Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A derrocada dos mitos

Por Robson Sávio Reis Souza em 18/07/2005 na edição 338

Uma das ‘pedras de toque’ do bom jornalismo sempre foi – e continua sendo – a busca da imparcialidade e da isenção. Características perseguidas pelos profissionais comprometidos com a ética e a verdade, ensinadas nas boas ‘escolas do ramo’ (dado que o ensino tem se transformado em mera mercadoria) por docentes preocupados com os ideais de uma imprensa verdadeiramente cidadã e cumpridora dos ideais democráticos: a defesa da liberdade e da justiça.

À medida que o poderio econômico foi dominando a mídia e os profissionais da pena deixaram de ser ícones da verdade (muitos se transformando em marionetes do capital), presenciamos uma incestuosa relação no universo da comunicação: o jornalismo subjugado às conveniências do grande capital, conformado aos interesses econômicos dos grandes oligopólios midiáticos, que determinam o que deve ser pautado, como, onde, quem etc. As grandes redes de imprensa, as poderosas agências noticiosas, os grandes conglomerados de comunicação imprimem o que deve ser divulgado e sob qual ótica os fatos são apresentados à opinião pública.

Lembremos do episódio envolvendo o publicitário Marcos Valério, acusado de ser o operador do ‘mensalão’, e a revista IstoÉ. Estranhas as visitas que o empresário fez ao dono do veículo de comunicação, no ano passado, quando das denúncias feitas pela secretária da SMP&B. Em seu depoimento, Valério afirmou que procurou o empresário midiático para demonstrar, com provas, sua inocência. E como, alguns meses depois, as denúncias retornaram. Se a revista tinha fatos e provas da corrupção, por que não os divulgou naquela ocasião? Por que, tanto tempo depois, os fatos foram ‘requentados’? Perguntas que precisam ser esclarecidas pela revista.

O pior dos mundos

Há muito se questiona a isenção e a imparcialidade dos meios de comunicação. Por um lado, em virtude das relações imbricadas e promíscuas que os envolvem; por outro, pela fragilidade de seus quadros profissionais, subjugados (e impotentes) frente às determinações de seus detentores. Quem perde com essa situação é a democracia, que deixa de ter na imprensa o contraponto às mazelas sociais.

No meio de tanta denúncia, as fragilidades se evidenciam. Tenho acompanhado, com perplexidade e surpresa, a cobertura que a mídia tem dado às denúncias de corrupção que assolam nossa frágil República. Em meio a tanta confusão, a mídia tem desprezado o aprofundamento das informações, confundindo, em vez de elucidar, a opinião pública.

Somos bombardeados com um vendaval de informações pontuais, muitas vezes descontextualizadas, passando a (falsa) impressão, por exemplo, de que todos os políticos são corruptos e desonestos e provocando um misto de histeria coletiva – expressa na raiva e desilusão –, e imobilismo cívico – a idéia de que este país não tem conserto. Frente a tanta (des)informação parece que estamos perdidos; que ninguém é honesto; que não vale a pena lutar pela ética, a verdade, a justiça.

O pior dos mundos é quando os cidadãos não reconhecem na mobilização social e na luta política o caminho para as mudanças. E é nessa confusão que percebemos quão limitadas e distorcidas são as opiniões de alguns de nossos principais jornalistas e âncoras.

Ovelha e pastor

Vamos aos fatos. No primeiro episódio, assistindo ao Jornal da Record presenciamos em seu âncora, Boris Casoy, um evidente cinismo e parcialidade quando se trata de comentar as denúncias envolvendo parlamentares da esquerda política brasileira, notadamente do PT. Seu bordão ‘isso é uma vergonha’ tem se transformado em sentença condenatória. Mas há imparcialidade nessas contundentes posições?

Na segunda-feira 11/7 um fato explicitou a incoerência do jornalista. Um parlamentar do PFL, ‘bispo’ da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da Rede Record de Televisão (inclusive ex-diretor-presidente da emissora, de 1992 a 1996), fora pego pela Polícia Federal transportando cerca de 10 milhões de reais num jato (da igreja, que vale cerca de 17 milhões de reais) de Brasília para São Paulo.

Depois da reportagem, Casoy, sério e compenetrado (diferentemente das chacotas e piadas de mau humor que permeiam seus comentários políticos), disse que o deputado é um homem honesto e probo e que seu semblante sereno mostrava que ele estava falando a verdade. Defendeu, como uma ovelha que se curva diante do pastor, e determinou a sentença: o deputado é sereno e parece inocente.

Procuração de quem?

O âncora omitiu que o deputado-banqueiro já tem processo no Supremo Tribunal Federal por suspeita de crime contra a ordem pública, como revelou o Jornal da Cultura. Não disse, também, que apesar da legislação brasileira não proibir a movimentação de elevadas cifras por particulares, a pessoa flagrada com grande quantia de dinheiro precisa comprovar a origem dos recursos. A falta de comprovação pode ser configurada como crime de lavagem de dinheiro. E, diferentemente de outros telejornais, não fez referência ao grupo de 11 guarda-costas da Igreja Universal que foram presos rondando a sede da Polícia Federal, armados. Esse grupo de coroinhas do bispo-deputado é composto por policias militares do Distrito Federal e de Goiás. Estranha a ação desse grupo de acólitos!

No segundo episódio, a Rede Band News de Rádio, do Grupo Bandeirantes, também na segunda-feira 11 repetiu, inúmeras vezes, uma entrevista de Carlos Nascimento com a colunista de política Dora Kramer. Na conversa, âncora e colunista falavam sobre as prováveis medidas a serem tomadas pelo novo presidente do PT, Tarso Genro, entre as quais o monitoramento dos atos dos ministros petistas.

Criticavam a idéia de que os ministros devam prestar contas de suas ações ao partido e diziam que essa atitude é para fragilizar o ministro da Fazenda, Antônio Palocci que, segundo o comentário, ‘é o único ministro que está dando certo’. Comentavam que a sociedade não aceita isso. Pergunta: quem deu procuração aos dois jornalistas para falarem em nome da sociedade? De qual sociedade estavam falando ou, em outras palavras, quais interesses estavam defendendo?

Imersos na sombra

Ao contrário do que disseram, vários movimentos sociais – que ultimamente não estão sendo ouvidos pela mídia têm muito a reclamar do ministro Palocci. Aliás, o ministro da Fazenda, segundo avaliações desses movimentos sociais, representa justamente o continuísmo, tanto criticado (inclusive pela imprensa). Portanto, há de se estranhar essa defesa antecipada, diria extemporânea, que os jornalistas fizeram do titular da Fazenda, aparentando a defesa de interesses que não podemos afirmar serem da sociedade, ou pelo menos, da maioria do povo brasileiro (que votaram com a esperança de uma inversão da política governamental: a prevalência do social, e não do capital).

Ora, os jornalistas têm todo o direito de dar sua opinião, e toda a obrigação de opinar de acordo, inclusive, com suas convicções. O que é incompreensível, objeto desta análise, é a parcialidade das opiniões e uma espécie de ‘opinionismo’ sem a devida explicação dos argumentos que podem estar permeando os comentários. Frases soltas que, mais uma vez, em lugar de explicar acabam por confundir mais a audiência.

Transcrevo o que Alberto Dines, com sua experiência, escreveu neste Observatório no artigo ‘A chance da grande catarse do jornalismo‘: ‘Busca-se a credibilidade mas poucos oferecem transparência, pretende-se a moralização da vida pública mas os bastidores da imprensa continuam imersos na sombra’.

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Filósofo e professor

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