Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA DA POSSE

O substantivo e o adjetivo

Por Ângela Carrato em 06/01/2015 na edição 832

A futilidade de parte da mídia brasileira é algo impressionante. Se faltou cobertura de peso para a posse da presidente Dilma Rousseff, na quinta-feira (1/1), sobraram matérias superficiais, ênfases em detalhes sem qualquer importância e, sobretudo, textos e comentários transpirando um certo ar de fofoca e de deboche. Atitudes próprias de empresas e profissionais que ainda não engoliram a derrota do candidato que apoiaram.

Criticar os detalhes é típico de quem não dispõe de argumentos para questionar os aspectos substantivos, essenciais, de uma situação. Na posse de Dilma, na ótica desta mídia, o “adjetivo” eram as propostas e compromissos expressos em seu discurso. Um discurso emocionado e emocionante de 55 minutos, no qual fez um balanço dos avanços alcançados e delineou as linhas mestras que orientarão os seus próximos quatro anos de governo. Discurso que extrapolou os limites de mera formalidade protocolar, pois não deixou de dar uma resposta à oposição e à própria mídia brasileira que distorce os fatos, manipula as pessoas e esconde o que de positivo é feito pelo governo. O “substantivo” ficou por conta da roupa que ela usou, bem como as demais autoridades e convidados presentes.

Claro que no mundo inteiro existem publicações voltadas para fofocas, onde os famosos (“quem?”) desfilam seus modelitos, fazendo de tudo para aparecer. Essas publicações têm leitores e leitoras, em geral nouveaux riches e alpinistas sociais que, não raro, pagam caro pela visibilidade. Até aí, tudo bem. Paga quem pode. Lê quem quer. O problema é quando este tipo de notícia invade as publicações que se pretendem sérias e vira assunto de jornalistas/colunistas que igualmente se pretendem sérios.

“A cor é bonita, mas o andar…”

Todo mundo tem direito de gostar ou não gostar de determinada roupa, cor ou estilo. Mas já foi o tempo em que moda era sinônimo de ditadura e pagava com o fogo do inferno quem desafiasse as regras do “bem vestir”. Como assinala a consultora de moda e colunista do blog Estação Liberdade Márcia Mendonça, “se há algo que a moda vem assimilando muito bem na contemporaneidade é justamente a quebra de determinadas regras e tabus, e no caso da escolha da roupa, das cores, da maquiagem e dos acessórios, há espaço para muita inventividade e originalidade”.

A presidente Dilma não quebrou regra alguma ao escolher um conjunto de saia e blusa rendado, em tom nude (entre o rosa e o chá), confeccionado pela gaúcha Juliana Pereira para usar em sua posse. Se a mídia quisesse realmente informar sobre este aspecto, poderia ter registrado que renda e tons claros são adequados para o verão brasileiro – durante a cerimônia de posse os termômetros em Brasília marcavam 31 graus, com a sensação térmica, pela ausência de vento, chegando aos 40 graus. Poderia ter destacado, também, que a presidente optou por um modelo criado por uma estilista brasileira, ao contrário dos chiques de Caras, que sempre trajam modelitos designed by nomes do circuito Elizabeth Arden.

As colunistas Cora Rónai e Miriam Leitão, ao comentarem sobre a cerimônia de posse no Twitter, não pouparam críticas a Dilma e à sua roupa. “Fico impressionada com a deselegância do vestir, do andar, do jeito de ser”, afirmou Cora, referindo-se à presidente.

Já Miriam Leitão foi mais amena. “A cor nude é bonita, mas o andar…”

O colunista de humor do jornal Folha de S.Paulo José Simão seguiu a mesma linha, estimulando e estimulado por internautas “coxinhas” que fizeram montagens comparando a roupa da presidente a um botijão de gás. Especialistas em moda, como Glória Kalil e o blogueiro do site Ela Digital, Lula Rodrigues, aprovaram a escolha da presidente, concordando que ela estava não só elegante, à vontade, como se mostrou antenada com as tendências.

Além da arrogância, o que esses colunistas deixam nítido é que assimilaram e tentam vender como “bom, bonito e certo” um padrão estético muito ao gosto da elite brasileira. Padrão no qual ficam de fora os negros, os mais gordos, as pessoas (principalmente mulheres) da terceira idade e os portadores de quaisquer deficiências. Quem não se lembra dos comentários lamentáveis envolvendo a falta do dedo mínimo do ex-presidente Lula?

Em outras palavras, a autointitulada grande mídia brasileira é autoritária e reproduz padrões autoritários em praticamente tudo o que noticia. Da política à moda e vice-versa. Democracia, liberdade de escolha e diversidade são conceitos que ela e seus representantes desconhecem e deveriam urgentemente procurar aprender. Se é que terão tempo, pois estão sendo velozmente abandonados por leitores e telespectadores.

******

Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem