Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A dança dos números das pesquisas

Por Rachel Moreno em 20/06/2005 na edição 334

A semana foi rica em uma série de acontecimentos. Fatos, suas repercussões, suas interpretações, a reação aos fatos, as interpretações das reações. E as repercussões das interpretações das reações aos fatos criados a partir desse mecanismo.

Na guerra pelas manchetes e novidades, dois grandes jornais se alternavam, com os recursos possíveis. À Folha de S.Paulo coube a entrevista do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) denunciando a existência de um mensalão no governo federal, que reiterou as acusações num longo depoimento à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, quando detalhou um roteiro recheado de minúcias mas desprovido de provas. Ao menos, por enquanto.

Poucos dias depois, o Estado de S.Paulo estampou na primeira página a denúncia do tesoureiro do PPS sobre um oferecimento de dinheiro – ou ‘suporte’ para a campanha – que lhe teria sido feito por um membro da administração da Marta Suplicy, e que ele teria recusado e comunicado à direção de seu partido. (Tanto o acusado ex-integrantes da administração da Marta quanto o presidente de seu partido negaram veementemente o fato.)

Dados esses fatos, a Folha de S.Paulo (via seus instituto Datafolha) produziu uma pesquisa para medir a repercussão das notícias e tentar dimensionar o estrago feito na imagem da administração federal e na do presidente da República.

Ao que indica o resultado da pesquisa, para quem sabe lê-la, o estrago maior se deu na imagem dos deputados e da Câmara Federal – onde se abrigam os que teriam recebido o alegado mensalão. Mas a manchete principal da primeira página da Folha (sexta, 17/6) traz como informação o fato de que a notícia ‘não piora’ a avaliação do presidente Lula. O trabalho de campo teria sido feito na 5ª feira (16/6) – dois dias depois do depoimento do deputado Jefferson (e, portanto, um dia depois de sua repercussão na mídia, quando o alcance do fato e da repercussão do fato na imprensa já teriam exercido a sua função de formar opiniões).

No dia seguinte, o Estadão divulga uma pesquisa do Ibope, mostrando que finalmente a boa imagem do presidente começava a ser afetada.

Ordem de apresentação

Terá ‘caído a ficha’ na cabeça dos cidadãos que, lentamente, começavam a envolver a imagem do presidente nos fatos e nas denúncias, marcando uma evolução da opinião pública de um dia para o outro? Ou terá errado um dos dois institutos de pesquisa? E, neste caso, qual dos dois?

No domingo (19/6), anuncia-se novamente um resultado de pesquisa do Datafolha, na primeira página da Folha, já antecipado nos telejornais da véspera. ‘Para 65% dos petistas, há corrupção no governo’, bradou a manchete do jornal. Opa! A maioria dos petistas?! Parece que o resultado do Datafolha agora se aproxima do resultado do Ibope e que o estrago na imagem do governo se aprofunda dia após dia…

Mas, não. Vejamos algumas informações relevantes, que só um leitor muito atento e com repertório para decodificar a informação – e paciência para comparar o jornal de hoje com outro da véspera e o terceiro, do dia seguinte – poderá perceber na antepenúltima linha das páginas internas dos referidos jornais.

Primeiro: a ordem de apresentação das notícias afeta a percepção dos fatos.

Assim, a divulgação da pesquisa do Datafolha, na edição da Folha do dia 17, reflete dados colhidos no dia 16 de junho. Já a pesquisa do Ibope divulgada no Estadão do dia 18, refere-se a dados colhidos entre os dias 9 e 13 de junho – portanto antes do depoimento do deputado Jefferson e da coleta de dados do Datafolha. Mas foi divulgada depois.

Finalmente, a que se deve a maior compatibilização dos resultados obtidos entre os dois Institutos através de uma aparente pesquisa mais recente do Datafolha? Simplesmente nada houve: no dia 19, a Folha divulgava outro trecho da mesma pesquisa noticiada no dia 17, como costuma – para fazer render, impactar e digerir melhor cada pesquisa. Mas a ordem de apresentação das informações afeta a percepção dos fatos, mesmo vindo de jornais distintos – como sabe todo bom pesquisador, que tem que cuidar inclusive da ordem de apresentação das perguntas que constituem um questionário, por saber que essa pode induzir as respostas obtidas. Para um leitor desavisado, a seqüência faz imaginar uma queda de dia após dia, mesmo que em dois jornais distintos…

‘Queda livre’

Um dos subtítulos da matéria do Estadão (‘Queda livre’) mostra uma oscilação de 4 pontos na ‘confiança no presidente’ (numa amostra com margem de erro de 2,2 pontos) e num gráfico no qual a confiança no presidente é de 56% dos entrevistados (contra 38% que declaram não confiar) – diferença esta que se dá com relação aos dados obtidos na pesquisa de março (num intervalo de três meses, portanto).

O mesmo intervalo de três meses decorreu entre as duas mensurações do Datafolha. Quais fatos políticos, conjunturais, econômicos, estruturais relevantes se deram nestes 3 meses de intervalo, aos quais podemos atribuir, por um lado, a manutenção da popularidade do presidente (no Datafolha) e, por outro, a queda de 4 pontos (que podem variar entre 6,2 e 1,8 pontos, se levado ao pé da letra a margem de erro) do Ibope?

‘Os petistas’

Nas sexta-feira (17/6), houve um ato do PT em São Paulo, na Casa de Portugal, reunindo petistas que enchiam o salão e transbordaram pelas duas pistas da Avenida Liberdade, e que foi pouco noticiado nos dias posteriores. A manifestação reivindicava a apuração da corrupção e reiterava a crença no – e defesa do – PT. Um ato cheio de petistas.

Mas a Folha de S.Paulo afirmou na edição de domingo (19/6), que 65% dos petistas acreditam que há corrupção no governo – e segue o jornal nos cruzamentos das demais questões relacionadas à credibilidade da acusação do pagamento do mensalão, da responsabilidade imaginada do próprio presidente e de outras questões, em que o resultado obtido é menos acentuado e, portanto, não foi merecedor de manchete, embora pudesse compor uma percepção mais adequada do conjunto das informações.

Que petistas são esses? Quem a Folha (ou o Datafolha) designa como ‘petista’?

Na minha opinião, petistas são os que estiveram no ato na Casa de Portugal, bem como muitos outros que lá não foram, mas que são filiados ao partido, que votam em suas eleições internas – os militantes de base do PT.

Mas, na página A12 da edição domincal da Folha há um subtítulo que explicita que ‘quase metade dos simpatizantes do PT‘ (grifo meu) acreditam que o partido pagasse mensalão aos deputados. Acrescente-se ainda que o gráfico de barras mostra que 44 % dos chamados petistas pela Folha acreditam que a corrupção diminuiu em relação ao governo FHC; 42% acreditam que ficou igual (no total da amostra, 72% acreditam que a corrupção no governo Lula é igual ou menor do que no governo FHC); e que a responsabilidade de Lula nos casos de corrupção é ‘pequena’ (46% para os simpatizantes) ou ‘nenhuma’ (somando 67% dos simpatizantes e 68% do total da amostra).

Mas o título principal da página A12 daquela edição continua chamando de ‘petistas’ os que suponho tenham declarado ‘simpatia’ pelo partido, e elege para o destaque o dado mais negativo. Enquanto isso, no ‘gráfico de pizza’ abaixo da foto do presidente, temos que 73% dos entrevistados acreditam ser Lula honesto, contra 13% que acreditam o contrário e 14% que declaram não saber.

E assim a pesquisa de opinião é utilizada como mais uma peça que publiciza os resultados que mais interessam do que a informação que efetivamente traz.

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Pesquisadora e presidente do Conselho da Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado

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