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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1001
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

À espera da próxima tempestade

Por Luciano Martins Costa em 23/09/2008 na edição 504

A imprensa brasileira bordejou o núcleo da crise financeira que assustou os mercados na semana passada, com o anúncio da quebra do banco Lehmann Brothers e outras assombrações, como as negociações para a venda do Merryl Linch para o Bank of America e a estatização de uma das maiores seguradoras do mundo. Mas continua rodando em torno da pergunta que não quer calar: se existe liquidez excessiva no mercado, se o mundo precisa de projetos de desenvolvimento onde o capital é bem-vindo, se existem oportunidades às pencas para aqueles que confiam no sistema a longo prazo, como explicar a sucessão de turbulências?

Alguns jornais trouxeram artigos como a análise do jornalista Alcides Amaral, ex- presidente do Citibank, no Valor Econômico, que, como destacou Alberto Dines neste Observatório, condenou a prática dos bônus milionários para executivos, prêmios esses que estimulam a busca de resultados estrondosos no curto prazo. Destaque também para a entrevista do economista Joseph Stiglitz, publicada quinta-feira (19/9) pelo Estado de S. Paulo, na qual o prêmio Nobel de Economia de 2001 afirma que a queda brusca das bolsas no dia 15 de setembro representou, para o fundamentalismo de mercado, o mesmo que a queda do muro de Berlim significou para a economia socialista de Estado em novembro de 1989.

Ideologias ‘atrasadas’

Descontado o valor metafórico da afirmação de Stiglitz, dadas as diferenças históricas entre os dois acontecimentos, e observado o fato de que os pagamentos de bônus citados por Amaral não seriam um mal em si se as empresas tivessem uma boa governança, convém notar que no corpo principal de suas coberturas, onde se manifesta a orientação editorial, os jornais e revistas nem de longe se preocuparam em aprofundar o debate sobre a roleta em que se transformou o palco que até bem pouco tempo era tido como cenário da peça perfeita pelos adeptos do Consenso de Washington – aquele credo segundo o qual o ‘deus’ mercado, onipotente e onipresente, seria capaz de se auto-regular e promover o crescimento sustentável da economia global sem interferência do Estado. A imprensa admite a ocorrência de procedimentos insanos, mas se recusa a discutir quanto dessa insanidade é parte do modo como funciona o sistema.

Desde o primeiro artigo do acadêmico norte-americano Francis Fukuyama sobre o fim da História – publicado em 1989 e livremente interpretado pela imprensa ao redor do mundo como dogma do século 21 –, a imprensa em geral embarcou na ilusão de que o mercado é um organismo perfeito capaz de se auto-regenerar como o alien do filme famoso, rejeitando de suas páginas e bites, o quanto pode, as manifestações de divergência. Ainda hoje, as páginas de opinião dos diários brasileiros e as seções de entrevistas da mídia em geral acolhem com galhardia os autores que procuram desmoralizar as teses da sustentabilidade – que incluem a responsabilidade social e ambiental do capital e a governança corporativa transparente – como manifestações de ideologias atrasadas.

Incenso no altar do mercado

Na verdade, o que os estudiosos da sustentabilidade estão apontando é um futuro possível para o capitalismo baseado em premissas tão simples como a conveniência das estratégias corporativas e sociais de longo prazo e a contemplação de riscos e oportunidades que os balanços das empresas em geral consideram intangíveis. A boa governança, a responsabilidade socioambiental e a inovação são aspectos da gestão sustentável, não um manifesto anticapitalista. Mas essa premissa parece não caber no ideário dos editores, ou pelo menos da maioria deles.

A revista Veja anuncia, em sua edição desta semana (nº 2079, de 24/9/2008, que Wall Street nunca mais será a mesma. Acerta no título, mas deixa dúvidas quanto à validade das razões que apresenta. A turbulência de 15 de setembro de 2008 não será a última nem a mais grave, segundo alertam os analistas. Depois do momento de maior impacto, as bolsas já ensaiaram uma reação na sexta-feira (19/9), por conta das intervenções coordenadas dos Bancos Centrais dos países que lideram o comércio mundial – outra vez a mão do Estado socorrendo o capital.

As previsões, no fim de semana, eram de uma recuperação parcial ao longo da semana e, com novo ciclo de bonança, seguramente veremos a volta à rotina da queima de incenso no altar do mercado. Até a próxima tempestade.

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