Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > Estratégias da mídia

A construção do bode expiatório e o simulacro como efeito de verdade

Por José Isaías Venera em 15/05/2018 na edição 987

No conhecido texto “Para uma nova teoria do sujeito”, o filósofo francês Alain Badiou escreveu: “Claro, a humanidade é uma espécie animal. Ela é moral e cruel. […] Ali está o Homem, se fazemos questão de pensá-lo: naquilo que faz com que ele se obstine a continuar sendo o que é.”

E o que ele é está nos eventos irredutíveis, “foras-da-lei” das situações previsíveis. Em situações que fogem ao controle do que seria esperado ao sujeito, que a verdade aparece. O sujeito, assim, se constitui nos acontecimentos. Vejamos alguns:

Ex-prefeito de São Paulo, João Doria, condenado a devolver área pública no interior do Estado, diz que o edifício Wilton Paes de Almeida “foi invadido e parte desta invasão [é] financiada e ocupada por uma facção criminosa”, sem dar explicações sobre a denúncia. Vereador Marcello Siciliano (PHS) do Rio de Janeiro é apontado como um dos possíveis mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Delegado da Polícia Federal, Gastão Schefer Netto, quebra equipamento de som usado no acampamento em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de vigília em 4/5.

O que há em comum nestes eventos? Que a lei, a justiça e a segurança pública são meios por onde o sujeito pode exerce poder e promover a barbárie, deflagrando verdades irredutível.

A construção do bode expiatório

Não é de estranhar que centenas e centenas de internautas histéricos tenham crucificado Ricardo após salvar moradores do edifício Wilton Paes de Almeida em chamas. Imagens dele fora de contexto e comentários difamatórios circularam em redes sociais. Colocando-se na posição de Deus, que tudo pode, internautas tudo veem, tudo sabem e de tudo julgam. Defensores da moral e dos bons costumes, expõem as vísceras de uma sociedade que vê crescer a desigualdade social num piscar de olhos enquanto se viram de costas para o desmonte das políticas públicas de transferência de renda, das leis trabalhistas e, em breve, do sistema previdenciário.

Aos impuros, tatuados, com identidades perdidas ou duvidosas, salvar vidas não diz nada. Saiu de démodé os direitos humanos e a luta em defesa das minorias. Em tempos em que um miserável é crucificado na ágora virtual das redes sociais, as chamas se levantam até aos céus como se dissessem à Deus que o sacrifício de seu filho não foi suficiente para conter o movimento mimético de vingança na sociedade. Neste ponto, o filósofo francês René Girard observa bem a passagem bíblica: “é melhor que um homem morra e que seu povo seja salvo”, referindo-se a Jesus Cristo que foi crucificado para que os gentios tivessem direito à salvação. Girard questiona: “Será que isto quer dizer que Cristo é o bode expiatório? Com certeza: ele próprio torna-se [bode expiatório] e mostra-nos o que todos nós fazemos”. Não é o que se faz com os sem teto? O que o sulista faz com o nordestino? etc. Cristo tornou-se o significante que condensou toda maldade humana para pôr fim ao movimento mimético de sacrifícios. Mas, observa Girard, o mundo moderno vem da recusa dessa mensagem que inaugura o cristianismo.

Quando o Tatuagem, como era conhecido, é erguido à posição de herói pela imprensa, ele rapidamente passa a ocupar posição de significante por meio do qual uma proliferação de sentidos se desencadeia nas redes sociais, mas que dizem respeito aos sintomas de uma sociedade doente. O movimento carrega consigo traços de psicose, ou seja, quando a linguagem não se articula na cadeia significante responsável por ser amarrar na ordem simbólica. A causa disto é que na estrutura psíquica neurótica o sujeito habita a linguagem, enquanto na psicótica, o sujeito é habitado pela linguagem. Nessa segunda estrutura perde-se a noção de falta, de divisão do sujeito, de reconhecimento dos limites que a realidade impõe. Nesse espaço rizomático das redes sociais, o sujeito brinca de Deus, podendo ser tudo e até fazer a realidade se moldar à sua imagem e semelhança.

De Ricardo para Boulos

A matéria da Folha de S.Paulo online, de 3 de maio, “Gentil, homem tentava salvar moradores ao ser engolido pelo fogo” é seguida por vários comentários com a interrogação: “Cadê o Sr. Boulos?”. É evidente que a pergunta não é para ser respondida objetivamente. O que mobiliza sua formulação não é a busca pela resposta de uma dúvida, mas sim atender a demanda de seus fantasmas, do violento desejo que se expressa, ainda, com um pouco de filtro social, sendo que em muitos outros casos, sua manifestação já é explicita. O que de fato se deseja com esta pergunta é: “O Sr. Boulos que deveria ter morrido em chamas, já que é o principal defensor dessa gente”. E pouco importa argumentos que mostram não haver relações deste episódio com Boulos.

Quando se faz a pergunta é porque se busca (desejo mimético) desesperadamente um culpado para canalizar toda maldade e reordenar a vida insuportável e medíocre. Essa suposta maldade se converte em desejo de vingança. Assim como aprendemos a falar e a andar, pela repetição e imitação, aprendemos a desejar — seguindo a lógica de Girard. Quando se está diante do desejo alheio inicia-se a competição e a rivalidade, num movimento de violência que pode somente ser amenizado pelo sacrifício. Em tempos de conflito exacerbado, a multidão se reorganizada por meio do desejo mimético incluindo sentimentos como a inveja e o ciúme.

Na mais recente tragédia habitacional, o pré-candidato a presidente pelo PSOL e atuante no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, é uma espécie de bode expiatório, assim como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é no espectro política. Nesse conflito social e político que o país atravessa, Ricardo foi apenas o sacrifício oferecido para que — na expressão freudiana — a memória do pai da orla primitiva reaparece como lei demarcando os limites entre os grupos.

Não é demais supor que o estado de exceção vigente neste país e, sobretudo, em São Paulo, ao invés de desenvolver políticas públicas para os sem teto, irá, ao contrário, higienizar os espaços ocupados — para depois servir de modelo para programas de campanhas políticas higienistas — pesando ainda mais as mãos sobre os impuros, com identidades duvidosas, sobre os que não são úteis ao mercado.

Com a barbárie crescente pode-se observar que há um desejo mimético de vingança, ou seja, cópia de um Outro (modelo), para canalizar todos os malefícios num personagem, que passa a figurar, como consequência, no bode expiatório. Desse personagem é retirado toda sua aura de humanidade – a mídia tem sido porta voz desse processo –, podendo assim ser devorado pela natureza selvagem que se aflora.

Não há sentido a repetição na mídia conservadora de que o país está dividido, sendo que em uma democracia representativa 50% mais um elege um presidente — esta é a regra do jogo —, quando se sabe que o que se busca com a afirmação de que o país está rachado é recorrer ao conflito para, assim, entregar o inimigo na forma de bode expiatório. A forma como se pode ler a partidarização na mídia corporativa e o posicionamento de parte do judiciário, como no caso do procurador Dallagnol ao dizer que “jejua e ora” pelo fim da corrupção às vésperas do julgamento do Lula, mostram que há uma estrutura de sacrifício que se repete e que está nos preparativos finais.

Este triste episódio do incêndio no edifício Wilton Paes de Almeida, ocupado por pelo menos 146 famílias, e a forma como a imagem de Ricardo circulou na busca por desfazer seu ato heroico, assim como os xingamentos literais de Boulos por um grupo que atende (alienação) à demanda de criminalizar movimentos sociais, expõem o desejo voraz de identificar o bode expiatório como parte do ritual de catarse coletiva.

Vista do Largo do Paissandu, onde um prédio desabou após incêndio na madrugada do dia (01/05) e outro está com a estrutura comprometida, a partir da Galeria do Rock, região central. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

É preciso sangrar quem está próximo do bode expiatório do espectro político

No dia do trabalhador, não havia o que comemorar. Perda de direitos trabalhistas, mobilizações empresariais e políticas para Reforma da Previdência, criminalização dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda e prisão política do ex-presidente Lula. Para agravar, o acampamento Marisa Letícia, que integra a vigília Lula Livre, em Curitiba, foi alvo na madrugada de 28 de abril de atentado a tiros deixando dois feridos. Como interpretar essa onda de barbárie — atos de violência física e simbólica provocados por homens ditos de bem? Qual o signo e sua lógica de funcionamento capaz de produzir um curto-circuito nos valores civilizatórios?

Em 1990, o sociólogo Jean Baudrillard publica A transparência do mal, reunindo ensaios sobre diferentes fenômenos sociais que o levaram a observar um outro estágio da exploração: “O sistema funciona não tanto pela mais-valia da mercadoria mas pela mais-valia estética do signo”. No centro de sua teoria, a antiga tese de Karl Marx sobre o fetichismo da mercadoria — um fenômeno produzido pela relação fragmentado do trabalho e que cria a ilusão de que as mercadorias têm valor independente da produção — adquire na sociedade atual um outro valor; não mais relacionado à produção, mas sim a publicidade que reúne signos sem rastros com a produção. É como reunir em torno da mercadoria cerveja, o signo da mulher sensual. O valor — o que está para a mais — é um signo que transcende a mercadoria e que se estende no imaginário do consumidor embalando seus desejos.

Essa nova forma de fetiche funciona no interior do campo simbólico desarticulando seus pontos de conexão com a experiência. Pode-se entender, nessa direção, porque a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia, teve sua imagem reproduzida em banner e ao lado a imagem do juiz Sérgio Moro decorando a entrada de um bordel de luxo em São Paulo, enquanto seu proprietário, cafetão, simula uma cena escatológica com uma prostituta. O evento que aconteceu após a prisão de Lula é um um Raio-X do nosso tempo. Isto acontece quando o judiciário se torna o fetiche dos justiceiros.

O judiciário não teria alcançado essa posição de objeto de fetiche sem o teatro da empatia produzida pela mídia corporativa. Para isso, não foi preciso somente a mídia conservadora cultuar juízes e ministros do STF, eles foram demandados a agir em conformidade com as sentenças antecipadas da mídia. No léxico baudrillardiano, poderíamos dizer que a sentença se pautou em simulacros, como o revelado nas fotos produzidas após a ocupação do MTST que exibem o apartamento no Guarujá sem elevador e sem a milionária reforma. Um julgamento feito a partir de signos, mas sem relação com o existente, ou seja, puro simulacro.

A verdade foi reduzida a um simulacro

Estamos diante de um jogo de ficção que tem estrutura de verdade. O judiciário conquistou seu altar em um puteiro após prisão do ex-presidente Lula. Essa ficção (simulacro que tem aparência de verdade) tem sido apresentada como verdade, mas a única verdade é que ela serve de estrutura para um outro conteúdo. A mais-valia aqui é que enquanto a classe trabalhadora vê a perda de seus direitos conquistados ao longo da história, outros gozam — no exemplo citado, literalmente — com o sofrimento alheio, ou, melhor, lucram com o empobrecimento da maioria e com a ampliação da desigualdade social.

O que está oculto nesta peça ficcional é o gesto de perverter o campo simbólico — este que seria responsável por estruturar as relações de civilidade. Ao perverter, o signo acaba revelando a verdade do sujeito, ou seja, os sintomas cujo efeito tem sido a barbárie. Quem poderia imaginar um altar num puteiro de ricos de culto ao judiciário. Seria como substituir a imagem de Cristo por Lúcifer. Quando elos sociais responsáveis pela manutenção de condutas civilizadas são desfeitos — quando não há mais diferença entre Cristo e Lúcifer, Socialismo e Nazismo etc. — tudo torna-se capitalismo, tudo torna-se barbárie e a lei é resumida a defender quem mais tem dinheiro.

O judiciário, em especial na imagem fabricada do juiz Moro, se converteu neste signo pelo qual uma cadeia de sentido tem se ancorado, entre eles animando atos de justiceiros. O problema maior a ser resolvido é saber como que esta onda de barbárie pode ter um juiz – ou um sistema – como símbolo mobilizador de suas ações. Se na imagem escatológica Moro aparece com a presidente do STF, em outro episódio, mais recente, ele é enunciado junto ao nome do militar e deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) por manifestantes em dois caminhões de som em frente a Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando destilaram ódio, no dia 25 de abril, pela posição de integrantes da universidade contrária à prisão política do ex-presidente Lula.

Justiceiro é quem faz suposta justiça com as próprias mãos, agindo fora da lei. Como então o justiceiro pode ter o judiciário como objeto de fetiche que anima suas ações? Justiceiros são foras da lei que colocam suas crenças acima da lei, impondo uma punição àqueles que não se enquadram aos seus preceitos. Aqui, o caso mais explícito são os tiros contra o acampamento Lula Livre. Sentem-se no direito de fazer linchamento público, execuções madrugada a dentro etc. Mas como entender que justiceiros têm como ídolo um juiz que deveria ser responsável por preservar as leis constituída?

Só há aqui dois caminhos para entender esse paradoxo. Primeiro, que o juiz age em estado de exceção, ou seja, usa a lei conforme convém a ele e a seu grupo (como condenar Lula por ter sido beneficiado pela reforma de um apartamento que não existiu e que não há provas que seja dele); e, segundo, existe um cinismo de justiceiros na medida em que a lei se aplica somente ao outro, sendo incapaz de se implicar nela e de se colocar diante da dor do outro.

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José Isaías Venera é jornalista e professor universitário.

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