Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DE VEJA

A entrevista escondida

Por Washington Araujo em 22/03/2011 na edição 634

Existem notícias que nos fazem rever o conceito do valor-notícia. Estou com isto em mente após ler a entrevista que o ex-governador José Roberto Arruda (DF) concedeu em setembro de 2010 à revista Veja. Na entrevista, Arruda decidiu dar uma espécie de freio de arrumação em suas estripulias heterodoxas como governador do Distrito Federal: atuou como principal protagonista no festival de vídeos dirigido pelo ex-delegado de polícia Durval Barbosa e que tratavam de um único tema: a corrupção graúda correndo solta nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Distrito Federal.

Na entrevista publicada na quarta-feira (17/3) no sítio de Veja encontramos o ex-governador desarrumando as biografias de seus antigos companheiros de partido, pessoas como os senadores Agripino Maia, Demóstenes Torres, Cristovam Buarque e até o sempre correto Marco Maciel. Não faltaram mísseis dirigidos aos deputados ACM Neto, Rodrigo Maia e Ronaldo Caiado. E também ao presidente do PSDB, o agora deputado Sérgio Guerra. Na fala de Arruda sobra ressentimento e, mesmo tendo passado alguns meses, ainda trai uma certa conotação de vingança.

Não. Não estou desmerecendo o valor de uma única palavra de Arruda nessa entrevista. Após ler os desmentidos de todos os novos citados no escândalo conhecido como o ‘panetone do DEM’ (ver, neste Observatório, ‘Panetones na Redação‘ e ‘Mídia encara corrida de obstáculos‘), confesso que nenhum me convenceu: a defesa esteve muito inferior ao ataque desferido e onde as palavras deveriam ser adjetivas conformaram-se como nada mais que substantivas. Naquele velho diapasão do ‘nada como tudo o mais além, ainda mais em se tratando deste assunto, muito pelo contrário’. Ou seja, a bateria antimíssil deixou muito a desejar e, considerando a virulência verbal dos agora acusados de receberem apoio financeiro no mínimo com ‘origem suspeita’, os desmentidos surgem como bolhas de sabão que tanto animam festas infantis. Desmancham-se no ar.

Miúdos e graúdos

O que me causou profunda estranheza nessa entrevista nem foi seu conteúdo, menos ainda seu personagem. O que me deixou perplexo, com todas as pulgas aninhadas em volta da orelha, foi o timing da publicação da entrevista. Por que Veja, tendo entrevistado o ex-governador em setembro de 2010, somente agora, quase 190 dias depois, resolveu levá-la ao conhecimento de seu público leitor? O ponto é que o mais robusto episódio de explícita corrupção, o único escândalo com tão formidável aparato midiático, com dezenas de vídeos reproduzidos nos principais telejornais do Brasil, merecia ter um tratamento realmente jornalístico: descobrindo-se novos fatos, novos meliantes, novas falcatruas, tudo teria que vir à luz, a tempo e a hora.

Convém refrescar a memória com essas autoexplicativas manchetes dos principais jornais brasileiros no dia 28/11/2009:

** O Globo: ‘Governador do DEM é suspeito de pagar propina a deputados’. E diz que ‘PF grava José Roberto Arruda negociando repasse de dinheiro com assessor’;

** Folha de S.Paulo: ‘Governo do DF é acusado de corrupção’;

** O Estado de S.Paulo: ‘Polícia flagra ‘mensalão do DEM’ no governo do DF’. E diz que o esquema ‘teria até mesmo participação do governador Arruda’.

No dia seguinte, 29/11/2009, as manchetes continuaram com tintas denunciatórias:

** O Globo teve como manchete principal ‘PF: Arruda distribuía R$ 600 mil todo mês’;

** Folha de S.Paulo optou por ‘Documento liga vice-governador do DF a esquema de corrupção’;

** O Estado de S.Paulo não deixou por menos: ‘Em vídeo, Arruda recebe R$ 50 mil’.

E, para concluir essa sessão ‘refresca memória’, compartilho as manchetes dos jornalões no dia 30/11/2009:

** O Globo abriu sua edição com a manchete ‘Arruda: TSE vê indício de caixa 2’;

** Folha de S.Paulo destacou na primeira página: ‘Vídeos mostram aliados de Arruda recebendo dinheiro’;

** O Estado de S. Paulo abriu manchete com ‘Vídeos ‘letais’ levam DEM a preparar expulsão de Arruda’, destacando em subtítulo que ‘Provas contundentes da PF deixam governador em situação insustentável’.

** Até o fluminense Jornal do Brasil passou a tratar do assunto com a importância que o assunto requeria: ‘Aliados deixam Arruda isolado’.

Tudo bem, este foi o início da divulgação do escândalo. E, como sempre acontece, o início de todo escândalo político tende a ser megapotencializado. É assim aqui no Brasil, na Itália, no Reino Unido, no mundo todo. No caso atual, pela primeira vez um governador no Brasil esteve trancafiado por tão longo tempo: 60 dias, de 11 de fevereiro a 12 de abril de 2010. A carceragem se deu na sede da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.

Antes de completar um ano de sua divulgação, o escândalo produziu a cassação de mandatos de diversos deputados distritais, a renúncia de um senador da República, a instauração de diversos inquéritos para apurar responsabilidades de políticos miúdos e graúdos e também de procuradores do Ministério Público do Distrito Federal.

E foi nesse meio tempo que, segundo os advogados de Arruda, em setembro de 2010, o ex-governador concedeu a entrevista ao carro-chefe da Editora Abril. O que as teclas de meu micro querem saber é por que Veja escondeu comprometedora entrevista de Arruda.

Insidiosa, rastejante

Tenho exposto aqui neste Observatório minhas teses sobre a forma e o modus operandi de como a imprensa, a grande imprensa, tem se comportado como agremiação político-partidária. E essa defasagem de mais de seis meses entre a data da entrevista e a data de sua divulgação é de chamar a atenção.

Quais as reais motivações para que fosse esquecida, largada na gaveta de um editor aparentemente displicente? Por onde andaria aquele polvo-caçador-de-corruptos-no-Planalto que não deu a mínima trela para essa entrevista? Ninguém na redação de Veja considerou um mísero grama de valor-notícia para buscar a versão dos ‘novos acusados’? Ou seria mais um desserviço à campanha presidencial de José Serra? Desserviço que, com certeza, cobriria tal campanha de portentosa agenda negativa, incluindo sob suspeição até mesmo o presidente de seu partido.

Todos sabemos que o papel da imprensa é informar a população. Aprendemos isso ainda nos primeiros dias de aula de qualquer curso de jornalismo, mesmo aqueles chamados ‘meia-boca’. Por que à população brasileira foram suprimidas tais informações?

É, não é necessário muitos decênios de madura experiência como analista da política brasileira para entender que dentre as mil possíveis razões para que ocorresse tal ocultação uma delas sobressai, insidiosa, sibilina, rastejante: a entrevista de Arruda, que hoje causa apenas perplexidade, publicada em setembro de 2010 traria em seu cerne forte componente explosivo capaz de desarrumar por completo o pleito presidencial de 2010.

Mas, como dizem nossos oráculos da imprensa… o leitor vem sempre em primeiro lugar.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/03/2011 Luciano Prado

    Eustáquio Fernandes , BH-MG – prof – Meu caro professor, bem-vindo a Terra e ao Brasil. Quer dizer que nós, terráqueos e brasileiros, estamos redondamente equivocados quando afirmamos que a velha e carcomida imprensa brasileira é golpista? Que estamos igualmente equivocados quando afirmamos que essa mesma imprensa, de alcunha PIG, em conluio com forças da direita udenista não tentou o golpe branco contra o governo eleito e democrático de Lula? E que não é da natureza dessa gente, picar, ou seja, tentar o golpe? E que no governo de Dilma – a “terrorista” com ficha publicada da primeira página da Folha – o PIG não vai tentar mais um o golpe midiático? É disso que você nos acusa?

  2. Comentou em 24/03/2011 Diego Mascarenhas

    A história é sempre a mesma: nosso patrão é o leitor, só prestamos contas ao leitor, só temos rabo preso com o leitor. E não foi isso que aconteceu com a entrevista do Arruda: seis meses de atraso para publicá-la, lama pra todo o lado das vestais oposicionistas. Não vou muito longe o fato é que se fosse publicada no calor da luta e antes do primeiro turno nem a Marina, nem o aborto do Serra conseguiriam emplacar um segundo turno. Sai chamuscada Veja e também os jornais do eixo SP/RIO que nem repercutiram a entrevistas mesmo atrasada.

  3. Comentou em 24/03/2011 Diego Mascarenhas

    A história é sempre a mesma: nosso patrão é o leitor, só prestamos contas ao leitor, só temos rabo preso com o leitor. E não foi isso que aconteceu com a entrevista do Arruda: seis meses de atraso para publicá-la, lama pra todo o lado das vestais oposicionistas. Não vou muito longe o fato é que se fosse publicada no calor da luta e antes do primeiro turno nem a Marina, nem o aborto do Serra conseguiriam emplacar um segundo turno. Sai chamuscada Veja e também os jornais do eixo SP/RIO que nem repercutiram a entrevistas mesmo atrasada.

  4. Comentou em 24/03/2011 eustáquio fernandes

    Gente, cadê o golpismo contra o PT da Dilma? Não há? Há, mais a esquerda está deixando ‘prá lá’? Só havia contra o Lula? Ou é a presidente Dilma que não usa o falso pretexto como usava o Lula para buscar a censura? Veja que há presidentes (que zelam pela liberdade de expressão, que não têm medo do contraditório – desse tipo é a Dilma) e presidentes (que não admitem o contraditório, que se consideram deuses portadores da verdade resplandecente- desse tipo foi o Lula.)

  5. Comentou em 22/03/2011 André Abranches

    Veja faz sempre jornalismo ‘de arremedo’ e o que lhe interessa não é a notícia em si mas sim o que pode lhe render bom lucro financeiro. Esconder a entrevista em que José Roberto Arruda detona a caciquia da malfadada oposição ao emergente lulismo foi apenas mais um desses golpes da editora Abril em sua corrida desenfreada para realojar no Planalto figuras insípidas e que não despertam a mínima confiança do povo brasileiro como Serra, Alckmin, Roberto Freire, Gabeira, Aluisio Nunes, Sérgio Guerra. Depois ficam com esse lenga-lenga de que Veja é indispensável, indispen´savel para quê? Para servir como porta-voz despudorado de partido político em vias de extinção? E por que não foi capa os petardos arrudenses? Há quase 6 anos cancelei assinatura de Veja e não me arrependo de ter economizado cada suado centavinho. Foi a melhor coisa que fiz. Obrigado Washington pelo brilhante artigo.

  6. Comentou em 29/05/2006 Victor Hirakuri

    Percebi algumas adaptações no novo visual do OI, como a volta do índice completo, sem a necessidade de chamar cada seção com um clique (prefiro assim).

    Mas uma coisa me chamou a atenção: a barra de título. Ao ler um artigo, deparei-me com um ‘Observatório de Imprensa’ no alto da janela do meu navegador. Ué? O OI mudou de nome? Volto ao topo da página e vejo que não.

    Então algo precisa ser corrigido.

    Saudações.

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