Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A genealogia de Foucault e o jornalismo

Por Jeferson Bertolini em 14/10/2014 na edição 820

Dono de uma obra desconfortável e instigante, Michel Foucault (1926-1984) teorizou a partir de temas outrora ignorados pela academia, como sexo, loucura e prisões. Seus trabalhos sempre discutiram o poder, que considerava intimamente ligado ao saber. “Todo mundo sabe alguma coisa e todo mundo tem algum poder. Mas se você sabe mais, tem mais poder.” O pensador francês, considerado um dos mais notórios da modernidade, dizia que a ciência “não deve hierarquizar os saberes”. E defendia um método de investigação, o genealógico, que levava em conta os “saberes eruditos” e os “saberes populares”.

No caso do jornalismo, seria um método de apuração que considerasse a fonte oficial sem ignorar a fonte comum, aquela sem sobrenome corporativo, cadeira reclinável e sala refrigerada. Em teoria é isso que se prega. Mas a prática talvez se mostre diferente. Afinal, a fonte erudita costuma estar do outro lado da linha, enquanto a fonte comum pede que se saia da redação, o que parece estar cada vez mais fora de moda.

O fato de o jornalismo, sobretudo depois do fetiche do imediato da internet, caminhar cada vez mais rumo à declaração, ao oficial, ao relatório, à estatística, à nota, ao post e ao tuíte, não é novidade. O que ainda precisa ser mais enfrentado talvez sejam as consequências disso.

Saber tirano

Foucault definia a genealogia como o “acoplamento do saber erudito e o saber das pessoas”, algo que considera ter sido possível com o fim do que chamava de “tirania dos discursos englobantes”. Ele previa, assim, o “retorno do saber”: viria de uma espécie de levante dos saberes dominados, aqueles deixados de lado ao longo dos tempos.

O francês definia dois grupos de saberes dominados: o primeiro tem relação com os “conteúdos históricos que foram sepultados e mascarados em sistematizações formais”; o segundo abraça “saberes que tinham sido desqualificados ou apontados como insuficientemente elaborados” (seriam saberes ingênuos, hierarquicamente inferiores, abaixo do nível requerido de conhecimento ou cientificidade).

Para Foucault, os saberes determinaram relações de poder. Um exemplo disso, dizia, está no saber psiquiátrico: a partir do momento em que a psiquiatria desenvolveu um saber apoiado em discursos comportamentais, passou a ter o poder de definir quem é louco e quem é não é.

O mesmo princípio se aplica a médicos, peritos, psicólogos, pedreiros, meteorologistas, confeiteiros, arquitetos, agentes de trânsito, sexólogos e outros profissionais que, apoiados em um saber específico, exercem uma relação de poder sobre os demais. Fica inevitável perguntar: a fonte oficial não se converteu em um saber para o jornalismo?

Apesar de discutir o poder ao longo de sua obra, Foucault nunca se preocupou em conceituá-lo. Em alguns textos, ele se apropria de definições de Georg Hegel (1770-1831) e Sigmund Freud (1856-1939), para quem “poder é aquilo que reprime a natureza, os indivíduos, os instintos e as classes”.

Referência

FOUCAULT, Michel. “Genealogia e poder”. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. p. 167-177.

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Jeferson Bertolini é repórter e doutorando em Ciências Humanas

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