Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA GAÚCHA

A tesoura da RBS vai em frente

Por Luiz Cláudio Cunha em 13/01/2015 na edição 833

Reproduzido do Jornal JÁ (Porto Alegre, RS), 31/12/2014

A RBS – o maior grupo de mídia do sul do país, a 27ª empresa gaúcha no ranking dos Top 100, com oito jornais, oito emissoras de rádio e 18 de televisão espalhados pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina – suspendeu a rodada de demissões programada para o início de dezembro.

Até quem acredita em Papai Noel deve saber que o adiamento não é mero produto do espírito natalino que caracteriza a época. A lista de execuções que a família Sirotsky definiu a partir do duro plano de “reestruturação” do consultor Cláudio Galeazzi, conhecido no mercado como Galeazzi Mãos de Tesoura, previa a execução em dezembro de aproximadamente 200 postos de trabalho, na versão mais otimista da lista cifrada que circula pelo sexto andar do edifício-sede da RBS, em Porto Alegre (a versão mais pessimista degolava até 600 empregos em uma só tesourada). Mas, não foi apenas o tradicional saco de bondades do Bom Velhinho que travou, agora, a lista inoportuna do malvado Galeazzi.

O vazamento do corte iminente, revelado no site do (ver “Nova tesourada na RBS já tem data”) duas semanas antes do previsto, em uma sexta-feira, 21 de novembro, fez a RBS sustar a sangria planejada para a primeira sexta-feira de dezembro, dia 5. A notícia do causou espanto na casa dos Sirotsky: em poucas horas, o site do jornal registrou cerca de 18 mil visualizações, quase três vezes a multidão de 6.500 funcionários da RBS. Um número ainda maior – quase 45 mil acessos – navegou pelo site do para ler a matéria que revelou ainda em setembro passado o tamanho da crise e a identidade do GaleazziMãos de Tesoura que dá régua e compasso para a onda de demissões na empresa (ver “A tesoura que assombra a RBS”).

Outras avaliações, além da inconfidência do ,sustaram no ar a lâmina afiada da RBS. Além da repercussão negativa da degola iminente vazada na internet, a RBS se assustou com a reação inevitável na área legal. Na quinta-feira 4/12, véspera da demissão em massa, o Sindicato dos Jornalistas protocolou em Porto Alegre denúncia contra a RBS na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, vinculada ao Ministério do Trabalho. O presidente do sindicato, Milton Simon, explicou no ofício a razão da denúncia: “As situações de demissões imotivadas e terceirização do trabalho de jornalistas, que são coagidos a pedir desligamento da sua função e passam a prestar serviço como Pessoa Jurídica, prejudicando as relações trabalhistas”.

Simas esclareceu no site do sindicato: “O grupo tem promovido uma série de demissões em seus quadros desde o início do ano. Alguns colegas foram convencidos a se tornarem Pessoa Jurídica (PJ), mas seguem cumprindo jornada como se ainda fossem empregados. O sindicato não é contrário ao trabalho como pessoa jurídica, mas é contra o artifício utilizado pelas empresas para burlar os direitos trabalhistas e precarizar o trabalho do jornalista”.

“Fraudes trabalhistas”

Desde agosto passado, quando uma tesourada em massa decapitou 130 funcionários na RBS, o sindicato se movimenta junto ao braço legal que mais inquieta a família Sirotsky: o ativo Ministério Público do Trabalho. Os advogados da empresa sabem que tiro fatal virá da Área Temática 3 da legislação que trata, sem rodeios, de “Fraudes Trabalhistas”. A lei cita ali, no grupo temático 3.1, as “fraudes para descaracterizar a relação de emprego”. No subtema 3.1.6, sob o título “Desvirtuamento de Pessoa Jurídica”, a legislação praticamente repete as palavras do presidente do sindicato, ao definir em Nota Explicativa um dos problemas centrais da RBS pela ótica legal: “O desvirtuamento de Pessoa Jurídica é a conduta baseada na exigência de que os trabalhadores constituam uma pessoa jurídica (empresa) como condição para serem contratados”.

O presidente-executivo da RBS, Eduardo Sirotsky Melzer, 42 anos, mais conhecido como Duda, decidiu estancar o clima de pânico que ameaçava corroer a empresa, desta vez escolado pela desastrada ação de agosto passado, quando falou aos funcionários em videoconferência que misturava as estações e confundia mais do que explicava: negou a crise, pregou desapego, estimulou o investimento dos funcionários em portais de vinho e cerveja e antecipou em uma segunda-feira, sem dar nomes, a demissão de 130 funcionários que só faria 48 horas depois. Agora, para acalmar seu público interno, Duda voltou ao ar na terça-feira, 2 de dezembro, apenas três dias antes do temido massacre de sexta 5.

Durante quase uma hora, um Duda mais austero, menos brincalhão, mais formal, falou em uma videoconferência que teve um elevado Ibope nos monitores espalhados pelas 53 unidades que compõem a RBS – nas 34 da mídia tradicional, englobando jornais, rádios e TVs, nas 10 do braço digital plugado na e.Bricks e nas 9 do setor definido como “Outros Negócios”, onde se vende de tudo, desde classificados de empregos, carros e imóveis até a entrega de mercadorias, passando por gráfica de impressos e folhetos, cursos de educação executiva e promoção de eventos.

Duda começou pelo essencial, para pacificar os espíritos assombrados pela notícia do : “Não haverá demissão coletiva. A RBS fará contratações e alguns ajustes pontuais”. E, pela primeira vez, falou no nome do demônio: “Tivemos um ano muito difícil e, por isso, chamamos o consultor Cláudio Galeazzi”. Procurou justificar as dificuldades do grupo pela crise do setor: “Tivemos o mau desempenho que tiveram todas as empresas de comunicação. Fomos bem na Copa do Mundo e nas eleições de 2014, mas não tão bem no caixa”. E, com o cuidado de não falar em vinho ou cerveja, tentou vender otimismo: “Precisamos nos adequar. Estamos muito animados”.  

A superação de 1%

Quem não está muito animado são os funcionários da RBS. As boas ideias de estímulo e recompensa profissional criadas pela empresa, e que funcionavam nos bons tempos, não são nada estimulantes em tempos difíceis, como os confessados por Duda. O esperado PPR, Plano de Participação nos Resultados, chegava a agregar até três salários no final do ano – um pelo Grupo, outro pela Unidade e um terceiro pela Equipe. Em um ano “muito difícil”, como 2014 foi definido por Duda, é mais realista confiar no saco de Papai Noel do que nas burras da RBS. Existem versões conflitantes sobre o que vai acontecer com o plano de participação. Os cálculos financeiros mais otimistas, segundo alguns, previam um único PPR, este referente ao Grupo, e ainda assim sem completar um salário fechado. O índice estimado era de 43% de um salário apenas, para ser fechado em dezembro e pago em janeiro de 2015. Outros informam que os três salários de PPR usualmente pagos por Zero Hora e Diário Gaúcho vão cair pela metade, cerca de 1,5 salário. Dizem uns que o pagamento será em fevereiro, outros garantem que mudou para março. Na crise, nada é certo.

A RBS adotou, a partir de abril de 2012, um processo de avaliação individual de desempenho, o SuperAção 2.0, que segundo a empresa busca “um método claro e justo de avaliação para consolidar a cultura de alto desempenho e meritocracia”. No seu primeiro ano, 50,7% dos funcionários do grupo foram avaliados trimestralmente pelo método. As notas de superação vão de zero a cinco, mas os resultados atuais não deixam os funcionários entusiasmados. Em uma empresa onde mais da metade dos 6,5 mil empregados ganha menos de três salários mínimos, hoje valendo R$ 2.172, uma boa nota do SuperAção 2.0 pode representar um aumento de 1,1% no rendimento mensal – uma magra bolada de R$ 23,89, insuficientes para comprar na banca dez exemplares de Zero Hora (preço de capa: R$ 2,50).

Em 12 de dezembro passado, uma sexta-feira, Duda Sirotsky produziu um artigo para a Folha de S.Paulo, intitulado “O futuro a nós pertence” (ver aqui) e encharcado de otimismo: “Na era do ‘eu, mídia’, não há mais zona de conforto para a mídia”, escreveu o comandante da RBS, compartilhando a inquietude global onde jornal, revista, rádio e TV vivem, segundo ele, “transformações radicais, abruptas, disruptivas, desafiadoras”. Revelação de Duda Sirotsky:

Na RBS, também estamos inquietos e explorando as novas oportunidades. Depois de investigação global, que levou um ano para ser concluída e na qual foram entrevistadas mais de 150 personalidades, como Shane Smith, do site Vice News, Vint Cerf, um dos ‘pais’ da internet, e Ethan Zuckerman, do Centro de Mídia do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA), construímos premissas para nos guiar rumo à comunicação total.

Elas são baseadas em princípios e demandas do nosso tempo, como autenticidade, credibilidade, transparência, legitimidade, curadoria, relevância, interação, abertura, disponibilidade, compromisso, propósito, intuição e conveniência.

Contrariando o sentido da fala infeliz de agosto passado, quando manteve um eloquente silêncio em relação a termos como “jornalismo” e “jornalistas”, Duda agora caprichou na forma e na ênfase de sua conversão no artigo para a Folha: “Na nossa visão, não há futuro sem jornalismo e não há jornalismo sem jornalistas, fundamentais na era da informação”.

O amarelão da RBS

É um belo discurso, que os fatos teimam em contrariar. Os números do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul mostram que, no futuro imediato da RBS, o jornalismo da casa tem menos jornalistas, apesar de “fundamentais na era da informação”. A impressão dominante de que a RBS trocou as demissões em massa por demissões a conta-gotas é confirmada pelo quadro consolidado das rescisões de contrato firmadas, por obrigação legal, junto à representação sindical da categoria. Uma planilha Excel cedida pelo Sindicato ao mostra que, entre janeiro e novembro de 2014, foram consumadas 233 rescisões de jornalistas em Porto Alegre – 91 delas executadas apenas no âmbito da RBS.

Apesar da crença de Duda Sirotsky de que não há futuro sem jornalismo e não há jornalismo sem jornalistas, o grupo que ele dirige é responsável por 39% das demissões, quatro em cada 10 profissionais no Rio Grande do Sul só em 2014. Atesourada mais forte atingiu a Zero Hora, onde 53 pessoas perderam o emprego, quase 60% das 91 demissões do grupo. A segunda maior vítima foi a área de TV, onde 34 funcionários (mais de 37%) foram decapitados. A primeira execução do ano na RBS veio de lá, da TV Gaúcha POA, em 2 de janeiro, quando Hector Guevara Werlang saiu, tendo como causa de afastamento um “pedido de demissão”. Ainda segundo a tabela já defasada do sindicato, a última execução data de 14 de novembro e atingiu o festejado diretor de arte da Zero Hora, Luiz Adolfo Lino de Souza, identificado como “despedido sem justa causa”.

A grande maioria dos nomes afastados não tem justa causa, mas mesmo os pedidos de demissão, segundo o Sindicato, não indicam uma opção voluntária, mas uma imposição negociada para transformar antigos funcionários, de salários mais altos, em pessoas jurídicas, os PJs – praga que sugere “o artifício utilizado para burlar os direitos trabalhistas e precarizar o trabalho do jornalista”, conforme a denúncia feita ao Ministério Público do Trabalho.

A hegemonia da RBS no quadro de demissões de jornalistas no Rio Grande do Sul pode ser percebida visualmente pela marcação, em amarelo, dos nomes tesourados na empresa em 2014, segundo a planilha do sindicato fornecida ao . Os nomes sem cor representam empresas menores e casos mais isolados, como Caldas Júnior, rádio e TV Guaíba, Grupo Pampa, Jornal do Comércio, Grupo Sinos, Fundação Cultural Piratini (TVE), sindicatos ou pequenas empresas de mídia empresarial. O amarelão da RBS se vê abaixo:

À beira de um ataque

Os problemas que azucrinam a vida da RBS no Rio Grande do Sul cruzaram o rio Pelotas e contaminam também a RBS de Santa Catarina, onde a empresa possui 15 empresas de mídia tradicional. São cinco jornais (Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina, A Notícia, Jornal de Santa Catarina eO Sol Diário), oito rádios (CBN, Itapema FM em Florianópolis e Joinville, Atlântida FM em Criciúma, Chapecó, Blumenau, Joinville e Florianópolis) e duas TVs (RBS e TVCOM).

Só em Florianópolis, entre a tesourada de agosto e o final de novembro, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina contabiliza 18 demissões na RBS. No período, outras nove demissões ocorreram no interior, entre Joinville, Blumenau e Lages. No início de dezembro, o time inteiro da sucursal de Lages do Diário Catarinense ganhou cartão vermelho: 11 funcionários, incluindo a faxineira, o motorista, a telefonista e quatro jornalistas. Um diretor sindical lembrou ao : “Ontem [quarta-feira, 3 de dezembro], homologamos a demissão traumática de uma funcionária da RBS com oito anos e meio de casa. Ela chegou ao sindicato à beira de um ataque de nervos. O marido, também funcionário da RBS, fora demitido semanas antes. A família está desamparada…”

O departamento jurídico do sindicato catarinense, como faz sua contraparte gaúcha, está entrando com reclamatórias trabalhistas na Delegacia Regional do Trabalho e junto ao Ministério do Trabalho, exigindo que a RBS pague aos demitidos a participação nos lucros proporcional aos meses em que trabalharam lá ajudando a empresa a lucrar. O relato do Sindicato de SC ao é assustador:

Vários casos de homologação rescisória beiram o estelionato e estamos recomendando aos nossos sindicalizados o caminho da justiça. A RBS usa critérios diferentes para situações iguais, premiando seus escolhidos com vantagens que negam a outros. Alguns jornalistas demitidos podem ficar sem o seguro médico, enquanto outros o recebem. A empresa submete os jornalistas demitidos a negociações individuais, pagando uns de um jeito e outros de outro. Parece coisa sem importância, mas é bem pensada: divide os coleguinhas entre os que nada têm a reclamar e os que ficam falando sozinhos, carimbados como loucos, reclamões, os que pra quem nada serve.

O truque mais velho da RBS é o de não pagar o INPC na data-base de 1º de maio, assim ganhando dinheiro simplesmente com o atraso dos pagamentos devidos. A jogada é simples: a RBS leva 10 meses para pagar, alegando que é o sindicato que complica as negociações. Dizem ser ‘extorsiva’ a cláusula em que pedimos, por exemplo, o aumento do vale-refeição de R$ 10 para R$ 12. Com base nisso, ficam meses sem voltar à mesa de negociação, querendo forçar o sindicato a implorar de joelhos a retomada desse estranho ‘diálogo’. Se voltamos à mesa, temos que nos sujeitar apenas à oferta de R$ 2 de aumento ‘extorsivo’. Se não voltamos, ficamos mal vistos pela categoria.

Aí, mansamente, no final do ano, antes que a briga pelo aumento vá aos tribunais, a RBS abre o cofre e paga o devido. Nesse longo tempo de impasse, a empresa fica com o dinheiro rendendo. É possível estimar o que eles ganharam, em 2014, a partir dos 200 empregados que possuem em Santa Catarina. Pelo INPC e aumento real, cada funcionário teria direito a R$ 150 por mês de aumento cada um, multiplicado por 10 meses, que é o tempo básico de espera. Multiplicado pelo número de empresas e empregados que a RBS tem aqui, isso passa de R$ 1 milhão. Depois de esperarmos desde maio, a RBS anunciou em novembro que pagaria o aumento devido na folha de dezembro.

Outra esperteza identificada pelo sindicato catarinense é a invenção de um cargo nas redações da RBS chamado de “assistente de conteúdo”. É uma espécie de limbo, desconhecido na lei trabalhista, que flutua entre o inferno do “estagiário” e o purgatório da “Pessoa Jurídica”. O sindicato está ouvindo sigilosamente o depoimento de alguns deles, que carregam todas as obrigações e nenhum direito de um funcionário legalizado. São estudantes de jornalismo, ainda não formados, que adentram o paraíso da redação assumindo de forma consciente os riscos da clandestinidade legal: “A gente trabalha oito horas ou mais na redação, faz todo o serviço de um repórter, apura e escreve, sem o direito de assinar a matéria. Fazemos tudo o que nos exigem, sem poder exigir nada em troca. Basta o ‘privilégio’ de estar lá dentro da redação, na condição de um subempregado, ganhando menos de R$ 1 mil. Mas, quem vai reclamar? Todo mundo espera uma chance melhor no futuro, mesmo sendo na RBS…”, contou ao um dos assustados “assistentes de conteúdo” de Santa Catarina. 

O ombudsman sob vigilância

Por incrível que pareça, existe uma maneira de frequentar de forma bem-humorada o circo de horrores da RBS. Basta acessar, como fazem reservadamente todo dia os funcionários da casa, o Blog do Prévidi (previdi.blogspot.com.br), que o jornalista José Luiz Prévidi, 60 anos, sustenta há 12 anos sob um lema inspirador: “Jornalismo de opinião com bom humor”. Carioca de Copacabana, trocou em 1966 a praia do Rio em definitivo pela rua da Praia de Porto Alegre, passando pelas principais redações da capital: Diário de Notícias, Correio do Povo e Zero Hora, onde atuou por três anos na editoria de Política. Sempre bem humorado e ferino (“Sou torcedor do Botafogo, no Rio, e do Internacional, aqui. Mas sem fanatismos”), Prévidi tornou-se uma espécie de ombudsmanvirtual da RBS, registrando com um prazer incontido as derrapadas e mazelas deste annus horribilis do grupo dos Sirotsky, recortado pela figura de Galeazzi Mãos de Tesoura.

Que ninguém despreze o poder corrosivo de Prévidi e suas notas ácidas. No ano passado, o seu blog registrou uma média de 800 mil acessos mensais, totalizando quase 9 milhões de visitas, a partir de 38 países. Um número que deve ser creditado, em boa parte, ao alvo central de suas notas, a própria RBS, que ele mesmo ironizou em um registro de 2 de dezembro passado:

Ponto da Idiotice

Os comedores de sucrilhos orgânico com nescauzinho, os tais ‘executivos’ do Grupo RBS, tomaram uma decisão do mais alto nível!

Brilhantes como sempre, mandaram monitorar pela TI (Tecnologia de Informação) todos os funcionários que acessam o Blog do Prévidi. Como diz a minha ‘informante’, a medida é para ficarem com medo e não acessarem. Genial! Terão que proibir que os funcionários trabalhem com celular.

Foi no blog do Prévidi que se soube, na quinta, 4 de dezembro, que seriam extintos todos os planos de saúde, incluindo Golden Cross e Unimed, que a RBS concedia como benefício aos seus funcionários. “Todos serão atendidos agora pelo CAF, que é um SUS melhorado. E os ‘colaboradores’ ainda vão colaborar com descontos em folha de uma parte do valor da consulta”, complementou Prévidi, nomeando o diretor que deu a notícia: Deli Matsuo, o vice-presidente de Gestão e Pessoas do Grupo RBS, apesar de sua formação em engenharia elétrica e tecnologia de informação.

Na terça, 9 de dezembro, Prévidi deu outra triste notícia sobre a Zero Hora, que os leitores da Zero Hora nunca podem ler no jornal: a demissão de Bete Duarte, funcionária da RBS nos últimos 35 anos e editora há 15 anos do caderno de Gastronomia de ZH.

A ironia sem graça do marketing

A fase da RBS, de fato, não é boa. No início de dezembro, 48 horas antes do massacre previsto para o dia 5, o grupo lançou uma massiva campanha de incentivo, com filmes nas suas emissoras de TV, spots nas rádios e páginas nos jornais. Os filmetes, produzidos pela agência Dez Propaganda, mostram momentos decisivos na vida dos personagens, quando estão prestes a fazer escolhas importantes, como comprar um imóvel, pedir a namorada em casamento ou saltar de paraquedas. Tudo isso ao som de “Vida”, a música composta em 1985 por Ricardo Garay e Carlos Ludwig atendendo a um pedido de Maurício Sirotsky Sobrinho, o fundador do grupo, e que se tornou o hino oficial das festas de fim de ano da RBS.

A diretora de Marketing e Comunicação do grupo, Anik Suzuki, definiu a ideia que estava por trás da campanha: “Queríamos uma mensagem de recomeço, de nova chance, algo que fizesse bem às pessoas. Que provocasse nelas entusiasmo, otimismo, senso de urgência e coragem para realizar seus projetos, planos e sonhos”. São belas intenções, mas mortamente comprometidas pelo título infeliz escolhido para definir a campanha: “Vá em Frente”. Com direito ao hashtag #2015VáEmFrente.

Para uma empresa traumatizada pelo fantasma da crise, pelo sobressalto das demissões e pela espera angustiante da próxima tesourada da “reestruturação” de Cláudio Galeazzi, o conceito do “Vá em Frente” soa como uma cruel ironia fora de hora ou uma piada sem graça. Nada provoca mais entusiasmo, otimismo, senso de urgência e coragem para realizar projetos e sonhos do que preservar empregos e salários – valores em crise profunda para os minguantes 6.500 funcionários da RBS.

Uma das peças da campanha mostra uma criança saltando nas águas serenas de 2015. Outra peça conclama: “Não importa qual o seu objetivo, seu sonho, seus planos: vá em frente. Faça acontecer. Você quer estimular alguém a tomar uma decisão importante? Quer dar aquele empurrãozinho que falta?” Para realçar a ideia, sob a trilha sonora de “Vida”, aparece alguém saltando de um avião, ainda sem o paraquedas aberto. Nada define melhor, hoje, o sentimento dos aflitos empregados da RBS, que temem o “empurrãozinho que falta” e o mergulho sem paraquedas no espaço vazio do desemprego, em um território inóspito como o desanimador mercado de trabalho para jornalistas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Vendendo jornal velho

A crise existencial da RBS não é percebida pelo autismo do grupo, que vende de forma obsessiva sua falsa modernidade, mas pode ser entendida pela reflexão de quem avalia o cenário com precisão longe das páginas de Zero Hora. O jornalista Tiago Lobo, formado pela PUC gaúcha, é editor da revista digital Pensamento,que se define como “uma revista de reportagens para fazer pensar”. Com a visão certeira e o faro agudo de repórter, Lobo acaba de publicar um artigo no Observatório da Imprensa (ver “O jornal e a utopia metropolitana“)sobre o jornal dos Sirotsky, onde diz:

Zero Hora dá aula de como cavar a própria vala. Suja, rasa, sem lápide, para ser enterrada como indigente. E só eles, enquanto negociam vinhos, pirulitos e “negócios digitais”, não se dão conta do que perdem. Independente dos motivos, grandes nomes que faziam valer a leitura daquelas páginas mal acabadas foram seguindo seu rumo. Altair Nobre, Alexandre Bach, Chico Amorim, Carlos Wagner, Luiz Adolfo e tantos outros jornalistas competentes que foram saindo ou sofreram a degola das tesouras da RBS, para falar só dos jornais impressos do grupo.

ZH virou um playground com linha editorial remendada, dentro de um segmento de público-alvo que não consegue atingir: o jovem. E nem vai.

Diário Gaúcho, subestimado, alvo de preconceitos pelo seu suposto populismo, atropelou a carne nobre dos impressos da RBS. Mas o seu projeto tem prazo de validade e está vencendo. E assim como a Folha de S.Paulo é incorrigível dentro dos seus modismos editoriais, Zero Hora também o é.

Agora resolveu que o jovem vai salvar o seu negócio. No entanto, sua reforma (apressada, atrapalhada e que causou confusões dentro do departamento de diagramação) é um tiro no pé feito dentro de uma sala escura, já que muda a forma de o jornal se relacionar com o seu leitor de uma hora para a outra, indo do clássico ao desarranjo contemporâneo e caótico sem avisar. […]

Jornais de verdade levam, em média, 10 anos para implantar uma mudança gráfica e de linha editorial radical. Isso é feito de conta-gotas. O motivo? Simples: respeitar a experiência de leitura do público e ir aperfeiçoando detalhes despercebidos durante o processo. Mas Zero Hora trabalha com o conceito mais estúpido do mundo, em se tratando de papel: tudo é beta e para ontem. Tudo pode mudar, até amanhã. Se não der certo, não tem problema: era beta, mesmo. E deixam isso claro com seu slogan “papel, digital, o que vier”. Mas se esquecem de que sequer estarão de pé para encarar “o que vier” se continuarem a desconstruir o jornalismo que alegam fazer.

O jornalista de Pensamento define o que está embutido no novo logotipo de Zero Hora, criação do último demitido na planilha do sindicato, o editor de arte Luiz Adolfo Lino de Souza. Colaram ali um lema que traduz a pressa e a urgência que parece assoberbar a RBS: “Papel. Digital. O que vier”. Uma declaração de propósito que, mais do que arrojo, exibe um frenesi para traçar o que vier, seja o que for, sem método ou estratégia. É como se a RBS fosse montada pela crise, em vez de cavalgá-la.

O implacável Blog do Prévidi garimpou outra preciosidade, que demonstra o surto de ideias infelizes que atropela o bom senso na RBS. Um pequeno anúncio, que serve como calhau, anuncia aos leitores de Zero Hora que “você pode resgatar o que já foi notícia”. E avisa que jornais antigos estão à venda no arquivo de ZH, de segunda a sexta-feira, no bairro São João. É bizarro que, diante da crise global para vender jornais do dia, a RBS faça um esforço para vender jornal velho, imprestável até para embrulhar peixe. Em um mundo conectado pela urgência da mídia digital, que tudo informa em bytes e pixels medidos em segundos, é válido perguntar quem poderia se interessar por jornais velhos, antigos, de edições remotas, amareladas pelo tempo, desbotadas na memória.

O líder perde a liderança em casa

Mais do que vender jornal velho, Zero Hora deveria se preocupar em vender jornal novo, a cada dia. Não é o que está acontecendo. O IVC (Instituto Verificador de Circulação) mostra que, entre janeiro e setembro, a ZH perdeu 6,34% de sua circulação diária, caindo de 181.772 para 170.243 exemplares. A queda só não foi maior do que a de seu concorrente, Correio do Povo, que despencou 12,67% no período, caindo de 134.998 para 117.891 exemplares diários.

O vexame maior é que ZH perdeu o título de maior jornal do Estado para um imprevisto concorrente da própria casa, cedendo a liderança para seu primo pobre, o Diário Gaúcho, que cresceu 23,19% nos nove primeiros meses de 2014. Vendia 150.214 exemplares diários em janeiro e, em setembro, subiu para 185.055 exemplares. É o jornal popular da RBS, dedicado às classes C, D e E, com uma linha editorial vulgar que privilegia notas policiais, futebol, fofocas da TV e fotos na capa de mulheres com pouca roupa e muitas curvas. O jornal, além dos vales que publica para serem trocados por panelas, copos, talheres, assadeira de bolo, livros de culinária e outras bugigangas domésticas, tem como atração o preço baixo de capa: 75 centavos, três vezes menos do que os R$ 2,50 de Zero Hora.

A vertiginosa ascensão do Diário Gaúcho, apesar da tesourada que reduziu sua redação de 20 para 12 jornalistas, lança dúvidas tenebrosas sobre a saúde dos empregos em Zero Hora. Afinal, a dura política de cortes de Galeazzi no jornal popular da empresa fez subir sua rentabilidade, com maior tiragem e menores custos, ao contrário do que acontece no jornal-líder do grupo, menos rentável, com menor circulação e custos elevados.

As demissões em massa foram transformadas em degolas pontuais, que persistem e não cessam, embora chamem menos atenção. Com a perspectiva do tempo, como se vê no amarelão da planilha do sindicato, é possível constatar que a estratégia de cortes de Galeazzi continua firme e forte. A navalhada massiva de dezembro foi substituída pela tesourada gradual, que deve se prolongar pelo primeiro semestre de 2015, conforme confidências vazadas por executivos da RBS. A lista de meta de demissões na gaveta da diretoria continua oscilando entre 200 e 600 funcionários, nos termos do rígido plano de “reestruturação” estabelecido pelo Mãos de Tesoura e não revogado por Duda Sirotsky. É bom lembrar que, em julho de 2015, vence o prazo de dois anos que Cláudio Galeazzi se impôs para trabalhar no recorte de gastos da RBS. Ele sai, em meados do ano, mas fica na empresa sua doutrina de implacável austeridade. A sensação permanente de perigo está eternizada no selfie da crise, o autorretrato da redação de Zero Hora, onde muitos sorriem, outros tantos não, todos apreensivos com o que veio no Ano Velho e com o que virá no Novo Ano.

Afinal, Cláudio Galeazzi sai da RBS e vai em frente. E a tesoura que fica, também.

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Luiz Cláudio Cunha é jornalista

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