Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > CREDIBILIDADE

Mentira e verdade na mídia

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 18/11/2014 na edição 825

Raul Seixas e Cláudio Roberto, em “Cowboy fora da lei” (1987), expressaram uma das críticas mais agudas e contundentes à mídia: “Eu não preciso ler jornais/ Mentir sozinho eu sou capaz”. Diante do público, os compositores em questão destacaram o afastamento do jornalismo enquanto meio de comunicação comprometido em compartilhar conteúdos de consciência. Compartilhar equivale a pôr à disposição do outro e dos outros o que se tem. Que outra coisa alguém poderia comunicar a outro a não ser as coisas como são? Melhor explica Eugênio Bucci, em Sobre ética e imprensa (2000), o papel da mídia como porta-voz da verdade:

“O jornalismo como o conhecemos, e como as democracias procuram preservá-lo, é uma vitória da ética, que buscava o bem comum para todos, que almejava a emancipação que pretendia construir a cidadania, que acreditava na verdade e nas leis justas – uma vitória contra a etiqueta.”

O alerta feito por Raul Seixas e Cláudio Roberto sobre a vertiginosa queda de credibilidade dos jornais faz parte de um conjunto legítimo de reivindicações sociais, exigindo que os meios de comunicação ajam com responsabilidade social e com consciência, que não abusem do poder de que estão investidos, que não se valham dele para destruir reputações e deformar a democracia. “Cowboy fora da lei” pode ser interpretada, desse modo, como um excelente ensaio sobre a comunicação e a “pseudocomunicação”. Faz parte de uma tradição reflexiva sobre os efeitos nocivos da mentira e da calúnia que disseminam o ódio e a destruição na humanidade. A falsidade nas palavras (a mentira) e a falsidade nas ações (a hipocrisia) infelizmente encontram terreno fértil em um tipo de jornalismo no qual as palavras são usadas para significar o que não está no pensamento, indo, assim, contra a natureza da comunicação humana. Raul Seixas e Cláudio Roberto alertam para a existência de uma dose considerável de “pseudocomunicação” nas relações mediadas pelos instrumentos de difusão.

O falseamento da verdade impede que a comunicação expressiva funcione como “vitamina homeostática”, segundo explica Gaudêncio Torquato em Novo manual de marketing político (2014). De maneira didática, Torquato explica que “os fluxos de comunicação descendente e ascendente funcionam como veias abertas que fazem o sangue correr para os lados, para cima e para baixo. Se uma veia estiver entupida, o organismo morre. A comunicação é o sistema de desentupimento de veias”. Reter informação, em contrapartida, significa não compartilhar o poder, ou seja, “prender a bola no meio do campo”, em bom futebolês. Divulgando a verdade, a comunicação é, para o sentimento e o intelecto humano, o que o metabolismo físico representa para os processos fisiológicos do corpo. Desse modo, a comunicação pode ser vista como um dos dois processos básicos de todos os sistemas vivos – a transformação do alimento em energia e a transformação dos fatos em informação.

Transparência informativa e opinativa

A comunicação é tão fundamental para o sistema vivo – indivíduo ou organização – como a ingestão e o consumo de “alimento” e “combustível” para movimentar sua maquinaria física e psicológica. E é mais do que isso: é o processo vital através do qual indivíduos e organizações se relacionam uns com os outros, influenciando-se mutuamente. Nesse âmbito, a verdade ocupa papel central como filtro crítico e fator de qualidade para uma melhor expressão dos sentidos. O material bruto a partir do qual são construídas nossas compreensões do mundo são os dados sensoriais. O mundo vem até nós sob a forma de fatos físicos que nosso equipamento sensorial traduz para fatos sensoriais. Consequentemente, o comportamento de um indivíduo baseia-se não na realidade, mas na realidade-como-é-compreendida por esse indivíduo. Por isso, é salutar compreender a verdade como pluralidade e a mentira como uniformidade, uma vez que nós falamos uns aos outros como se nos referíssemos à realidade em vez de às concepções que formamos a partir de várias realidades.

O jornalismo mente, portanto, quando silencia divergências para produzir consensos artificiais. Bem sintetizado este parecer se encontra nas palavras de Gaudêncio Torquato: “Bater num lado só do bumbo da comunicação é a equação da eficácia dos ditadores”. Não há nada mais tirânico do que encastelar a mídia como máquina de manipulação voltada para fazer cabeças. Esta concepção arcaica remonta à maneira pela qual os gregos explicavam o fenômeno da comunicação: o deus Mercúrio, com asas nos pés, arrancaria a ideia apropriada do cérebro do orador e a encaixaria, com a ponta de uma lança, no cérebro do ouvinte. Por incrível que pareça, não fizemos tanto progresso assim, em nossa compreensão do processo de comunicação humana.

A lavagem cerebral produzida pelos canais hegemônicos de comunicação considera os indivíduos como se fossem porcos não merecedores de pérolas, conforme reza a famosa passagem bíblica. A grande maioria das pérolas se encontra escondida nas ostras; agindo assim, os sistemas de comunicação funcionam autoritariamente como serviços secretos de inteligência e espionagem. A favor da transparência informativa e opinativa, a mídia deveria funcionar como livro aberto, promovendo leitores extraordinários a interferir na realidade de maneira cidadã e democrática. Afinal de contas, já advertia Cipriano Barata, em Sentinela da Liberdade (1823):

“Toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança e fortuna; se, pelo fato contrário, aquela sociedade ou povo que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro.”

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Marcos Fabrício Lopes da Silvaé jornalista, poeta,doutor em Estudos Literários e professor da Faculdade JK, no Distrito Federal

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