Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A construtora das representações sociais

Por Venício A. de Lima em 04/07/2005 na edição 336

Se ainda existisse alguma dúvida sobre o imenso poder que a grande mídia exerce na sociedade brasileira, a atual crise política certamente seria suficiente para esclarecer a questão. Talvez ainda se possa discutir se a mídia impressa é mais ou menos poderosa do que a mídia eletrônica ou qual o peso relativo dos(as) influentes colunistas multimídia. Mas isso não altera o fato principal: com a crise a mídia reafirma seu duplo poder como empresa e como construtora determinante das representações sociais, em particular da política e dos políticos.

A atual crise política reafirma também a tese de que, a partir de um determinado ponto, a grande mídia embarca numa dinâmica própria, autônoma e aparentemente sem controle. Passa a prevalecer uma lógica parecida com aquela que preside a cobertura jornalística das disputas eleitorais e que já foi comparada às corridas de cavalo: o que importa é saber qual empresa jornalística está à frente da outra, qual consegue ‘esticar um pouco mais a corda’ e avançar com novas denúncias.

Essa prática profissional é alimentada por um difuso sentido de missão pública cujo paradigma clássico continua sendo o papel desempenhado pelos repórteres do Washington Post no caso Watergate. E tudo isso gerando maiores audiências e maiores tiragens.

Concorrência regional

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que até agora não era conhecido por suas preocupações com a relação da mídia com a política, tem publicado importantes artigos no jornal Valor Econômico que acrescentam aspectos novos à questão.

Ele argumenta que, na América Latina, a grande mídia, a Igreja, os militares e grupos de interesse sempre foram atores capazes de gerar instabilidade política: ‘Enquanto os partidos competem pelo poder, a grande imprensa disputa o monopólio de dizer o que fazer com ele’. E esse poder seria ‘a moeda de troca das grandes empresas de comunicação latino-americanas na arena econômica’.

Em certo sentido, o argumento do cientista político coincide com a hipótese do ‘agendamento’ (agenda setting): a mídia seria capaz de construir não só a agenda pública de discussão mas também a agenda do próprio governo.

Segundo Wanderley, o poder da mídia de gerar instabilidade política caracteriza o período de ‘democracia de instituições vulneráveis a extorsões’, ao contrário do que ocorre em países estáveis. Nestes, ‘pouca coisa acontece fora da arena eleitoral, exceto quando o escândalo revela a ruptura, por parte do governo, do pacto constitucional do país’.

Isso não significa que a grande mídia tenha desistido de controlar a agenda dos governos nos países democráticos estáveis. Ao contrário. O controle da pauta governamental continua sendo sua moeda de troca nos negócios. A diferença fundamental, no entanto, é que a mídia ‘enfrenta concorrentes a nível estadual e local, algo inexistente na América Latina, cuja opinião pública é controlada por dois ou três jornais nacionais em cada país’.

A concorrência regional e local faz com que a grande mídia, nas democracias estáveis, tenha ‘reduzidíssima capacidade de afetar a estabilidade institucional’. Dessa forma, restaria a ela ‘uma única carta na tentativa de pautar os governos: sua credibilidade profissional’.

Comportamento e compromisso

No Brasil, a ausência histórica de mecanismos que impeçam a concentração e a propriedade cruzada por um mesmo grupo, isto é, o controle simultâneo de emissoras de rádio e televisão e jornais, potencializa o poder de uns poucos empresários de comunicação – e de uns poucos jornalistas – na formação da opinião pública. Dessa forma, a questão da credibilidade profissional fica para segundo plano.

Nesse contexto, crises políticas como a que estamos atravessando poderiam criar, segundo Wanderley Guilherme, instabilidade política e institucional que trazem um risco real de ‘capitulação do governo’.

Na atual conjuntura brasileira, ainda não há sinais convincentes de que a grande mídia tenha se dado conta dos riscos reais envolvidos.

Registre-se que a Zero Hora – jornal regional do poderoso grupo multimídia RBS, associado às Organizações Globo – publicou no domingo (26/6), sob o título ‘A responsabilidade de informar’, um editorial que chama a atenção para ‘os riscos de denuncismo, de investigações jornalísticas superficiais e até mesmo de notícias que podem causar a destruição de reputações pela exposição de pessoas inocentes’. Lembra ainda que ‘com um trabalho que persiga sempre a verdade (…) os jornais e as revistas devem se limitar à investigação jornalística, sem assumir atribuições que são das instituições oficiais’.

Não se sabe onde a crise atual irá desembocar, mas, certamente, não só os políticos como também a grande mídia deverá ser avaliada, em futuro próximo, pelo seu comportamento e por seu compromisso com os interesses maiores da sociedade brasileira e com o processo democrático.

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P.S.: No recém-lançado Jornalismo Político, Editora Contexto [remissão abaixo], o jornalista Franklin Martins afirma que para uma pessoa escrever bem é necessário ler bons livros mas – e cito textualmente – ‘vale a pena ler também o que é ruim ou não tem importância, ler revistas em quadrinhos, fotonovelas, bula de remédio, teses acadêmicas, outdoors – em suma tudo’ (página 106). Ao final do livro, no entanto, Franklin Martins cita 12 livros que considera ‘importantes’ para leitura, entre eles Jornalistas e revolucionários, de Bernardo Kucinski, (2ª edição, Edusp, 2003) e A construção da ordem: teatro das sombras, de José Murilo Carvalho (Civilização Brasileira, 2003). Ambos são, originalmente, teses acadêmicas.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política (Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed., 2004)

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