlos Alves dos Santos, ex-assessor da Comissão Mista de Orçamento, contou à “Veja” que parlamentares faziam emendas destinando dinheiro a entidades ligadas a familiares e também a laranjas. O esquema incluía ainda acertos com empreiteiras.

>> Mensalão. Roberto Jefferson denunciou ao jornal “Folha de S.Paulo”, em 2005, o esquema do mensalão. Afirmou que levou o assunto a vários ministros do governo Lula e ao próprio presidente.

>> Mensalão Mineiro. Em julho de 2005, O GLOBO publicou que Marcos Valério, operador do mensalão do PT, já havia montado o mesmo esquema para a coligação do tucano Eduardo Azeredo, em Minas.

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Cristiane Jungblut, do Globo

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