Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A brutalidade em estado puro

Por Alberto Dines em 17/02/2009 na edição 525

A imprensa brasileira finalmente acrescentou o adjetivo suposta(o) ao episódio da agressão sofrida pela advogada brasileira Paula Oliveira, em Zurique. Trata-se de um procedimento corriqueiro frente a acontecimentos que o veículo (ou o jornalista) não testemunhou, nem pode comprovar.


Trabalhar com indícios ou hipóteses é jornalisticamente legítimo, salutar. Mesmo que por falta de sinônimos a repetição da suposição possa tornar as afirmações menos impactantes. O leitor e leitora deveriam apreciar e aplaudir as precauções adotadas pelos jornalistas quando redigem suas matérias. Trata-se de um comportamento cautelar em seu próprio benefício. A não ser que as emoções, idiossincrasias e indignações deste leitor levem-no a preferir os julgamentos sumários.


A xenofobia européia não começou agora nem é resultado da catástrofe financeira. A Segunda Guerra Mundial – cujos 70 anos teremos a oportunidade de lembrar ao longo deste 2009 – é resultado direto da exacerbação xenófoba, chauvinista e racista, instrumentada por caudilhos e panfletários irresponsáveis.


Imperioso lembrar que esta violência contra estrangeiros, os diferentes, os outros – refugiados ou não – é um fenômeno quase universal que toleramos quase sem reação (excetuada a Lei Afonso Arinos). Quando maior foi a barbárie nazi-fascista (anos 1930-40), maior foi a nossa hostilidade aos gringos que aqui conseguiam arribar.


Quando Getúlio Vargas finalmente abandonou o modelo de Benito Mussolini e aderiu à causa dos Aliados (agosto de 1942), houve espancamentos e linchamentos de alemães, italianos e confinamento de japoneses no interior de São Paulo. Isso aconteceu quase no mesmo momento em que o poeta Ribeiro Couto e o historiador Sérgio Buarque de Holanda criavam o conceito da ‘cordialidade’ brasileira.


‘Efeito-manada’


A repulsa aos neonazistas europeus não pode servir de pretexto a patriotadas furiosas não muito diferentes do que fazem os hooligans e os skinheads. Todas as nações têm culpas em cartório, também a chocolatada Suíça. Também o Brasil, se revermos o passado com o olhar paraguaio. A justiça histórica faz-se com inteligência e, se possível, com compostura.


Antes de sair às ruas para pedir a invasão da Suíça conviria aguardar o esclarecimento dos fatos. Não esqueçamos o vexame da Guerra da Lagosta (1961-1963), estimulada por uma imprensa ainda não espicaçada pelos blogs mas decididamente foliona.


Como agora. O caso da advogada Paula Oliveira já poderia estar esclarecido se nossa imprensa mantivesse o salutar hábito de se questionar abertamente. A imprudência hoje escancarada resulta da certeza de que ‘barrigas’ e burradas jornalísticas não serão discutidas publicamente, apenas intramuros, no máximo em territórios restritos como o deste Observatório da Imprensa. O ‘efeito manada’ é resultado direto da cortina de silêncio que envolve, protege, privilegia e vicia a nossa indústria jornalística.


Aflições multiplicadas


As primeiras notícias sobre a suposta agressão sofrida pela brasileira em Zurique foram trombeteadas na quarta-feira (11/2). A nossa mídia só começou a rever a sua cobertura no fim de semana (14-15/2), quando a imprensa suíça questionou os seus procedimentos. A revisão só começou a ser feita por este Observatório no fim de semana e pela coluna ‘Toda Mídia’, da Folha de S.Paulo, na segunda-feira (16).


Ainda no domingo, opinionistas altamente credenciados e viajados insistiam na tese de que a suposta agressão era ‘verossímil’ e que um eventual erro da nossa conterrânea seria menos grave do que a violência dos grupos xenófobos europeus.


Uma imprensa que se discute abertamente corre menos riscos do que aquela que por arrogância e irresponsabilidade se entrega às bolhas e às bolas-de-neve. Nossa imprensa desacostumou-se de se olhar no espelho, não repara que muitas vezes está nua. Não está atenta à sua imagem porque há muito não presta contas a ninguém. Pela primeira vez foi questionada internacionalmente. E ainda forneceu valiosa munição a um governo empoleirado nos palanques que só pensa em desacreditá-la.


Na ânsia de desagravar uma brasileira que vive uma dramática situação no exterior a mídia enfurecida só aumentou as suas aflições. Isto não é solidariedade, é brutalidade em estado puro.

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