Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > NESTOR KIRCHNER (1950-2010)

A cobertura burocrática

Por Alberto Dines em 29/10/2010 na edição 613

A repentina morte do ex-presidente argentino Nestor Kirchner, na quarta-feira (27/10), comprovou que apesar da proximidade geográfica e do intenso intercâmbio turístico nossa imprensa não consegue oferecer uma cobertura satisfatória sobre o que ocorre no país vizinho.


Envolvida pelo julgamento da Lei da Ficha Limpa e pelos lances finais da disputa presidencial, nossa mídia não achou importante registrar que no dia da morte do homem forte do atual governo de Cristina Kirchner os argentinos estavam trancados em suas casas porque era o dia do recenseamento nacional – e só deveriam sair de depois das 8 da noite, quando os 650 mil recenseadores terminassem as suas tarefas.


O censo de 2010 foi intensamente politizado e dramatizado – aliás, como tudo na Argentina – porque, com ele, o governo pretendia reabilitar o INDEC, o instituto equivalente ao nosso IBGE, cujos dados sobre economia e inflação têm sido muito contestados.


Falta de hábito


Nestor Kirchner, além do poder que exercia no governo da mulher, preparava-se para sucedê-la no pleito de outubro de 2011, quando os dados do censo ficariam prontos. Agora, a viúva não terá outra alternativa senão jogar-se sozinha na campanha pelo segundo mandato, com ou sem estatísticas confiáveis.


A nova tragédia que enluta a cena política argentina e entristece todos os que admiram a sua cultura traz consigo uma advertência: roteiros e cronogramas não são infalíveis, o destino e os fados não gostam de ficar em plano secundário.


Na quarta-feira (27), o diário Valor publicou extensa matéria (pág. A-16) sobre o recenseamento argentino, mas os redatores das nossas editorias internacionais não têm tempo nem o saudável hábito de ler as páginas de economia dos concorrentes.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/10/2010 Galeno Pupo

    Dines, você tem razão, escondem em sua morte homem que N. Kircher foi como lider político em seu paí e na America Latina. Mas vamos falar a verdade, Vocês da imprensa o mantém escondido há dez anos, nossa imprensa não gosta dele. Não tem obrigação de noticia-lo. A Lei dos Meios (de forma distorcida), casos suspeitos de financiamento eleitoral, piadas, criticas a sua política econômica quando algum interesse brasileiro parece ser questionado, só isto lemos de Nestor em nossa imprensa. Foram dez anos de ostracismo.
    E sua liderança na A.Sul? E o reeguimento economico da Argentina sob seu comando? E as discussões sobre direitos humanos? E a Lei de Meios? Fundamental ler artigo de hoje em CartaMaior do jornalista e escritor argentino MENPO GIARDINELLI , :’ a Lei de Meio começou a limitar o poder absoluto da ditadura jornalística privada que provoca distorções na cabeça de milhões de compatriotas.’
    Não só na morte Kirchner foi esquecido por nossa imprensa , além dos fogos que deve estão queimando, seu desejo é enterrar o ex presidente argentino em uma cova profunda. Nada do que representa a evolução nesta A. do Sul, com seus governos democráticos da última década interessa a nossa imprensa. Evo e sua revolução na Bolívia não são nem sequer citados, da mesma forma no Equador e na Venezuela.
    A cobertura não é burocrática é ideológica , para provocar distorções em nossas cabeças.

  2. Comentou em 29/10/2010 Emerson Mathias

    A cobertura nos jornais e na TV foi ridicula, apequenando a dimensao de Kirchner na historia politica da Argentina. Talvez um sinal de como olhamos para nossos hermanos, o que revela um aspecto negativo do nacionalismo que anda tao na moda em discursos politicos e campanhas de marketing que exploram o ‘sou brasileiro com muito orgulho’, hino de varias torcidas organizadas (em campos de futebol e comicios para eleitores). Kirchner entra na historia recente da politica da America Latina como alguem que soube dialogar com as massas, com tracos do Peronismo tao caros aos argentinos, e ao mesmo tempo rompeu com algumas receitas ortodoxas do FMI e Banco Mundial. Nao foi pouco. Seu legado eh controverso, pois inclui a polemica sra. Kirchner, uma versao portenha de Berlusconi. Alguns historiadores poderao considerar que Kirchner fez a passagem tardia da Argentina do seculo XX ao XXI, ou inversamente, que suas politicas economicas colocaram o pais em marcos regulatorios defasados. Falta essa analise para compreendermos que se trata de uma perda importante no cenario politico latino-americano e que nao foi substituido a altura pela sra.Kirchner, alias, ela dava claros sinais de que Nestor era mais que sua alma gemea, era seu mentor politico ao alcance na sala de estar. O jantar na casa dos Kirchner sera mais silencioso. Esse silencio podera afetar decisivamente a vida politica da nacao.

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