Segunda-feira, 16 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
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IMPRENSA EM QUESTãO > O GENERAL FALOU

A farda que seduz a imprensa

Por Luciano Martins Costa em 22/04/2008 na edição 482

A imprensa ainda não conseguiu explicar, para quem vive nas cidades brasileiras, o que realmente acontece na região da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. A rigor, o leitor está longe de entender a importância econômica da produção local de arroz, dada a distância entre aqueles arrozais e os grandes mercados consumidores, bem como os efeitos do negócio no desenvolvimento da região. Da mesma forma, o noticiário está devendo algum esclarecimento sobre a influência das reservas indígenas de grandes extensões – ou de latifúndios, produtivos ou não – sobre a questão da soberania nacional nas fronteiras.

O que os jornais e as revistas demonstraram, nos últimos dias, foi a permanência de certa vocação da imprensa para babar na farda dos militares – e, neste caso, as exceções confirmam a regra. A palestra do general-de-exército Augusto Heleno Pereira, comandante militar da Amazônia, no Clube Militar do Rio, ocorrida semana passada, ganhou espaços generosos nos jornais e uma página de elogios na revista Veja. O general Heleno, que já havia concedido entrevista à revista Época na primeira semana de janeiro deste ano, falando sobre o mesmo tema da vulnerabilidade das fronteiras amazônicas, foi em seguida advertido pelo ministro da Defesa, a pedido do presidente da República.

O Clube Militar

No final dos anos 1980, os jornais davam grande importância ao que se dizia no Clube Militar. Alguns colunistas até costumavam funcionar como canais para ‘advertências’ ou manifestações de desconforto da elite das Forças Armadas com o ritmo do processo de redemocratização do país, manifestadas regularmente sobre o chão de azulejos quadriculados na sede do clube na Avenida Rio Branco.

O comandante da Amazônia, que adquiriu boa reputação profissional como o primeiro chefe da missão de paz da ONU no Haiti, tem uma influência considerável sobre a opinião da tropa. Mas o que não é assim tão considerável é o peso da opinião da tropa – e assim deve ser no regime democrático. Ao amplificar as críticas do militar em temas complexos como a política indigenista e a questão da gestão territorial do país, a imprensa produz certo desequilíbrio na balança dos poderes. E revela certo saudosismo que não é compatível com os tempos que correm.

Por essas e outras é que surpreende, de certa maneira, a entrevista publicada pelo Estado de S.Paulo no caderno ‘Aliás’ de domingo (21/4). O entrevistado, Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é apresentado como o mais influente antropólogo do Brasil. Tido, pelo pensador francês Claude Lévy-Strauss, como o fundador de uma nova escola na antropologia, Viveiros de Castro distribui críticas severas aos opositores da criação de grandes reservas, afirmando que essas áreas não aumentam a vulnerabilidade das fronteiras.

Ele observa, por exemplo, que os produtores de arroz, em cujo nome se levantam os inimigos da demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, são apenas seis, e lembra que ninguém se preocupou em questionar o fato de que empresas e cidadãos estrangeiros são donos de porções consideráveis do território nacional, especialmente na Amazônia.

Vale a leitura. E vale também a observação de que, quando quer, um jornal pode passar por cima de suas próprias convicções e surpreender o leitor com reflexões que o fazem entender que nem tudo é o que parece.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/12/2009 Francisco José Antonio Sebastião Nobre de Almeida Nobre de Almeida

    Olá

    Tentei enviar um email para o Mestre Zuenir, não conseguindo estou tentando chegar a ele através desse Observatório da Imprensa, se puderem me auxiliar vocês estarão prestando um serviço também ao país. A mensagem segue abaixo:

    Caríssimo Zuenir

    Você já deve estar exausto de receber mensagens iniciadas com elogios, mas quem manda ser celebrfdade?…rs. Na sua coluna de hoje você fala de questões ambientais e da preocupação com o futuro dos nossos filhos e netos, tenho um lindo!

    Se eu tivesse a vez e voz que você desfruta na imprensa estaria gritando aos quatro cantos (tenho tentado), que na contramão da poluição nacional já existe e está sendo utilizada no Brasil inédita bioresina para industrialização de material plástico, como sacolas (as mesmas dos supermercados), copos (uma salvação), canetas e embalagens em geral, reciclável, compostável e 100% biodegradável porque produzida a partir de fontes renováveis, como trigo, milho e outros cereais.

    Ela é o grande divisor de águas entre o atual plástico oriundo do petróleo, demonizado pelo mau uso, nocivo e poluente, e o novo tempo de sustentabilidade e compromisso ambiental.

    Quem sabe com a sua consciência de cidadão e de avô, você possa ser uma possante voz com essa boa nova?

    Um abraço de admirador.
    Nobre de Almeida
    PS. Se desejar certificados de comprovação, posso mostrar.
    (21) 3627-4258

  2. Comentou em 25/04/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Perfeito, Sergio. Ótima a sua colocação. Fiquei sabendo hoje que os madeireiros querem acabar com a lei anti-desmate. A alegação é que esta lei leva ao desemprego na região amazônica. Entenda-se, então, que para o país se desenvolver precisa pôr meio dúzia de índios malandros nas fábricas a produzir para o grande capital e que devemos dinamitar a floresta em busca de minérios e derrubar suas árvores para dar ‘empregos’ (que significa lucros). E eu, perdendo tempo, ensinando meus filhos a respeitar o meio ambiente. Talvez se eu dissesse a eles que devemos acabar com a cultura dos povos da floresta e transformar a Amazonia em uma grande plantação de soja e pasto pra gado, eles viveriam num país ‘desenvolvido’.

  3. Comentou em 24/04/2008 Thiago Conceição

    Deixem de ser tacanhos! Não se luta apenas com armas. O problema não é que se alguém desejar fazer a independência dos índios deverá ter um exército que possa fazer frente ao do Brasil, MAS SIM QUE a independência já foi assinada pelo próprio Lula. Quando já estiverem bem instalados e com uma infraestrutura e economias independentes das do Brasil postas em prática eles apenas pedirão o que já fora definido! Com o apoio da ONU, da opinião pública internacional, ONGs, pessoas ricas interessadas em explorar a região, etc! Que coisa de boçal de achar que só com armas se resolvem as coisas, o indigenismo internacional nocauteou o Brasil sem dar um tiro e quando vocês se derem conta o mundo inteiro estará contra nós exigindo independência para os índios.

  4. Comentou em 23/04/2008 antonio carvalho

    Sugiro aos palpiteiros da zona sul, que entre um gole e outro de 12 anos dão sua opinião sobre a Amazônia, a darem um pulinho por lá. O General está certíssimo. Tem gente entregando a rapadura, só não está claro ainda como é o negócio. A Vale do Rio Doce nós sabemos como foi. Agora a outra turma (que era do contra) começa a entregar a Amazônia. A surpresa da imprensa é porque ainda existe gente preocupado com o Brasil, coisa que o jornalista parece não estar.

  5. Comentou em 23/04/2008 Marco Antônio Leite

    Senhor Conceição estudando detalhadamente sua postura de comentarista amador, fica patente que você é um petista dissimulado daqueles roxo ao extremo. Não se acanhe, abra o jogo e assuma sua verdadeira identidade. Abraços socialistas livres!

  6. Comentou em 22/04/2008 Carlos N Mendes

    As manifestações políticas de militares, hoje no Brasil, ainda são poucas e tímidas – o regime militar ainda é algo fresco nas mentes das pessoas. Porém, a fala do general, que foi em tom opinativo e moderado, ligou os sininhos em algumas cabeças, como um repique de LSD décadas depois da última lambida. Muita gente por aí está esperando o retorno do Messias, que deve vir de alguma caserna e salvar o Brasil dos malditos vermelhos. O destaque dado à fala do Comandante foi um reflexo desse messianismo que, tirando o Jair Bolsonaro, tem poucos seguidores de destaque. Acredito que a opinião da caserna deve ser respeitada e sempre ouvida, principalmente quando se trata de soberania, mas soluções radicais e impositivas devem ser sempre fortemente contra-argumentadas.

  7. Comentou em 12/01/2005 Heitor De Paola

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