Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA CAPENGA

A imprensa e os fundos de pensão

Por Wagner Pinheiro de Oliveira e Guilherme Lacerda em 02/05/2006 na edição 317

A cobertura jornalística realizada por parte da imprensa durante os meses de investigação da CPI dos Correios, especialmente a ligada aos fundos de pensão, leva a uma reflexão sobre o papel da mídia na própria mídia. Uma parcela dos veículos de comunicação preferiu utilizar fontes desqualificadas, que alimentaram a desinformação. Esta atitude leva a questionar: seria a imprensa um instrumento confiável para a leitura e interpretação da realidade? As respostas podem ser as mais controversas. E, independentemente da escolha, pode-se dizer que a recente crise política brasileira gerou um novo escândalo midiático, fenômeno que surge justamente a partir de crises contemporâneas, segundo a tese do sociólogo norte-americano John B. Thompson, autor de O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia, já publicado no Brasil.

O que se publicou inúmeras vezes sobre os planos fechados de previdência complementar – onde figuram os fundos de pensão – ao longo da elaboração dos trabalhos da CPI foram matérias baseadas em premissas ilegais: denúncias, não comprovadas em torno de um suposto favorecimento das aplicações na Bolsa Mercantil & de Futuros e em instituições financeiras. O resultado foi a criação do mito de que os fundos teriam montado um esquema de corrupção para favorecer partidos de base governista.

A imprensa, em determinadas situações, limitou-se a ouvir uma das partes, o que levou os fundos de pensão, mesmo em meio a ataques e sem direito de resposta, a adotar uma política proativa, com intenção de mostrar as inverdades publicadas. Nem a atitude de se expor suscitou interesse da mídia em realizar investigações aprofundadas sobre os dois lados das questões, por se tratar de assunto extremamente complexo. A começar pela estrutura. Os fundos, por exemplo, estão no limiar das empresas privadas e do setor público e seus dirigentes não podem ser considerados empresários nem servidores públicos.

Não se pensou nos associados dessas instituições, que apostam o seu futuro nos investimentos que fazem; não se levou em conta a credibilidade ou mesmo os benefícios trazidos por eles à sociedade. Hoje, os fundos de pensão brasileiros administram perto de 300 bilhões de reais. E de acordo com o último levantamento da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), o patrimônio dos fundos no Brasil cresceu 11,4% em 2005, em relação a 2004.

Lembrando Cláudio Abramo

Em meio às críticas que cresciam nas páginas dos jornais e nos editoriais, a política de transparência adotada resultou, sem dúvida, em maior credibilidade aos fundos. A mesma CPI que denunciou as entidades chega ao fim e reconhece que o sistema de previdência complementar avançou na última década no que se refere à gestão, à regulação e à fiscalização. Os ataques sofridos, portanto, não comprovaram o suposto prejuízo, desvio ou ligação a esquemas de corrupção tão trombeteados por parte da mídia. Os erros operacionais ou técnicos relatados haviam sido identificados pelo órgão fiscalizador. O relatório é enfático ao afirmar que o setor possui regulação e gestão adequadas para evitar desvios de conduta.

O episódio ‘fundos de pensão vs. CPI’ traz à tona velhos debates. Um deles seria o desequilíbrio que existe na mídia entre o espaço concedido às acusações e à defesa. O outro, não menos discutido, tem ligação com o desconhecimento de alguns jornalistas sobre o assunto. O fato de as matérias sobre fundos de pensão sempre terem figurado nas páginas de economia não justifica uma abordagem inconsistente a partir do momento em que passam a transitar, principalmente, nas páginas de política.

A imprensa sabe do seu papel social e, graças às suas denúncias, pode pressionar, modificar, alterar, prevenir. Não pode se esquecer, porém, que esse mesmo pseudopoder concede a ela a ‘competência’ para destruir ou abalar estruturas.

Foi preciso um trabalho didático para se mostrar aos jornalistas os erros cometidos pelos próprios jornalistas. Fica, então, a pergunta: e se o relatório da CPI chegasse à conclusão inversa em função de matérias equivocadas? A mídia vale-se de suas fontes, partindo da premissa de que elas tenham qualificação e responsabilidade. O profissional de comunicação não trata de áreas específicas, mas as áreas sobre a qual escreve manifestam-se por ele e por meio de suas fontes.

A ética jornalística deve estar pautada por informações precisas e isentas, e aos jornalistas cabe, incansavelmente, checar as informações obtidas – não importa estrutura escassa das redações ou a justificativa de que se trabalha sob pressão e com pouco tempo para apuração. Nunca é demais lembrar do jornalista Cláudio Abramo pregando que ‘o jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter’. Definitivo também quando afirmava que a ética do jornalista é a mesma do carpinteiro: fazer bem feito; no prazo estabelecido; não mentir sobre o material empregado.

Eis a base da sociedade democrática.

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O primeiro, economista, presidente da Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros) e do Instituto Cultural de Seguridade Social (ICSS); o segundo, economista, presidente da Fundação dos Economiários Federais (Funcef)

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