Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA PARAENSE

Jornalismo sensacionalista

Por Lúcio Flávio Pinto em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido do blog do autor

A primeira página da edição de hoje [quinta, 19/3] do caderno de polícia do Diário do Pará é chocante, mesmo para quem já se acostumou ao seu padrão de sensacionalismo. Traz cinco fotografias de pessoas assassinadas, um número até rotineiro no tabloide. Só que as duas fotos da capa não têm mais a tarja eletrônica, que protegia as feições dos mortos. Em close, na imagem de uma mulher assassinada aparece com nitidez a perfuração de uma facada no rosto e outra na orelha, com os efeitos devastadores dos golpes. A dose é reprisada em página dupla dentro do caderno.

O jornal pode argumentar que essa exibição de cadáveres é uma forma de estarrecer a população e alertá-la para a gravidade da onda de criminalidade. Em cinco anos, foram registrados quase 16 mil assassinatos no Pará. Dá média superior a 10 mortes por dia. Só nos dois primeiros meses deste ano foram 638 assassinatos, além de quase 20 mil roubos e furtos.

A alegação, no entanto, é sofismática. Ao abrir suas páginas para os “presuntos”, o que o Diário quer é vender jornal e não ajudar a combater a violência crescente em Belém e no Pará. Está é tirando proveito do lado patológico da situação. Se quisesse contribuir realmente para o bem público, devia melhorar a qualidade da cobertura dos fatos policiais, com informações precisas e completas, procurando o lado humano dessas ocorrências nefastas.

Cadáveres impressos

Registre-se: a edição de ontem [sábado, 21/3] do caderno de polícia do Diário do Pará voltou a aplicar a tarja eletrônica nas fotos de cadáveres. No número anterior, o jornal deu um passo a mais no sensacionalismo, exibindo o rosto dos assassinados. Infringiu assim um acordo na justiça para poupar os leitores dessa exibição macabra. Na edição de sábado foram publicados quatro “presuntos”. Na de hoje, seis. Em ambas, dois cadáveres na primeira página.

A continuar assim, seria melhor que a editoria de polícia do jornal da família Barbalho fosse instalada no Instituto Médico Legal.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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