Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Manchetes sobre corrupção

Por Mauro Malin em 14/10/2014 na edição 820

Existe um tipo de erro cometido pela mídia jornalística que talvez seja pior do que o factual, fruto da apuração descuidada, preguiçosa ou desarvorada, da edição viciosa ou relapsa: trata-se da agenda falsa, geralmente uma questão que interessa só uma fração da sociedade mas, martelada em manchetes de jornais, capas de revistas e noticiários de televisão e rádio, ganha a aparência de grande questão decisiva na vida presente das pessoas e para o futuro da nação.

A questão da corrupção é, no momento, uma delas. A corrupção desmoraliza a lei, que deveria ser igual para todos; mina a democracia, porque é necessariamente praticada às escondidas; prejudica políticas públicas, não apenas porque somas consideráveis são desviadas – no Valor de 13/10 a “comissão” de 3% em investimentos da Petrobras é calculada em R$ 12,5 bilhões ao longo de oito anos –, mas sobretudo porque chega a inverter a lógica do planejamento, que passa a ser feito ao gosto das empreiteiras, ou prestadoras de serviços, e seus sócios, e não como seria melhor para o povo; é inimiga jurada da coesão social, porque no sistema brasileiro há os que podem, mandam e desmandam, e há os que vão apodrecer na cadeia (daí o espanto e a admiração com a condenação de mensaleiros).

A corrupção é tudo isso, mas não é uma das grandes questões nacionais. Toda vez que foi erigida em problema decisivo, o desenlace foi trágico: golpe que provocou o suicídio de Vargas, eleição de Jânio, golpe de 1964, eleição de Collor, o caçador de marajás. A corrupção e a fraude se inscrevem no capítulo da ontologia do ser humano, ou das sociedades, não no da história política e social, embora a história tenha sido muito afetada por uma ou outra em alguns episódios, como a renúncia de Richard Nixon.

Corrupção é um tema privilegiado pela imprensa porque tem sempre um quê de sensacional, rende manchetes, alimenta o e se alimenta do maniqueísmo, pode ser “apurada” sem grande gasto de recursos, via conversas com promotores e policiais, filtradas por recomendações do departamento jurídico da casa. E permite ao veículo ostentar indignação como a das “pessoas de bem”, mascarando assim seu verdadeiro etos, que é o da hipocrisia e do cinismo.

Peso relativo

As eleições desde 1998 no Brasil mostram que o eleitor não dá primazia a denúncias de corrupção e fraude, começando pela reeleição de Fernando Henrique Cardoso, passando pela reeleição de Lula, após o mensalão, e chegando à atual campanha eleitoral, na qual a presidente Dilma Rousseff venceu no primeiro turno a despeito da cuidadosamente tempestiva revelação de tenebrosas transações na Petrobras e alhures.

Elitistas dirão que tudo isso é natural porque “o povo não sabe votar”. Pessoas mais lúcidas dirão que o cidadão brasileiro sabe distinguir coletivamente entre aquilo que terá influência em seu cotidiano, em seus planos e em seus sonhos, e o que é uma batalha de longuíssimo prazo que depende de avanços substanciais na educação pública, nas noções de cidadania e na consolidação de instituições com credibilidade – uma coisa sem a outra não funciona.

Mas o bloco oposicionista consegue a solidariedade da mídia jornalística para a empreitada de colocar a corrupção governista – que, diga-se de passagem, só os piores cegos ignoram – no centro do debate. Não funciona. Se funcionar, cuidado, porque o resultado será uma expectativa de “investigação e punição” que não será atendida.

Devassa anti-Maluf

Em 1982, durante sua campanha para governador de São Paulo, Franco Montoro, então no PMDB (ele seria um dos fundadores do PSDB), prometeu uma devassa completa da administração de Paulo Maluf, o governador “biônico” que o antecedera, e cuja folha corrida é conhecida. Essa prometida investigação não chegou a lugar nenhum e Maluf daí em diante passou a dizer que ganhara um certificado de honestidade dado por seus mais ferrenhos adversários.

A mise-en-scène às vezes deixa o encenador de cueca. Durante o governo de Itamar Franco, Antonio Carlos Magalhães alardeou que tinha um alentado dossiê sobre a corrupção de adversários seus. Pediu audiência ao presidente. Chegou ao gabinete de Itamar sobraçando uma pilha enorme de papéis. Supôs que, como era praxe nessas situações, Itamar mandaria a imprensa esvaziar a sala para o início da audiência. Mas Itamar não o fez. Disse para Antonio Carlos que seria bom os representantes da imprensa verem o material que ele trazia. Como se tratava de um blefe, Antonio Carlos inventou uma desculpa e saiu furioso do gabinete planaltino.

Com o eleitorado dividido ao meio a duas semanas do segundo turno, Aécio Neves poderá ser o vencedor. Se for, não terá sido eleito pelas denúncias de corrupção contra os governos petistas, mas porque seu discurso e suas propostas/promessas terão convencido um número maior de eleitores do que o discurso e as propostas/promessas de sua oponente. Sempre cabe a ressalva de que o mote da corrupção pode funcionar se aparecer denúncia credível que deixe algum dos candidatos em muito maus lençóis.

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