Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE COM A BOLÍVIA

A imprensa alimenta radicalismos

Por Luciano Martins Costa em 09/05/2006 na edição 337

A imprensa latino-americana ainda pensa em preto-e-branco, linearmente e em apenas duas dimensões. Lentamente, mas de forma inexorável, essa visão antiquada, mecanicista e principalmente irresponsável sobre o funcionamento do mundo mantém aquecidos na sociedade continental os ovos de duas serpentes que, historicamente, estão destinadas ao auto-aniquilamento. E com o triunfo suicida dessas duas serpentes corremos o risco de ver naufragarem importantes conquistas individuais e sociais, entre as quais a própria democracia.

A perspectiva resumida acima pode ser contraposta a esta outra, também válida: a imprensa latino-americana é antiquada, voltada para o passado, comprometida com forças políticas e econômicas que historicamente se opõem ao progresso social, mas a complexidade da sociedade contemporânea traz em si mesma uma energia que se impõe como um tsunami sobre todas as âncoras que tentam obstruir o processo evolutivo da história.

Na primeira visão, somos induzidos a acreditar e temer que de fato ocorre no continente uma ‘onda vermelha’ representada por governantes populistas, esquerdistas, nacionalistas, cuja ação ameaça isolar das grandes oportunidades globais os 36 países da região e seus 517 milhões de habitantes. O noticiário sobre a recente decisão do governo boliviano de nacionalizar suas reservas de gás, predominante na grande imprensa regional, nos induz a enxergar no horizonte o apocalipse do fundamentalismo indígena.

Na visão oposta, o processo de globalização, até aqui conduzido de maneira opressiva e irresponsável – observem-se as enormes dificuldades dos organismos multilaterais para fazer cumprir em tempo aceitável os protocolos de defesa da biodiversidade, da diversidade cultural e dos direitos fundamentais da sociedade civil nas atividades do capital internacional –, acaba provocando o fenômeno recente de ascensão de novos líderes nacionalistas. Ou seja, quanto mais agressivo e menos respeitoso em relação aos direitos dos povos, mais o capitalismo globalizado produz seu próprio antivírus.

Destaque-se, em meio à histeria e à irracionalidade geral, a esclarecedora reportagem da revista CartaCapital e a ponderada inteligência do comentarista Mário de Almeida, na TV Gazeta de São Paulo. Almeida brindou os privilegiados telespectadores do programa conduzido pela apresentadora Maria Lídia, na noite de sexta-feira (5/5), com uma análise simples e brilhante: a Bolívia está tentando valorizar seus ativos naturais, a Petrobras tem acumulado lucros suficientes para absorver o impacto do aumento do preço do gás sem onerar seus clientes, a oposição faz oposição e os diplomatas do governo anterior têm seu próprio viés, que nunca será imparcial.

Pensamento conservador

Faltou lembrar que as reservas de gás de Camisea, no Peru, são uma fonte alternativa contra o risco de um ‘apagão’ que estará disponível já em 2007. Que o Brasil é importante parceiro dessa iniciativa, cujas obras foram iniciadas em 2004, com a participação brasileira no capital, no projeto e na execução. E que o temor dessa concorrência iminente pode ter motivado mais a atitude de força do presidente boliviano Evo Morales do que suas conhecidas premissas ideológicas.

Mas a imprensa prefere acenar com o fim do mundo. Mesmo se declarando liberal, o que a conduziria a concluir que, no final, o mercado imporá algum equilíbrio nas negociações em torno do preço e da disponibilidade de gás, nossos formadores de opinião correm para trás. Porque a grande imprensa latino-americana não chega a ser liberal. Sua constituição ideológica é autocrática, sua visão econômica é anterior ao liberalismo.

Contempla melhor os interesses da grande imprensa continental a visão que se alimenta na superficialidade de obras como o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, escrita pelo cubano Carlos Alberto Montaner em parceria com o peruano Alvaro Vargas Llosa e o colombiano Plinio Apuleyo – todos eles jornalistas, diga-se de passagem.

A obra foi concebida como um panfleto de autogozação, tendo sido, os três autores, jovens de classe abastada simpatizantes da esquerda. O que era apenas um deboche acabou se convertendo em vade mecum do pensamento conservador latino-americano, citada como referência por articulistas que dão todos os sinais de nunca o haverem lido. Só isso explica o fato de intelectuais e jornalistas ligados ao PSDB usarem o livro como referência, desconsiderando que os autores alinham o sociólogo Fernando Henrique Cardoso entre os grandes formadores da suposta imbecilidade dos latino-americanos.

Stalinismo e integralismo

A imprensa escolhe o viés do conservadorismo e da exacerbação da intolerância, para se fazer representante de qualquer coisa relevante. Mas também por ignorância de seus próceres, que seguem linear e planamente desconhecendo ou desprezando a natureza das complexidades que governam as relações do nosso tempo, mas também por pura irresponsabilidade.

Fechados na bolha dessa mídia, que exclui o contraditório e não enxerga a diversidade de visões com que se pode hoje ver o mundo, os cidadãos que têm acesso ao conhecimento podem estar progressivamente se afastando de valores que nos ajudaram a iniciar a reconstrução da democracia no continente e a alcançar certa modernidade em nossas sociedades.

Dentro dessa bolha podem estar vicejando as duas serpentes da intolerância: o stalinismo que se infiltra nas demandas por mais justiça social, dentro e fora dos governos da região, e o fascismo que se nutre do medo essencial da classe média – o horror ao coletivismo. Não é por puro senso de oportunidade que os herdeiros ideológicos de Plínio Salgado estão em campanha de arregimentação para seu movimento integralista em São Paulo. Os dois extremos da insanidade política sabem que o caldo de cultura pode estar pronto para o triunfo da estupidez.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/05/2006 Carlos Wagner Campos

    Quem é a imprensa, quem é a midia?
    Ela é multiforme. É o que cada profissional acha e sente. Não é possível falar que a imprensa é isso ou aquilo, porque ela é de tudo um pouco. Há jornalistas, empresários, radialistas, comentaristas, etc, etc, pastores, políticos, artistas, crpiticos disso ou daquilo, Qualquer um que tem um palanque ou uma tribuna, se arvora a dizer o que bem entende, e dependendo do poder do seu veículo, opiniões viram sentenças, reputações são jogadas ao vento e a verdade é a primeira prejudicada.
    Porém, a imprensa é necessária. Daí a dizer que ela é senhora de seu próprio julgamento, como acontece quase que sempre, de forma corporativa, e com o poder que tem, isso se torna massacrante para a sociedade que quer se informar. Quem controla isso? É preciso, com criatividade social, que sejam criadas instituições capazes de equilibrar essa mixórdia.
    O observatório da imprensa é um bom caminho para que se possa infiltrar nesse meio e se ter voz. Porém, ele é um orgão também, majoritariamente de jornalistas.
    Carlos Wagner

  2. Comentou em 13/05/2006 Geraldo Alves S. Júnior Alves

    Sempre a imprensa está endossando ou rejeitando correntes políticas, para que estas no embate se sobrponham umas as outras, e assim não haja uma estagnação. Essa questão com a Bolívia é delicada, querem o que ? que o Brasil declare guerra, e que Chaves, diga que apoia a Bolívia, e assim se estabeleça aquí uma nova zona de conflito ? Essa corrente é a corrente do Sr Buche, e com certeza tem seus adeptos por vários lados, pois é patrocinada pelos fabricantes de armas, que é uma atividade que movimenta muito dinheiro. O Brasil será firme na preservação dos interesses ‘nacionais’ sem perder a sua condiçãoi de líder, será essa a corrente da diplomacia Brasileira ?

  3. Comentou em 10/05/2006 André Da Silva

    Concordo com as opiniões deste jornal de debates sobre a cobertura da imprensa brasileira> O desespero bate forte na mente da oposição. O Brasil não está em situação mais favorável ou em condições de explorar nossos irmãos latinos (como FHC pensou que podia fazer, replicando o modelo neoliberal de exploração no continente). Somos mais cumplices da expropriação capitalista do que outra coisa: olhe para os 500 anos de história da Bolivia (veja artigo de Eduardo Galeano no site da CUT), qualquer semelhança com nossa história não é mera coincidência.
    LULA parabéns. Faça mais pelos brasileiros: nacionalize a Vale do Rio Doce. Nosso minério também é entregue a preço de banana ao japoneses e seus sócios tucanos. O minério é nosso. Evo Morales para presidente do Brasil!

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