Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DO LEITOR > COMPROMISSOS ESQUECIDOS

A imprensa aloprou

Por Alberto Dines em 01/12/2009 na edição 566

A Folha de S.Paulo consegue se superar a cada nova edição. Mais surpreendente do que a publicação do abjeto texto de Cesar Benjamin (sexta, 27/11), sobre o comportamento sexual do líder metalúrgico Lula da Silva quando esteve preso em 1979, foi a completa evaporação do assunto a partir do domingo (29), exceto na seção de cartas dos leitores.


Num dia o jornal chafurda na lama, dois dias depois se apresenta perante os leitores de roupa limpa e cara lavada, como se nada tivesse acontecido. E pronto para outra.


Não vai pedir desculpas? Não pretende submeter-se ao escrutínio da sociedade? Não se anima a fazer um debate em seu auditório e depois publicá-lo como faz habitualmente? E onde se meteram os procedimentos auto-reguladores que as empresas de mídia prometem há tanto tempo quando se apresentam como arautos da ética? Não seria esta uma oportunidade para ensaiar algo como a britânica Press Complaints Comission (Comissão de Queixas contra a Imprensa)?


E por que se cala a Associação Nacional de Jornais? Este não é um episódio que põe em risco a credibilidade da instituição jornalística brasileira? Um vexame destas proporções não poderia servir de pretexto para retaliações futuras? Ficou claro que depois do protesto inicial (‘Isto é uma loucura!’), o presidente Lula encerrará magnanimamente o episódio. A Folha, em compensação, enfiará o rabo entre as pernas.


Ninguém estrila


É bom não perder de vista o fato de que esta lambança de um jornal isolado será fatalmente estendida à mídia como instituição. E logo alimentará as inevitáveis desavenças da próxima campanha eleitoral. Isto não interessa aos que desejam preservar o resto de republicanismo desta imensa republiqueta nem àqueles que levam o jornalismo a sério e não querem vê-lo desacreditado, como acontece na Venezuela.


A verdade é que a imprensa brasileira aloprou, levou a sério sua proximidade com o show-business; a obsessão pelo espetáculo e pela ‘leveza’ levou-a para o âmbito da ligeireza, vizinha da irresponsabilidade.


Por outro lado, o controle centralizado das redações associado ao terror de iminentes demissões em massa desestimula qualquer cautela e a mínima prudência. Ninguém estrila ou esperneia. Os jornalistas brasileiros, apesar de tão jovens, andam encurvados – de tanto dar de ombros e não importar-se.


Ano penoso


Há exceções, tênues, percebidas apenas pelos especialistas, porque nossa mídia – ao contrário do que acontece nos EUA e Europa – faz questão de apresentar-se indiferenciada, uniformizada, monolítica, sem nuances.


Este 2009 foi um ano penoso para a Folha, o jornal talvez prefira esquecê-lo. Mas seus parceiros de corporação deveriam refletir sobre o perigo de atrelar uma indústria ou instituição aos faniquitos juvenis de quem ainda não conseguiu assimilar os compromissos públicos de uma empresa privada de comunicação.


***


Em tempo: O recuo da Folha na edição de terça-feira (1/12) é ainda mais vergonhoso do que a denúncia da sexta-feira anterior. Colocar na boca do pivô do episódio que ‘o artigo de Benjamim é um horror’ é uma manobra capciosa, covarde, para responsabilizar um articulista delirante e inocentar diretores irresponsáveis. A Nota da Redação, na seção de cartas, está atrasada quatro dias: pode satisfazer as dezenas de missivistas que se manifestaram, mas despreza os milhares que, horrorizados, leram o resto do jornal.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 03/12/2009 Marcelo Idiarte

    Rodrigo, para algumas pessoas o inverossímil sempre caminha na frente. As teorias, estas, apenas marcham atrás.

  2. Comentou em 03/12/2009 vinicius dias

    Caro Dines, a Imprensa Nacional, eu diria que os maiores veiculos em ambito nacional(tv, Radio, jornais), esta seguindo mos passos da Imprensa Venezuelana pré Chaves, ewsta se tornando um partido politico, esta virando tribunal, juiz e quem sane Deus, a Hist´ria quando se repete é como farsa

  3. Comentou em 03/12/2009 Rodrigo Saraceno

    Imagine a cena: andando com um amigo na rua, passa uma dama formosa. Seu amigo, em um comentário calhorda juvenil, lhe pergunta ‘E aí, você comia?’, daí você responde ‘velhão, tou comendo você, de peruca loira, na lama, e não vou naquela alí?’. Daí, dezessete anos depois, o primo do seu amigo, que por acaso estava acompanhando vocês, escreve para a Folha de São Paulo e diz: ‘fulano confessou a seu amigo que canibalizaria uma moça, e mais: confessou o desejo de seviciar o próprio amigo, em meio à sarjeta’. Inverossímil, né?

  4. Comentou em 02/12/2009 Rubens Costa

    Sr Ângelo, o que está em questão é a tentativa de um jornalista de apresentar uma troça como se fora uma confissão de um crime. Como o meu tempo é curto, dou-lhe apenas dois argumentos: 1) se fosse uma confissão, o crime teria existido de fato. Mas a suposta vítima o nega e o delegado e todos os presos dizem que é impossível que ele tenha ocorrido nas condições da prisão. Logo, fica desprovida de base lógica e material a versão de que o narrado era uma confissão; 2) uma das testemunhas do relato diz explicitamente que o contexto era de troça, desmentindo a versão de Benjamim e a outra diz que sequer lembrava-se do relato, o que significa que o dito era sem importância. O que mais que você quer que eu diga? Não sou adepto de linchamentos morais, ainda mais quando os motivos oferecidos não resistem sequer a uma análise minimamente inteligente.

  5. Comentou em 02/12/2009 Hugo Rosa

    O fato de uma pessoa cometer um erro, isso não apaga o erro de outros. Se erraram ambos devem corrigir seus erros perante a lei ou ética, mas isso não os impede de alertar sobre os erros dos outros. Esse tipo de pensamento que leva a atitudes como faço sabendo que é errado porque todos fazem. Ou perdoar um crime ao denunciar outro, o benefício da denuncia deveria ser separado da punição pelo crime. Desta forma não acredito que a publicação anterior impeça o OI de alertas sobre erros da imprensa e mídia.

    Agora sobre a atitude, não considero iguais as questões do OI de da Folha, a uma diferença de extrema importância a veracidade dos fatos descritos.

    Concordo que filhos fazem parte da vida particular, sendo errado envolvê-los em questões públicas. Mas, a atitude de não reconhecer um filho é da própria pessoa pública, FHC no caso, e suas atitudes são de interesse das pessoas já que as decisões de pessoas públicas afetam a muitos outros. Não li o artigo do OI, então não sei se eles passaram da linha divisória entre a atitude de FHC e a vida particular dele com o filho.

    Concluo apenas reforçando, lembre-se que erros não apagam erros. Um mentiroso pode dizer verdades às vezes. Para ter um melhor entendimento sempre ouço várias opiniões. E a mim parece que a Folha errou feio.

  6. Comentou em 02/12/2009 Silnei Soares

    Parabéns, Dines! Finalmente, você viu o óbvio. Pena que tardia e cinicamente: não se trata de um caso isolado, como você, ‘Observador’ que é, já deve ter percebido.
    Sei não. Esta indignação tardia não me soa convincente.

  7. Comentou em 02/12/2009 Guilherme Rodrigues Júnior

    Excelente artigo! Acho bastante difícil dissociar o jornalismo da posição política pessoal, o que se comprova pelos comentários abaixo. Vamos ser francos e sinceros: será que os que não acham que a Folha ‘pisou na jaca’ teriam a mesma opinião se o acusado de estuprador fosse FHC, Serra ou Aécio?

  8. Comentou em 02/12/2009 Aloísio Morais Martins

    Espero que certos donos de jornais e revistas deixem de achar que apenas a internet e a crise econômica é que afugentam leitores de suas publicações, depois de mais esta imbecilidade cometida pela Folha. Haja paciência para tanta imbecilidade! Pelo andar da carruagem, a Folha só vai servir para limpar o rabo de seus Frias.

  9. Comentou em 02/12/2009 Dimas Trindade

    O problema não é a questão moral que envolve o filho de FHC. Trata-se aqui das relações do ex-presidente e a empresa de comunicação para quem a mãe trabalhava.

  10. Comentou em 01/12/2009 Luciano Prado

    É o segundo artigo do Dines depois que lhe tiraram os tubos. Aleluia! O Dines voltou à vida. Quem ganha com as críticas é a própria imprensa que, observada a vera, passa a ser mais cautelosa e profissional. Espera-se. E a população que ao saber da existência de observadores e críticos da imprensa sente-se confiante. Ou seja, todos ganham.

  11. Comentou em 01/12/2009 Lica Cintra

    Cesar Benjamin transformou uma piada de mau gosto em uma tentativa de estupro, ai está a desonestidade do articulista e a pisada de bola da FOLHA ao publicar tamanha insensatez. A baixaria se alastra pela internet, Lula é chamado de pedófilo, estuprador e comedor de meninos. O estrago não tem volta e a FOLHA jogou o princípio básico de apuração das informações no lixo.

  12. Comentou em 01/12/2009 Lica Cintra

    Cesar Benjamin transformou uma piada de mau gosto em uma tentativa de estupro, ai está a desonestidade do articulista e a pisada de bola da FOLHA ao publicar tamanha insensatez. A baixaria se alastra pela internet, Lula é chamado de pedófilo, estuprador e comedor de meninos. O estrago não tem volta e a FOLHA jogou o princípio básico de apuração das informações no lixo.

  13. Comentou em 01/12/2009 angelo azevedo queiroz

    Edison Lozano, quer dizer que “deixar de reconhecer um filho” é algo pelo que FHC deveria ter pedido desculpas à sociedade, isto é , a mim e ao senhor! Entendendo porque o senhor me acha um figura curiosa!. Preste atenção, vou tentar lançar alguma luz na sua cabeça: Filhos (de FHC e de qualquer pessoa) são uma questão de vida privada e, em princípio, nada têm a ver com questões de governo ou de estado.O uso da vida privada e do nome de familiares inocentes e alheios ao jogo do poder é uma torpeza e uma baixeza inaceitáveis. (algo semelhante aconteceu com o atual presidente, lembra-se.?). Se o senhor não concorda comigo ainda é porque o senhor desconhece os códigos da civilização e aí não adianta eu tentar explicar mais do que isso, porque que o senhor não vai conseguir entender mesmo. Cobro de Dines um mínimo de coerência. Na condição de observador da imprensa, ele se desqualificou para criticar a Folha ao publicar aqui no OI o texto de Leandro Fortes, que, aliás, não é jornalista do OI não viu, é da carta capital.

  14. Comentou em 01/12/2009 Morris Abadi

    Então tá. Toda a imprensa brasileira, sem nenhuma excessão, já fez isto, de uma forma ou de outra. Cansamos de ver a imprensa destruir reputações e vidas, e a coisa fica por isso mesmo.
    Ou todos se desculpam de verdade na primeira página e cria-se um instrumento efetivo de punição a irresponsabilidades, ou, como de hábito, o assunto vai ao arquivo. Aliás, assunto este virrelevante.

  15. Comentou em 01/12/2009 José Arlindo S. DeSouza

    Perzado Dines,

    Espero que além da FSP, outros órgãos que se dizem sérios também levem a sério essa sua preocupação com a responsabilidade que a média como um todo (jornais e revistas, rádios e TVs) tenham com a sua própria liberdade. Porque liberdade de imprensa ou de informação não é o que a grande média brasileira tem exercido. E isso vai, como você bem disse detonála mais cedo ou mais tarde.
    Se queremos que o Brasil continue respeitado pela maioria das nações do Mundo como está sendo hoje, a nossa média tem um grande papel a cumprir, informando o seu leitor/espectador/ouvinte dqui e de alhures sobre o que ocorre VERDADEIRAMENTE e não publicando mesquinharias e mentiras para assassinar reputações.
    Meias-verdades muitas vezes são mais nocivas que mentiras inteiras e a partidarização de um órgão de informação pública só é respeitável se explicitamente informado ao público que o recebe.
    Um abraço e parabéns por mais um excelente artigo.

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