Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A bola da vez é ir além do gol

Por Regiane Santos em 21/07/2009 na edição 547

Frente à atual crise de identidade editorial que reduz drasticamente a vendagem de jornais, as redações, através de iniciativas ainda tímidas, instituem areengenharia de seus processos produtivos para elevar, novamente, a venda de exemplares.


Os impressos, que ‘com raras exceções, são tediosos, chatos, sem profundidade, não acrescentam, não explicam’ (CARVALHO, Ruy Quadros de; RIGHITTI, Sabine), encaram o ousado desafio de reportar fatos sem tornar-se ‘uma repetição da notícia que todo mundo já sabe’ (CARVALHO, Ruy Quadros de; RIGHITTI, Sabine).


Em ‘Reengenharia para os jornais impressos’, publicado nesteObservatório, sentenciei, alicerçada na pesquisa realizada em 2005 por Bughin e Poppe, o progressivo declínio provocado nas receitas das empresas jornalísticas. De acordo com números apurados pelos estudiosos, ‘os jornais estão sofrendo uma redução de circulação de 2% a 4% ao ano, em todo mundo’ (SOUSA, Jorge Pedro).


No Brasil, as estatísticas apontam um cenário ainda mais desanimador para os impressos. ‘A análise de circulação de exemplares no país mostra uma redução de cerca de 11% no número absoluto diário, que passou de 3,5 milhões de exemplares por dia, em 1995, para 3,09 milhões de exemplares por dia, em 2005. Se observarmos o número de exemplares para cada mil habitantes, que passou de 22/1000, em 1995, para 17/1000, em 2005, a redução é de aproximadamente 23%’ (CARVALHO, Ruy Quadros de; RIGHITTI, Sabine).


Além do óbvio


Para encarar o desafio de começar de novo, os repórteres que integram as redações dos jornais impressos devem incorporar o espírito do intelectual orgânico, definido por estudiosos da área como ‘uma batalha cultural para transformar a mentalidade popular e difundir as inovações filosóficas que se provarão historicamente na medida em que se tornam concretamente histórica e socialmente universais. O novo profissional aproxima-se deste conceito, pois ao desejar o estranhamento do público em relação à narrativa, se instiga uma atitude crítica, um `dominar o mundo´, como pretendiam Brecht e Gramsci, desta forma, o novo jornalista é um ‘intelectual orgânico’, usa da sua profissão para provocar espanto e opor-se ao hegemônico jornalismo tradicional’ (ALVES, Selmar Becker).


OEstado de Minas veiculado na última quinta-feira (16/7) traz estampadas nas páginas de seu caderno Esportes reportagens com abordagens peculiares sobre a final da Copa Libertadores da América, partida de futebol disputada na noite de quarta-feira, quando o Cruzeiro, que representava o Brasil na competição internacional, perdeu o título, no Mineirão, por dois gols a um para o time argentino Estudiantes.


Ao invés de as matérias restringirem-se somente à análise superficial dos principais lances que culminaram com tal placar, oEstado de Minas optou por ir além dos dois gols, ou seja, ir além do óbvio na cobertura futebolística ainda adotada pela maioria dos jornais impressos.


‘O time jogou a torcida para baixo’


A tristeza provocada pela perda do título internacional não se restringiu, nas páginas daquele jornal, aos olhares cabisbaixos e lágrimas dos jogadores celestes que lutaram bravamente no gramado do Mineirão pelo título internacional. O repórter Ivan Drummond detalhou, através da reportagem ‘Torcida dá show. Em vão’, o drama vivido pelos milhares de cruzeirenses naquela noite de decisão.




‘Era dia de festa, de festa de arromba. O Mineirão, todo preparado. Tendas montadas para quem subia as escadarias. Era também um dia em que a autoridade, o artista, o torcedor comum comungavam um único sentimento: a paixão pelo Cruzeiro. O Mineirão era um mar azul. Quase ninguém ficou do lado de fora por muito tempo. Todos queriam entrar no palco da decisão, ocupar seu lugar. No estádio, uma surpresa: com muita música, o torcedor cantou, dançou nas arquibancadas, deu um show. Não perdeu nem mesmo o Hino Nacional, pois quando a música parou, a torcida seguiu, orgulhosa, cantando. Era uma mostra da confiança no time (…).


Todos estão numa corrente, todos apaixonados pelo Cruzeiro. Mas, no fim, a união de nada adiantou. O time jogou a torcida para baixo’ (Estado de Minas, 16/7/2009).


Lágrimas e revolta


Apesar de o Cruzeiro ser o centro das atenções na mídia, especialmente nos veículos de comunicação do estado, os argentinos tiveram espaço garantido na cobertura esportiva realizada pelo ‘grande jornal dos mineiros’.


Em ‘Hermanos incentivam o time para uma guerra’, o jornalista Thiago Herdy documenta detalhes do comportamento de nossos vizinhos que antecederam o espetáculo esportivo promovido no Gigante da Pampulha.




‘Quando o primeiro ônibus de um comboio de quatro chegou sacolejando ao portão ao lado dohall do Mineirão antes do jogo de ontem, até mesmo os cruzeirenses se calaram. Torcedores do Estudiantes que se preparam para entrar no estádio voltaram e cercaram o veículo, cantando em uníssonos os gritos de guerra da torcida argentina. Por cerca de 10 minutos, enquanto os motoristas aguardavam a abertura do portão, os veículos sacudiam junto com cerca de 200hermanos, que faziam o barulho de mil.


Os passageiros dos ônibus se levantaram, cantavam e batiam as janelas no mesmo ritmo das pessoas do lado de fora’ (Estado de Minas, 16 de julho).


A tristeza predominante nos corações dos torcedores celestes que assistiam a partida longe do Mineirão também transformou-se em pauta para a edição publicada na última quinta, 16. O repórter Pedro Rocha Franco reconstituiu, em ‘Frustração fora do campo’, a angústia dos cruzeirenses que acompanharam atentamente detalhes daquela partida através da transmissão do jogo reproduzida pelos aparelhos de TV espalhados por bares localizados na região centro-sul de Belo Horizonte.




‘A melancolia de 45 minutos sem gols parecia repetir as cenas do jogo de ida, na Argentina. Aos seis minutos, o gol e bastava esperar para erguer o caneco do tricampeonato da Copa Libertadores. Mas a bruxa estava a solta no Mineirão. O time do Estudiantes virou o placar e a onda azul espalhada pelas ruas e bares se dissipou em lágrimas e revolta.


Na Praça da Savassi, mais de mil cruzeirenses esperavam para repetir a comemoração e receber o restante da torcida no embalo até o amanhecer. Ao apito final, o resultado era outro: torcedores calados e em poucos minutos, ruas vazias e tomadas apenas por sujeira’ (Estado de Minas, 16/7).


Pitadas de utopia


Através da produção de reportagens, ‘forma de maior aprofundamento possível da informação social e, por outro lado, é aquela que responde melhor às aspirações de uma democracia contemporânea, com toda a plenitude até mesmo da utopia’ (CREMILDA, Medina aput ALVES, Selmar Becker), os jornalistas alimentam a possibilidade de abandonar o caráter empobrecedor da objetividade que, atualmente, resume-se a matérias direcionadas pelolead esublead seguidos por parágrafos intercalados por entertítulos a cada 20 linhas, direcionados pela técnica da pirâmide invertida.


Embora a iniciativa doEstado de Minas possa parecer medíocre, ela aponta uma nova fase para os jornais impressos, especialmente os mineiros, na qual inteligência, perspicácia, determinação, perseverança acrescidas de pitadas de utopia irão produzir grandes reportagens, recheadas com saborosas informações que, certamente, o leitor pagará, com gosto, para lambuzar-se de conhecimento.

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Jornalista, blogueira, assessora de comunicaçãofreelance e colunista do jornalAqui, Pedro Leopoldo, MG

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