Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A cultura não traz a felicidade

Por Pedro de Souza, de Paris em 08/06/2004 na edição 280

O grupo Le Monde acaba de anunciar um déficit liquido de 25 milhões de euros em 2003, um resultado muito pior que o previsto, segundo o próprio presidente do conselho de administração do jornal, Jean-Marie Colombani, para quem o ano passado foi um dos piores que a imprensa diária nacional já enfrentou na França. A circulação do jornal baixou 4,4%, ficando em 389.249 exemplares de circulação total (345.231 de circulação paga na França), e a recessão publicitária se fez também ressentir duramente. No entanto, integrando o site www.lemonde.fr e os outros títulos (revistas jornais regionais), a situação do grupo não é tão dramática, e a estratégia global não está em causa.

A nova fórmula do jornal, lançada em 1995, permitiu a reconquista de um número de leitores que lhe garante a liderança entre os jornais de circulação nacional, e o site do jornal é também líder entre os sites de informação. Preocupante é no entanto a perda de leitores de menos de 20 anos, já que está provado que o hábito de leitura de um diário (na França) se adquire antes dos 20 anos. E também o relativo fracasso do Le Monde2, a revista de final de semana lançada no começo do ano, cujo diretor de redação, François Siegel, acaba de ser afastado, e que deve ser relançada em setembro.

Colombani, no comentário que acompanha a publicação das contas detalhadas do grupo – saudável iniciativa, única na imprensa francesa –, sublinha no entanto que se a estratégia globalmente continua válida há que adaptá-la à importância crescente da internet; e confessa que o Le Monde, como todos os grandes jornais, continua ainda aprendendo a montar uma estratégia coerente de relacionamento entre o jornal em papel e na internet.

Preço baixo

Podem-se fazer alguns reparos a essa visão medianamente otimista. Recentemente o Le Monde causou sensação ao distribuir junto com o jornal de sexta-feira uma coleção de DVDs. Trata-se muito provavelmente de uma reação defensiva, já que o Le Figaro havia lançado dias antes uma coleção semelhante. A coleção foi um sucesso: o jornal vendeu 100 mil exemplares a mais. Porém, parece legítimo perguntar qual o custo/benefício dessa operação no longo prazo. O mesmo se pode perguntar em relação ao lançamento do Le Monde2, que, como vimos, não encontrou o sucesso desejado.

Essas iniciativas de desenvolvimento em todas as direções não garantem intrinsecamente a melhoria da saúde do jornal. É sabido que os leitores (ou devemos dizer consumidores?) que compram o jornal porque junto vem um DVD são altamente voláteis. E a gestão da operação de vendas dos DVDs não é obvia, especialmente no que se refere ao encalhe. Muitos leitores regulares do jornal, não encontrando na banca o jornal sem o DVD, deixam de comprá-lo nesse dia.

Numa recente intervenção no congresso da Associação Mundial de Jornais, em Estambul, Juan Luis Cebrián, fundador do El País, colocou o dedo na ferida: diante da crise os jornais oferecem cada vez mais páginas, mais suplementos, mais produtos que não têm nada a ver com a sua função essencial, quando se sabe que o leitor dedica cada vez menos tempo à leitura de jornais. A que se deve o sucesso dos magros jornais gratuitos precisamente entre o público jovem? Um leitor que compra o Le Monde com DVD está ‘levando junto’ o DVD ou o jornal? Esse sistema de dumping das vendas desvaloriza ambos: o jornal e o filme (sim, porque se trata de uma obra cinematográfica…).

Parece claro que num universo de comunicação em estado de transe, em transformação profunda, a internet representa, para os jornais diários, a grande tormenta e desafio no seu modelo de tratamento da informação e no seu modelo econômico (ou ausência do mesmo), que introduziu o jornal gratuito no campo do possível. É nela que há que concentrar os esforços – o resto é diversão.

O problema do preço da cultura não se põe apenas para os jornais. Diz um provérbio francês que ‘l’argent ne fait pas le bonheur’, o dinheiro não faz a felicidade. A questão é controversa. Mas no que respeita à cultura de massa, o dinheiro hoje é praticamente inútil. Discos, todo o mundo pirateia da internet; filmes, para lá caminham. Jornais e revistas gratuitos pululam, as revistas de programação de televisão na França custavam cerca de 2 euros (com programação de uma semana) – agora há algumas à venda por 0,50 euro (com programação de duas semanas).

Bandeira de luta

O capitalismo sempre tem se revelado capaz de responder aos desafios que lança a si próprio. À custa de algumas vítimas que ficam pela estrada, é verdade. As grandes majors da música estão despedindo funcionários às centenas (150 só na França desde o início do ano), o mesmo acontecendo em muitas outras áreas da cultura de massa, como o jornalismo e a edição. Mas que não haja receio: os desempregados vão continuar consumindo, pelo menos consumindo cultura, porque a cultura agora é de graça.

A indústria cultural, até que reaja, está vivendo um processo autofágico irresistível. Com efeito, para que os jornais ‘vendam’ DVDs a esse preço é necessário que os próprios produtores desses DVDs os estejam vendendo ao desbarato. Esse processo terá conseqüências imprevisíveis, já que se está criando na cabeça do consumidor a idéia que a cultura é grátis. Alguém no entanto vai ter de pagar.

As restrições à publicidade de cigarro, bebidas, e agora comida, parecem não dar muita margem a um financiamento da cultura pela publicidade. E na Europa, onde o mecenato sempre foi fraco, o Estado está dando sinais de certa relutância em assumir esse papel. O recente conflito dos artistas esporádicos (os intermitants du spectacle) na França é uma ilustração clara de que não se pode esperar muito mais por esse lado. Mesmo se os estados, ou a União Européia, se mobilizem para garantir a ‘exceção cultural’ – conceito que está sendo adotado pela maioria dos estados europeus, onde a diversidade cultural continua e será cada vez mais um traço característico, contemporâneo da sua abertura ao mundo.

Apoiados nas telecoms, os operadores culturais, entre eles os jornais, vão ter de encontrar novas formas de fazer pagar aquele que numa economia saudável sempre deve pagar: o consumidor.

Os intelectuais e políticos progressistas dos séculos 19 e 20 tinham feito do acesso à cultura para todos uma das bandeiras de seus combates. O capitalismo acreditou neles e chegamos lá: finalmente todo o mundo, pelo menos nos paises desenvolvidos, tem acesso gratuito à cultura de massa. Para esses intelectuais, a cultura traria a felicidade. Mas a cultura não trouxe a felicidade. Nem sequer o emprego.

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