Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

A imprensa e a economia bipolar

Por Luciano Martins Costa em 23/09/2008 na edição 504

Depois da passagem da cavalaria ligeira, que foi como saudou a revista Veja o anúncio da intervenção do governo Bush no epicentro americano da crise financeira global, o desânimo e o pessimismo voltam a dominar o noticiário. Os outros países ricos se recusam a acompanhar a política dos Estados Unidos e os emergentes fingem que o problema não é deles.


A frase do presidente Lula, quando lhe perguntaram sobre a crise, repercute na imprensa internacional: ‘Crise? Perguntem ao Bush’, disse o presidente brasileiro. E a imprensa lhe cobra ao menos a gratidão pela ajuda financeira que o Brasil recebeu há dez anos dos Estados Unidos.


Mas a julgar pelo noticiário de terça-feira (23/9), não parece que solidariedade seja um valor apreciado na economia globalizada. O anúncio do governo americano de que vai socorrer as instituições financeiras sob maior risco para evitar o agravamento da crise não encontrou apoio nem nos seus principais parceiros de negócios. Governantes da Europa e da Ásia consideram que medidas como as adotadas pelo governo Bush não são necessárias. E analistas avaliam que são insuficientes para evitar a recessão nos Estados Unidos.


Memória curta


As medidas anunciadas na sexta-feira (19/9), que transformaram o pânico da semana em um curto período de euforia nos mercados, agora enfrentam as críticas da oposição democrata no Congresso americano. O que era alívio volta a se transformar em apreensão.


O noticiário vai se desenrolando diante dos olhos dos leitores como uma novela sem fim. E o leitor atento se pergunta: será que a imprensa não tem outros recursos que não sejam reproduzir declarações, depois desmentir declarações, embarcar na euforia ou na depressão do mercado, sem questionar quem diz o que, quem anuncia o apocalipse ou a redenção final?


Salvo um ou outro articulista, o noticiário ainda não esclarece, de uma vez por todas, que os bancos que agora vão à bancarrota são os mesmos que ditaram as regras de políticas econômicas por aqui durante muito tempo. E muitos dos analistas que hoje denunciam a irresponsabilidade na concessão de créditos são os mesmos que celebravam a farra financeira há poucos meses.


***


A popularidade de Lula


Por aqui, o presidente da República comemora mais uma pesquisa na qual se revela sua popularidade ainda em ascensão. O governo de Lula alcançou 68,8% de avaliação positiva, segundo o levantamento CNT/Sensus, e a avaliação pessoal do presidente subiu para 77,7% de aprovação.


Os números, segundo os autores da pesquisa citados pelos jornais, revelam que a população brasileira, de modo geral, está satisfeita com o desempenho da economia e percebendo o efeito das políticas sociais.


Os jornais parecem aceitar como rotina os resultados de pesquisas que mostram a escalada da popularidade do presidente. Nenhum dos grandes diários deu muito destaque à mais recente avaliação, e apenas a Folha de S.Paulo deu atenção ao fato de que Lula aparece como a maior influência sobre os votos nas eleições municipais de outubro. Segundo a pesquisa, mais de 44% dos entrevistados admitiram que votariam no candidato apoiado por Lula.


Zonas proibidas


A imprensa deveria dar mais atenção a esse fenômeno. Em primeiro lugar, porque a aprovação popular não significa que o governo acerte sempre, ou que os acertos que garantem a popularidade sejam uma estratégia válida para o longo prazo. Por outro lado, o descolamento entre a figura do presidente e o seu governo começa a aparecer em números consideráveis, o que indica uma tendência à personalização do chefe do Estado, acima de seus ministros e separado do seu partido.


Ao mesmo tempo, o resto do noticiário revela a persistência de problema sociais graves, que a celebrada política econômica não consegue amenizar, como a violência nas zonas dominadas pelo crime organizado.


A popularidade do presidente, claramente baseada na maior capacidade de consumo constatada pelos mais pobres e pela estabilidade que proporciona tranqüilidade aos mais ricos, não é garantia de que tudo vai bem.


Onde as coisas vão muito mal, nem a polícia consegue entrar. Muito menos os pesquisadores e suas planilhas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/09/2008 Thiago Conceição

    ‘Thiago de Campinas Os programas sociais não são para erradicar a pobreza,porque num sistema capitalista o qual é o que temos no nosso país isso é impossível.Os mesmos servem para amenizar e ajudam muito quem precisa,’ Hahaha, em um sistema socialista seria possível? No socialismo todos são iguais, iguais na miséria, com a exceção da elite burocrática que usufrui de todas aquelas coisas que o malvado capitalismo produz! Tal ‘distribuição de dinheiro’ serve para ajudar as pessoas que precisam, mas a única métrica que pode ser usada para medir o seu sucesso é o de quantas pessoas deixaram de recebê-la por ter subido socialmente. Quantas o governo Lula ajudou a sair da miséria e a andar com as próprias pernas? ZERO. Bolsas não são solução para nada, são apenas um bandaid populista a e uma forma de comprar votos. Você pode notar que jamais é citada a quantidade de pessoas que cresceram socialment e deixaram de precisar da mesada, sempre citam a quantidade total de beneficiados, como se isso indicasse sucesso de alguma coisa.

  2. Comentou em 24/09/2008 Jose de Almeida Bispo

    Meu caro Costa, não nos desinforme. Quem Clinton salvou em 1998 não foi ao Brasil, e sim a reeleiçao de FHC. Não fosse o socorro americano e o empresariado que vivia em orgasmos múltiplos um pouco antes teriam defenestrado-o do Planalto. O Brasil, meu caro, como alegou alguém aqui e antes, ficou com os juros pra pagar. Seja factual. Mesmo que não goste do Lula, não esconda o desastre fernandino-tucano.

  3. Comentou em 23/09/2008 Lucas Artur

    A maioria dos prefeitos do Brasil realmente vem surfando, nas costas do governo do presidente, com indeces assustadores de popularidade. Realmente tem muita coisa que melhorar, mais que o governo do presidente, vem transparecendo muita coisa ao cidadão isso não ha como negar. E outra a locomotiva do mundo parece estar sem carvão, e nunca nos ultimos 200 anos o mundo foi tão independente dos EUA. A hisstória mostra que os imperios vem e vão, parece que é isso que esta acontecendo com os norte americanos.

  4. Comentou em 23/09/2008 Beatriz Paula leite

    Sim, realmente não podemos confiar às cegas na imprensa. É muita ingenuidade acreditar que simplesmente tudo vai bem ou mal, porque alguém disse, sem fazer um estudo sério sobre isso e mesmo refletir sobre o assunto, emtodos os aspectos: político;cultural; social e econômico. A prova é, assim como diz luciano, aquelas mesmas pessoas que apoiavam certas ações no passado hoje as condenam, mudando de opnião de acordo com seus interesses. Os programas socias de Lula por exemplo, no começo eram muito criticados, principalmente por demandaram uma quantidade do dinheiro público para a população e agora, com a economia estabilizada e a divulgação de que mais pessoas sairam da pobreza ( pesquisa feita com dados nem tanto confiáveis), a população sente-se melhor e os meios de comunicação divulgam que estamos bem. No entanto, é claro que ninguém fala que estes mesmos programas sociais não levam tanto dinheiro à população, nem melhoram a educação pública, a saúde e geram mais empregos, são solução de curto prazo, que garantem 1 pão na mesa das famílias, mas assim que a economia desacelerar, um outro governante não quiser mais fornecer ou algo do tipo, logo voltaram à mesma situação, já que há investimento no crescimento intelectual/cultural da população, na criação e melhoria das condições de trabalho. Eles dão o peixinho para o povo, mas não ensinam a pescar, e nós comemos felizes.

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