Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > MÍDIA & PRÉ-SAL

A emenda da discórdia

Por Luciano Martins Costa em 16/03/2010 na edição 581

O deputado gaúcho Ibsen Pinheiro, do PMDB, desatou a ira dos deuses da mídia ao propor uma alteração no sistema de partilha dos recursos provenientes do petróleo explorado na camada de pré-sal. Desde que a Câmara aprovou a emenda, na quarta-feira (10/3), um intenso debate vem ocupando os jornais, vazando também para as emissoras de rádio e a televisão.


Todos os chamados jornais de influência nacional se colocaram claramente contra a proposta, mas nenhum deles, evidentemente, de maneira tão intensa quanto o Globo.


Os jornais alardeiam que, se a mudança se concretizar, o estado do Rio de Janeiro poderá perder a maior parte da receita projetada para custear a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.


Há quem diga que está sendo produzido muito alvoroço e pouca reflexão. Por exemplo, o comitê organizador dos Jogos Olímpicos de 2016 vem a público, com destaque na edição do Globo de terça-feira (16/3), para afirmar que, se o Rio não receber sua parte privilegiada dos royalties do pré-sal, não haverá recursos suficientes para as obras e as Olimpíadas poderão não se realizar.


Na véspera, o eterno presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, havia dito que, se não entrasse dinheiro do pré-sal, o governo federal iria garantir a realização das obras.


Centro do debate


Há quem questione o senso de responsabilidade dos administradores dos projetos da Copa e das Olimpíadas, uma vez que eles iniciaram as campanhas para trazer os eventos para o Brasil ainda antes que fosse conhecido o potencial dos campos de petróleo em alta profundidade.


Mas esse detalhe escapou rapidamente das análises produzidas pelos jornais.


Por motivos óbvios, o Globo é o jornal que dá mais destaque ao tema, persistindo na discussão sobre a suposta ilegalidade da emenda Ibsen Pinheiro, porque a mudança altera as regras de contratos já em vigor.


O deputado tenta emendar a emenda no Senado, com ajuda do seu colega Pedro Simon, propondo aumentar de 40% para 60% a parcela dos royalties destinada à União, que poderia então redistribuir um quinhão maior para os estados e municípios produtores de petróleo.


Mas o centro do debate se desloca dos valores de royalties para um tema que já estava superado, mas que ainda contraria as preferências da mídia: o papel do Estado na economia.


A questão do Estado


O governador do Rio, Sérgio Cabral, rejeita a nova iniciativa do deputado gaúcho, afirmando que tudo deve voltar a ser como foi proposto pelo governo. Mas os jornais não perderam a oportunidade: aproveitam a discussão para estimular outro debate, sobre o sistema de exploração das reservas do pré-sal, assunto que está resolvido há meses.


Ainda inconformados com o sistema de partilha, que substituiu o processo anterior, de concessão a empresas privadas, vários articulistas e editorialistas já entram em campo para colocar na mesa novamente a questão da presença do Estado no negócio.


***


A metamorfose Obama


A questão da interferência do Estado na economia está presente na mídia, e não apenas no Brasil, desde que o governo dos Estados Unidos decidiu, ainda no governo Bush, tomar medidas para evitar um desastre maior no começo da crise financeira que estourou em setembro de 2008.


Na ocasião, o socorro do Tesouro americano a empresas e bancos sob maior risco e as regras que limitavam o pagamento de bônus a executivos financeiros não foram questionados pela imprensa.


Bastou a economia voltar a funcionar com alguma normalidade para que a velha ojeriza ao que os jornais chamam de estatização voltasse a assombrar a imprensa. E não apenas no Brasil.




Alberto Dines comenta:


Barack Obama sempre foi o queridinho da mídia brasileira, mas de repente tornou-se o ‘detestadinho’. Foi derrubado do pedestal apesar de ter proclamado que ‘Lula é o cara’. O desgosto da nossa mídia com Obama tem a ver com algumas das opções que o presidente americano foi obrigado a fazer nos EUA para enfrentar os efeitos da crise financeira. Ao recusar as soluções de mercado e preferir medidas intervencionistas, Obama tornou-se personagem de uma incrível metamorfose. Se você quer entendê-la, assista à edição desta terça-feira (16/3) do Observatório da Imprensa pela TV Brasil em rede nacional, ao vivo, às 23 horas. Em São Paulo, pelo canal 4 da NET e 181, da TVA.


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/03/2010 Fernando Dolce

    A Emenda Ibsen trouxe à tona toda essa discussão acerca do destino dos Royalties do petróleo, e o rombo que isso representaria para a economia do estado do Rio. O governador Sérgio Cabral chegou a declarar para a TV que sem tal receita o estado ficaria inviabilizado de realizar investimentos em áreas fundamentais como a saúde e a educação. O que não tem sido discutido é o peso que a máquina administrativa representa para o estado, se ela inchou-se a ponto de não conseguir se manter apenas com o dinheiro arrecadado do contribuinte e dos repasses federais, uma vez que não pode prescindir de tais royalties. Apontar para a criação de cargos públicos exagerados, que podem ser utilizados em barganhas políticas, bem como para os desvios manifestamente ilegais que estão sempre latentes pode ser uma maneira de indicar uma solução.

  2. Comentou em 16/03/2010 Cristiana Castro

    Bom, aí concordo com o Luiz Fernando, não há como alterar o que já está em vigor. Que a emenda, caso aprovada, passe a valer, daqui para frente. Para trás, nunca. E muito menos, aprovar uma emenda para que o governo federal arque com os ajustes entre uma lei e outra. Se a emenda vale para contratos já firmados ( não sei o que é isso! ), sou contra.

  3. Comentou em 22/10/2009 OLAVO CABRAL RAMOS F.

    Tenho mantido marcação cerrda em cima d O GLOBO.
    Tenho a impressão que fui pioneiro na constatação do jornal ter se transformado num partido político da oposição.
    Como minha cartas nunca eram publicadas, passei a enviar para o mesmo carta@oglobo.com.br , mas endere das ao EDITOR CHEFE.

    Minha última mensagem foi na sexta feira16/10. Nessa mensagem somente reproduzi os verbetes MISCHIEF e MISCHIEVOUS de um bom dicinário inglês. Terminei a mensagem dizendo: só resta tocar um tango argertino ou pedir socorro ao Obsevatório da Imprensa.

    A partir de terça feira minhas mensagens voltaram. Fiz uns 10 testes. Todos voltaram.

    Olavo Cabral Ramos Filho

  4. Comentou em 06/11/2008 Roberto Tomé

    Tenho um jorna comunitário, e gostaria de saber se quando escrevo editória é preciso que eu assine ou se editória é uma opinião da equipe do jornal?

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