Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > PLANO COLLOR, 20 ANOS

A história reescrita

Por Luciano Martins Costa em 15/03/2010 na edição 580

O Globo dedicou a manchete do domingo (14/3) a registrar a passagem dos vinte anos do Plano Collor, aquele que ficou na História do Brasil como o maior confisco de patrimônio privado por parte do governo.


Sob o título ‘Uma ferida aberta’, a ampla reportagem de oito páginas começa pelo trauma do congelamento dos depósitos bancários, que rendeu 900 mil ações na Justiça, cujo ganho de causa poderia, segundo o jornal, desestabilizar o sistema financeiro nacional.


Relata ainda as reuniões secretas realizadas em Brasília e Roma, quando o então presidente eleito Fernando Collor de Mello consultou economistas e banqueiros, entre eles Daniel Dantas, que duas décadas depois viria a celebrizar-se por sua ficha policial.


A reportagem do Globo traz ainda uma inevitável entrevista do ex-presidente e outra, mais instigante, respondida por email pela ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, que vive em Nova York.


Políticos e tecnocratas


Collor, que provocou, além do confisco, um processo atabalhoado de privatizações, causando graves distorções no sistema econômico nacional, hoje defende a maior presença do Estado na economia e se diz arrependido de ter feito o bloqueio das contas bancárias.


Zélia Cardoso de Mello, na época uma economista inexperiente, prefere se queixar de ingratidão e falta de reconhecimento e tenta defender o plano econômico, que na sua opinião foi um ato de ousadia necessário.


O ex-ministro Delfim Netto, também entrevistado pelo Globo, afirma o contrário: foi uma experiência de laboratório e os ratinhos eram os brasileiros, comparou.


No meio da longa cobertura, uma revelação interessante: a inflação de 80% que se debita ao governo de José Sarney, que se encerrava em 1989, foi agravada pelo fato de a equipe econômica que deixava o governo ter aceitado aumentar os preços pouco antes da posse de Collor, para que este pudesse fazer o congelamento planejado.


O último ministro da Economia de Sarney, Maílson da Nóbrega, mesmo sem ter tido nenhuma reunião com a equipe que o sucederia, concordou com o realinhamento de preços e a inflação chegou aos 80% mensais.


A reportagem tenta dar algum caráter positivo às medidas econômicas do governo Collor, como no caso do projeto de privatizações, que quase quebrou a indústria nacional.


Visto de longe, vinte anos depois, o retrato é o de um grupo de políticos e tecnocratas arrogantes que virou o país de pernas para o ar e saqueou as economias de milhões de brasileiros.

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