Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > ARTE DE NARRAR

O alerta de Benjamin e o jornalismo

Por Jeferson Bertolini em 21/10/2014 na edição 821

Walter Benjamin (1892-1940) conheceu um texto jornalístico menos seco que o atual. As reportagens em sua época tinham mais de 2,5 mil caracteres (com espaços) e os repórteres conseguiam (sem se atracar com os editores) colocar um “molho” nos textos. Mesmo assim alertava: “A arte de narrar está em vias de extinção”, e um dos culpados é o jornalismo.

Filósofo, sociólogo, ensaísta e crítico literário, o alemão dizia que “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente” porque “as ações da experiência humana estão em baixa e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça”. “Basta olharmos um jornal para percebermos que seu nível está mais baixo que nunca”, diz em O narrador (1985).

Benjamin via dois tipos de narradores: “os viajantes” e “os que viveram muito e conhecem suas histórias e tradições”. A fonte a que ambos recorrem é “a experiência que passa de pessoa a pessoa”, destacava, mas o problema é que “as experiências estão deixando de ser comunicáveis”. “O conselho tecido na substância viva da existência tem nome: sabedoria. A arte de narrar está definhando porque a sabedoria está em extinção.”

Valor da informação

Para o autor, esse definhamento se deve à “evolução secular das forças produtivas”. O romance e o jornalismo, pontua, são forças produtivas. Benjamin dizia que o romance não “retira da experiência o que conta”, como faz a narrativa, e que o jornalismo é ainda “mais ameaçador” porque baseia-se na informação, que define como “um novo tipo de comunicação”. “Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por esse declínio. A informação só tem valor no momento em que é nova. Muito diferente é a narrativa: ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver.”

Benjamin também diferenciava a narrativa da literatura, que considerava “não uma obra de arte, mas um trabalho manual”, e apontava contrastes entre o cronista, aquele que narra uma história, e o historiador, aquele que escreve uma história: “O historiador é obrigado a explicar de uma ou outra maneira os episódios com que lida, e não pode contentar-se em representá-los como modelos da história do mundo, como o faz o cronista.”

Para o alemão, anarrativa é “uma forma artesanal de comunicação” e “o narrador figura entre os mestres e os sábios” porque “sabe dar conselhos não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio”. “O narrador pode recorrer ao acervo de toda uma vida: uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia.”

O jornalismo também pode recorrer ao acervo de uma vida, da própria experiência e da experiência alheia. Pena que é, na maioria das vezes, o contato é em toques.

Referência

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas, v. 1, São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 165-196

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Jeferson Bertolini é repórter e doutorando em Ciências Humanas

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