Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > OPERAÇÃO LAVA JATO

Fatos, ilações e militância política

Por Samuel Lima em 18/11/2014 na edição 825

A investigação de denúncias de corrupção envolvendo a Petrobras, batizada de Operação Lava Jato pela Polícia Federal, que começou em março deste ano, entra em sua sétima fase (“Juízo Final”?) produzindo uma cena inédita: a prisão dos poderosos empresários e executivos da construção civil. Para além do espetáculo midiático, estrategicamente pensado pelo juiz federal Sergio Moro e os insuspeitos (e imparciais) delegados da PF no Paraná, o aprofundamento dessa ação de Estado coloca em posições distintas os dois principais jornais impressos do país: O Estado de S. Paulo (OESP) e Folha de S. Paulo (FSP), edições de domingo, 16/11/2014.

Começo observando as opções da capa: o Estadão trouxe como manchete “Delatores falam em propina de R$ 200 milhões a partidos” (com linha fina: “Executivos relatam pagamentos a operadores do PT e do PMDB para atuar em obras da Petrobras”); a FSP fez opções por outra denúncia – “USP terá de reduzir 1.972 salários que superam teto” (na linha fina: “Decisão do STF impõe corte; professor aposentado recebe R$ 60 mil”). A Folha, no entanto, chama a investigação da Petrobras na capa: “Lava Jato não é ‘terceiro turno’, diz ministro da Justiça”.

A partir das escolhas de capa, os dois veículos percorrem caminhos muito distintos, do ponto de vista da informação e do Jornalismo. Na FSP, a excelente reportagem de Mauro Cesar Carvalho e Rubens Valente (“Ex-diretor forneceu roteiro das prisões dos empresários”) resgata a história acrescentando informações valiosas ao entendimento do leitor. “Na sétima fase da Operação Lava Jato, chamada Juízo Final, a Polícia Federal prendeu 23 pessoas, entre presidentes e diretores das empreiteiras OAS, UTC, Engevix, Queiroz Galvão, Iesa e Galvão Engenharia, que tinham contratos com a Petrobras. Os valores eram superfaturados para o pagamento de propina, dizem procuradores” (Fonte: http://migre.me/mTMzd).

O jornal publica ainda um infográfico (“O roteiro das prisões”) com o rol das empreiteiras, bem como a lista dos empresários presos ou com prisão decretada: Ricardo Pessoa (presidente da UTC Constran, preso), Márcio Faria e Rogério Araújo (da Odebrecht, busca e apreensão), Gerson Almada (vice-presidente da Engevix, preso), Sérgio Mendes (vice-presidente da Mendes Júnior, preso), Erton Fonseca (diretor-presidente da divisão de engenharia da Galvão, preso), Ildefonso Colares Filho (presidente da Queiroz Galvão, preso), João Auler (presidente do conselho da Camargo Corrêa, prisão decretada), Eduardo Leite (vice-presidente da Camargo Corrêa, preso) e Renato Duque (ex-diretor da Petrobras, preso). A narrativa é sóbria, sem poupar ninguém citado, mas sem ilações e/ou prejulgamentos. Não é pouca coisa: é inédito, na história do país, um caso de investigação que coloque corruptores na cadeia. Em geral, os empresários desonestos e corruptores escapam ilesos, tanto dos holofotes da mídia quanto, mui especialmente, do poder Judiciário.

“Prova documental”

Linha de frente do terceiro turno das eleições presidenciais, o Estadão sai do jornalismo para a militância política que mistura fatos, interpretações duvidosas e ilações. Começa defendendo em editorial o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, reeleita democrática e soberanamente. Sob o título “Crime de responsabilidade”, o jornal dos Mesquita faz um arrazoado precário sobre os fatos ainda em investigação e apuração pela PF e MP, e acusa: “Diante das surpreendentes proporções do esquema de corrupção armado dentro da maior estatal brasileira com o objetivo de carrear recursos para o PT e seus aliados, não surpreende que os dois presidentes da República no poder durante o período em que toda essa lambança foi praticada soubessem perfeitamente o que estava ocorrendo (…) Dilma Rousseff de tudo participou, como ministra de Minas e Energia e da Casa Civil e, depois, como presidente da República.” (Fonte: http://migre.me/mTOFO). E finaliza condenando – sem provas nem direito de defesa – os “inimigos”, não lhes restando nenhuma saída: “Devem, todos os envolvidos no escândalo, pagar pelo que fizeram – ou não fizeram”. Ora, se são culpados ou não, pouco importa ao tribunal midiático comandado pelos Mesquita.

O editorial, claro, será peça de leitura obrigatória da “oposição” sem bandeiras e comandada pela mídia monopolista, hoje e durante esta semana no plenário do Congresso Nacional. Trata-se de um desserviço à democracia e ao país. Porém, isso não tem a menor importância para os barões da mídia brasileira. Na reportagem de capa (página A4: “Delator diz que lobista do PMDB agia em nome de ex-diretor que bancou Pasadena”), o leitor encontra um “cozidão”, aquilo que no jargão jornalístico é a prática de requentar velhas informações e editá-las como se fossem novidades.

A reportagem de Ricardo Brandt e Fausto Macedo é ancorada no “disse-me-disse”, tipicamente declaratório, falas dos delatores e supostos operadores do esquema de corrupção. No “tijolaço” da página A4, o pobre leitor terá de persistir para saber qual a base das prisões decretadas de sexta para sábado (14 e 15/11). É atribuída a um incerto “relato de um delator”, mas qual? No entanto, a matéria destaca-se pela completa omissão de nomes das empreiteiras e dos empresários e executivos presos, exceto um deles: “O relato do delator deu base à sétima fase da Lava Jato, batizada de ‘Juízo Final’, deflagrada sexta-feira, quando a cúpula das maiores empreiteiras do País e o ex-diretor de Serviços e Engenharia da Petrobras, Renato Duque, indicado pelo PT, foram presos” (Fonte: http://migre.me/mTQil). A narrativa é uma peça de acusação, ancorada nas declarações e supostos depoimentos dos delatores Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef ao juiz federal Sergio Moro e delegados da PF, em Curitiba. A rigor, o nome das empresas só vai aparecer, secundariamente, na página A6, numa matéria sobre a Controladoria Geral da União (?).

Num emaranhado de fatos, denúncias de delatores ainda em fase de investigação e carente de provas documentais, é espantoso que um jornal da importância do Estadão adote esse tipo de atitude, que mistura militância político-ideológica, típico papel dos partidos políticos, com a irresponsabilidade presente nas publicações sensacionalistas que, avessas à prática da boa apuração, sobrevivem das informações off e fofocas, pura e simplesmente. Antecipando-se à conclusão da complexa investigação, que de forma inédita coloca o cartel das empreiteiras, simbolicamente, na cadeia, OESP acusa, julga e condena a presidenta reeleita, com base numa decisão do ex-presidente Lula, em 2010, liberando recursos (R$ 13 bilhões, em quatro contratos) para obras da Petrobras. Para o tradicional jornal paulista, “a prova documental da conivência” é o Diário Oficial da União (acredite se quiser), no qual o então presidente Lula publicara sua decisão de liberar esses recursos, contestados pelo Tribunal de Contas da União.

Prática antiga

Ao fazer sua opção pela candidatura Aécio Neves, no final do primeiro turno, o Estadão deixou transparente, de forma louvável a meu juízo, seu posicionamento político. Até então, nada indicava que iria contaminar seu conteúdo noticioso com essa posição editorial. A edição de domingo (16/11) não deixa margem de dúvidas. No entanto, isso não chega a ser surpresa. No final do segundo turno, em manifestação pública pró-Aécio realizada no Largo da Batata, em São Paulo, Fernão Lara Mesquita, membro do Conselho de Administração do jornal, foi flagrado carregando um cartaz onde se lia: “F…-se a Venezuela”. Não precisa de legenda integral…

Folha e Estadão indicam caminhos distintos que devem ser percorridos pela mídia brasileira na cobertura do caso Petrobras. A aposta pode ser o fortalecimento da democracia, com punição de corruptos e corruptores, com igual rigor. Ou a velha prática de “aos amigos tudo” (empreiteiros, no caso), “aos inimigos as penas da lei”, que realimenta a espiral histórica de impunidade que alimenta a endemia da corrupção, que precisa ser enfrentada com sólidas políticas de Estado, no curto, médio e longo prazos. A ver.

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Samuel Lima é Jornalista, professor-adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO) do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (UFSC) e do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS/UFSC)

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