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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Investimento em reportagem revigora ‘Washington Post’

Por David Carr em 21/10/2014 na edição 821
Reproduzido da Folha de S.Paulo/New York Times, 18 de outubro de 2014; tradução de Paulo Migliacci

Depois de passar por uma séria crise, o jornal Washington Post está vivendo uma grande fase, produzindo o tipo de reportagem pelo qual jornalistas – e leitores – anseiam. Os sucessos recentes incluem a cobertura de um caso que resultou na renúncia do diretor do Serviço Secreto e reportagens investigativas que acabaram produzindo a condenação de um ex-governador da Virgínia acusado de corrupção.

As pessoas que trabalhavam no Washington Post por décadas tiveram de suportar críticas por não estarem à altura dos dias de glória do caso Watergate – e é difícil imaginar que seja possível revivê-los. Há dois anos, depois de uma série de demissões e alguns tropeços de gestão, o declínio na ambição e qualidade do produto estava ficando evidente para todos. O Washington Post passou a ser visto mais como exemplo de decadência do que como de qualidade.

Enquanto o site Politico – cuja equipe é formada por antigos jornalistas do Washington Post que deixaram o jornal insatisfeitos – ganhava terreno com sua cobertura política agressiva, os murmúrios de que o jornal havia perdido a relevância ganharam volume. A Columbia Journalism Review argumentou que, ao demitir centenas de funcionários, os líderes do Washington Post haviam “diluído a qualidade” da publicação; a Vanity Fair lamentou que ele tivesse se tornado “símbolo de declínio”; e a New Republic o definiu como “em severa desordem”.

Reviravolta

A família Graham, que por muito tempo comandou o Washington Post, por fim decidiu, pouco mais de um ano atrás, que mais recursos financeiros e uma forma diferente de pensar eram necessários para preservar o jornal, e o vendeu a Jeff Bezos, o fundador da Amazon.

Agora, pouco mais de um ano depois da mudança, a narrativa mudou e o Washington Post voltou a ser comentado pelos motivos corretos. Será que Bezos tinha alguma magia digital a oferecer que tenha alterado a matemática do jornalismo moderno? Longe disso. Sua disposição de bancar a contratação de novos funcionários – mais de 100 neste ano – criou uma atmosfera de confiança e estabilidade financeira.

O Washington Post atual é uma organização noticiosa surpreendente e enérgica – talvez não o jornal de importância maior que Ben Bradlee um dia comandou como editor-executivo, mas uma leitura diária aguçada, mesmo assim, na versão digital e na impressa.

O jornal está criando desafios para seus concorrentes e oferecendo grande transparência quanto aos assuntos que cobre. Só um idiota torceria contra a saúde do jornal diário da capital do país.

O Washington Post tanto cobre quanto é parte da classe permanente de Washington, e existe amplo interesse cívico em termos um veículo noticioso dotado de bons recursos e de fontes e boas percepções sobre a burocracia governamental e o mundo político.

Parte da visibilidade atual do Washington Post se relaciona à crescente sofisticação exibida na promoção nacional de seu conteúdo; de acordo com a comScore, em julho o site do jornal recebeu 39,452 milhões de visitantes únicos, 63% a mais do que no mês em 2013.

Reportagens de ponta

Mas estamos falando de mais do que magia digital. O que realmente atrai o público é o noticiário. E o Washington Post vem gerando uma montanha de excelentes reportagens. Além da cobertura ainda em curso dos lapsos de segurança do Serviço Secreto e do caso de corrupção na Virgínia, houve uma grande investigação sobre o confisco pela polícia de milhões de dólares de motoristas não acusados de crimes. Outro trabalho de destaque foi uma série sobre como a política teve precedência sobre as boas práticas de gestão no lançamento do novo sistema nacional de saúde.

Os exemplos de bom jornalismo da fase recente do Post são muitos, mas a boa fase atual começou com um estrondo em junho de 2013, quando Barton Gellman publicou uma série de artigos muito complicados, e de alto risco para o jornal, com base em informações vazadas por Edward Snowden, antigo prestador de serviços à Agência Nacional de Segurança. O Washington Post, em companhia do Guardian, recebeu o prestigioso prêmio Pulitzer de serviço público por seus esforços.

Boas notícias sobre jornalismo são tão raras quanto colaboração entre os partidos em Washington, e por isso assistir ao retorno do Washington Post à mesa dos adultos vem sendo divertido. O fato é que o último gesto dos Graham como comandantes do Washington Post – vendê-lo a alguém capaz de bancar um bom trabalho – foi um dos mais importantes.

Embora Bezos talvez não tenha descoberto até agora como usar a entrega por drones [aeronaves de pilotagem remota] para resolver o dilema econômico do jornalismo, ele vem financiando a excelência no trabalho, e não interfere demais. Ninguém o verá como um benfeitor altruísta do jornalismo em papel – no mês passado, a companhia anunciou cortes draconianos nas pensões, como, por exemplo a eliminação dos benefícios médicos aos aposentados. O plano de aposentadoria com renda fixa dos principais executivos também foi congelado, e a ideia é estender os mesmos cortes aos funcionários sindicalizados do jornal.

E tampouco se pode dizer que o Washington Post tenha reinventado a matemática de produzir informação de alta qualidade na era dos preços genéricos.

Mas, por enquanto, permitir que jornalistas divulguem notícias, busquem furos e iluminem a Web parece ser um caminho melhor do que dar-lhes bolos de despedida.

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Novo editor foi crucial para renovação do jornal

No mundo da mídia, uma única pessoa, chegando na hora certa, pode mudar o destino de uma organização.

Pense em Tina Brown na “New Yorker”, Eugene Roberts no “Philadelphia Inquirer” ou Adam Moss na revista “New York”.

No “Washington Post”, Bezos pode ter garantido que a conta de luz continuasse a ser paga, mas foi Martin Baron, apontado como editor no começo de 2013, que reconduziu o jornal ao centro das conversações.

“Marty é ótimo jornalista, um cara realmente brilhante e objetivo que acredita no poder da notícia, e isso é muito contagioso em uma Redação”, disse Tom Rosenstiel, diretor executivo do American Press Institute. “O ímpeto é muito importante.”

Baron é um veterano muito viajado e respeitado que trabalhou no “Miami Herald”, no “Los Angeles Times” e no “New York Times” antes de se tornar editor-executivo do “Miami Herald” em 2000 e no ano seguinte assumir o comando do “Boston Globe”. Ele se distinguiu como líder nas duas publicações, mas o momento era de caos financeiro, cortes e ambições reduzidas.

O “Washington Post” é o primeiro jornal em que ele ganha uma batuta de maestro que não esteja pegando fogo. Marcus Brauchli, seu predecessor, não era unanimidade, mas tomou medidas importantes para modernizar a abordagem noticiosa da publicação. Baron tocou adiante o processo.

“Com Jeff, temos estabilidade e recursos para investir”, disse Baron em entrevista telefônica. “Os repórteres precisam saber que terão apoio, que seus colegas não desaparecer e que eles podem fazer seu trabalho sem que precisem se preocupar o tempo todo sobre perdê-lo. O otimismo, como a negatividade, pode ser infeccioso.”

“Creio que o Washington Post’ seja uma redação muito confiante, hoje em dia”, disse Dean Baquet, editor-executivo do “New York Times”, concorrente –e também amigo– de Baron. “Eles escolhem as histórias certas, usam muitos repórteres para cobri-las e trabalham com afinco. É uma Redação muito bem liderada.”

No “Post”, o número de bolos de despedida encomendados foi tão grande durante tantos anos que pedi-los se tornou verbo –falava-se em “bolar” alguém.

“Se a cada sexta você se despede de um colega, a sensação será diferente caso você passe a ver muita gente bacana sendo contratada”, diz Marc Fisher, editor sênior do “Washington Post”.

“E com uma atmosfera assim, Martin fez um excelente trabalho em elevar as ambições da equipe”, completa. (Do NYT)

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David Carr, do New York Times

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