Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / FERNANDO RODRIGUES

Por que o repórter não revela os nomes do Swissleaks?

Por João Paulo Charleaux em 10/03/2015 na edição 841
Reproduzido do Vice, 5/3/2015; título original “Por que Fernando Rodrigues não revela os nomes do Swissleaks?”

Fernando Rodrigues é o único brasileiro que tem acesso aos registros do Swissleaks, o maior vazamento de informações na história dos bancos suíços. Mais de 106 mil investidores enviaram quase R$ 300 bilhões para o HSBC em Genebra, numa teia de evasão de divisas e sonegação de impostos que faria Al Capone corar. O valor se refere ao saldo das contas em 2006/2007.

Nesse bolo, apareceram mais de R$ 20 bilhões originários de 8.667 contas vinculadas ao Brasil. Apenas 3% dos donos destas contas foram revelados. O restante ainda está nos arquivos de Rodrigues. A relutância em escancarar a lista toda lançou sobre o experiente jornalista do UOL e ex-colunista da Folha de S. Paulo, de 51 anos, duros questionamentos. O que está por trás da demora em mostrar quem são os “empresários, banqueiros, artistas, esportistas e intelectuais”, representantes de “uma parte considerável da elite brasileira” que têm seus nomes na lista do HSBC?

Em pelo menos um ponto o Swissleaks já se cruzou com a Operação Lava Jato. O jornalista revelou que 11 membros da família Queiroz Galvão, dona da empreiteira homônima investigada por corrupção, formação de cartel e frustração de licitação aparecem nos registros do HSBC. A família nega que as remessas tenham sido sonegadas ao fisco. Essa pequena amostra dá uma ideia do poder explosivo que a lista toda pode ter. Em revelação paralela, emergiram 31 nomes de pessoas ligadas a empresas que exploram concessões de ônibus intermunicipais no Rio de Janeiro.

O problema em divulgar mais nomes é que não há nada na lei que proíba um brasileiro de colocar seu dinheiro em bancos no exterior. O crime ocorre quando as remessas não são declaradas à Receita Federal. O cruzamento entre correntistas do HSBC de Genebra e sonegadores de impostos aqui no Brasil só pode ser feito, no entanto, pelo governo brasileiro, que, segundo o jornalista, não move um dedo sequer, por “desídia, preguiça e talvez má-fé”.

Rodrigues teve acesso exclusivo aos dados porque é membro do ICIJ (International Consortium of Investigative Journalism), um clube de repórteres investigativos com seletos membros espalhados pelo mundo que se dedicam a destrinchar de maneira colaborativa pautas de interesse público que requerem longas e complexas jornadas de apuração.

A VICE encontrou o repórter num hotel de São Paulo para saber porque os elos brasileiros dessa cadeia não vêm a público de uma vez. Rodrigues vestia calça e camisa negras, e estava sentado na frente de uma parede negra também. Sobre o tampo negro de uma mesa negra, repousavam dois aparelhos celulares. Um deles só funciona com chips pré-pagos, descartados regularmente cada vez que o repórter usa o aparelho para conversar com fontes do Swissleaks. A estratégia visa a driblar grampos.

Discreto, prudente e interessado em explicar as minúcias do caso, Rodrigues falou com empolgação sobre o trabalho em curso, demonstrando segurança no manejo das informações e excitação com o que pretende revelar nos próximos dias.

Você tem uma lista de aproximadamente 6.600 contas, 8.667 clientes e mais de R$ 20 bilhões em depósitos, contando apenas o lado brasileiro da história. Quando o público saberá quanta picaretagem existe de fato no meio dessa numeralha toda?

Fernando Rodrigues – É muito difícil dizer com precisão se algum dia nós saberemos todas as picaretagens que possam ter sido cometidas por esses correntistas do HSBC na Suíça, inclusive os do Brasil. A razão é a seguinte: a parte jornalística da apuração tem limites fixados pela lei. Os jornalistas podem ir até onde o ofício permite. A partir daí, a outra parte sempre terá de ser apurada pelos órgãos de controle do governo. Quais dessas contas foram declaradas à Receita Federal do Brasil? Ninguém tem resposta a essa pergunta, com exceção do governo. O governo é quem tem os meios para pesquisar.

Há empresários de meios de comunicação na lista?

F.R. – Eu não posso te falar sobre nenhum dos empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais que estão na lista. Senão, você vai começar a me perguntar por nomes. Então, prefiro não dizer. Agora, numa lista de quase nove mil clientes, você pode imaginar que uma parte considerável da elite brasileira esteja nela.

E é difícil imaginar que entre uma parte considerável da elite brasileira não haja empresários de meios de comunicação.

F.R. – Conversei com o ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel. Pedi que ele especulasse o seguinte: o senhor acha que existe uma razão para alguém do Brasil ter uma conta numerada, sem que apareça o nome, na Suíça, para depois declarar essa conta no Imposto de Renda? ‘Seria um situação muito inusitada. Ter uma conta numerada na Suíça é um indício muito grande, justifica a abertura de uma investigação’, ele respondeu. Eu não posso afirmar de maneira peremptória, mas posso suspeitar que a maioria abriu uma conta na Suíça para não declarar ao fisco brasileiro. Essas pessoas podem ter cometido um crime.

Por que você divulgou alguns nomes e outros não?

F.R. – Porque há interesse público. Digamos que o José da Silva, que mora na Capela do Socorro, não ocupa cargo público, não é dono de concessão de ônibus, e tem US$ 50 mil, digamos.

Claro, mas você mesmo disse que é a elite que está lá. O José da Silva não vai estar lá.

F.R. – Mas eu não trabalho para fazer reportagem sobre a elite, trabalho para fazer reportagem que tenha interesse jornalístico. Então, se eu puder provar que José da Silva não pagou Imposto de Renda, aí tem interesse público.

Se ele for financiador de campanha, há um interesse público. E se ele é empreiteiro, provavelmente ele é financiador de campanha.

F.R. – Exato. É empreiteiro? Tem obra pública? Tem expressão nacional? Se não, por que eu vou ligar para o José da Silva? Ela não vai falar, porque é um assunto privado. E de fato é. Digamos que ele seja o único dos nove mil que pagou Imposto de Renda. Pelo resto da vida esse desgraçado vai ser chamado de ‘José da Silva, aquele que tem conta na Suíça’. E eu serei o responsável, não os professores de jornalismo que querem que eu divulgue o nome do José da Silva de forma indiscriminada e irresponsável. Eu não vou fazer isso.

Qualquer político que esteja na lista caracteriza uma informação de interesse público. Logo, se você não publicou o nome de nenhum político em particular, significa que não há nenhum político na lista, certo? 

F.R. – Por que eu divulguei primeiro as 11 pessoas ligadas à Lava Jato? Porque é o assunto que as pessoas estão vendo mais. É um critério jornalístico. Se eu achar mais, eu vou divulgar.

Não estão Renan Calheiros nem Eduardo Cunha na lista?

F.R. – Se tivesse um presidente ou ex-presidente da República, esse nome já teria sido publicado.

Ou o presidente do Congresso e o presidente da Câmara.

F.R. – É. Eu não vou falar que tem ou não tem, mas você acha que, se tivesse, eu teria publicado já?

Sim.

F.R. – É uma boa inferência.

O que está em debate nesse caso é a qualidade ética do jornalismo feito hoje no Brasil?

F.R. – O Brasil é um país infantilizado no qual a maioria das discussões são quase sempre rasteiras, epidérmicas e inúteis. Então, acho que não. Ninguém tem vontade de discutir isso com seriedade.

Sua apuração tem um padrão ético superior à apuração do caso Wikileaks?

F.R. – Depende. Eu tive acesso ao material do Wikileaks no Brasil e não publiquei nada sem checar antes, sem ligar, entender, contextualizar, apurar. Então depende de quem publica.

Você não acha que em casos similares a imprensa foi menos criteriosa na divulgação de nomes de suspeitos do que você tem sido agora?

F.R. – Cite uma que me envolva.

Não estou falando que você tenha sido menos criterioso no passado.

F.R. – Então eu acho que a sua observação é generalista.

Bom, o Lava Jato é um exemplo.

F.R. – Não existe ‘a mídia’. É como falar ‘o mercado’. Quem publicou? Eu acho, por exemplo, que a cobertura que parte da mídia vem dando à Operação Lava Jato é correta. As pessoas vão lá, em juízo, e prestam um depoimento, esse depoimento tem valor de notícia, tem interesse público. É mentira? Verdade? Não sei, mas a mídia não vai divulgar? Alguns professores de jornalismo questionam ‘vai divulgar uma delação premiada?’. Eu digo, ‘ora, vai esconder uma delação premiada?’

O problema não é esconder ou não uma delação premiada, mas não publicar o nome de pessoas que possam estar na lista do HSBC e, ao mesmo tempo, na Operação Lava Jato, por exemplo.

F.R. – Eu respondo por mim. Tudo o que eu estou fazendo está de acordo com as regras do bom jornalismo. Nas próximas semanas, publicarei muitos nomes. No Lava Jato é completamente diferente. Nela, a Justiça Federal, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal estão muito à frente. Os agentes públicos entraram na história muito antes dos jornalistas. No HSBC, os jornalistas entraram antes dos agentes. A ordem das coisas altera o produto. São coisas completamente diferentes. Comparar banana com laranja está errado. Tentei estabelecer uma colaboração em nome do bom jornalismo e do interesse público com agentes do Estado que poderiam colaborar na investigação do Swissleaks. Fiz isso de boa fé, fazendo bom jornalismo e fazendo propostas absolutamente legítimas para estes agentes que foram protagonistas de desídia, preguiça e talvez má-fé. Essa minha tentativa foi um fracasso. Eu fracassei. Quem perdeu mais foi o Estado por ter maus funcionários, mal preparados e talvez desleais e criminosos.

Você se sente injustiçado, pensando em tudo o que você fez como repórter, nos casos que você revelou, nos casos semelhantes de corrupção do passado? 

F.R. – Não. Isso sempre teve. O Brasil é um país muito caipira, subdesenvolvido e atrasado.

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João Paulo Charleaux é jornalista

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