Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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IMPRENSA EM QUESTãO > INFORMAR & FISCALIZAR

A imprensa no pelourinho

03/11/2009 na edição 562

Em tempos de comunicação instantânea e ilimitada, nada mais natural que todo mundo se sinta estimulado a opinar sobre tudo, mesmo sobre o que nada entende, o que por sinal é o que mais acontece. Daí, por exemplo, a quantidade cada vez maior de gente posando de expert em imprensa e jornalismo. É uma festa como diplomados, medalhões ou simples palpiteiros de outras áreas ditam cátedra, se arvoram a ensinar como se escreve e se edita, como se os jornais e revistas fossem feitos por néscios ou amadores. Também, pudera: depois do virtual rebaixamento da categoria decretado pelo Supremo Tribunal Federal, com a supressão da Lei de Imprensa e o fim da exigência do diploma para o exercício da profissão, o que não falta são leigos para ensinar o vigário a rezar missa. A começar pelo presidente Lula.

Isso que, como se sabe de cor e salteado, a falta de formação específica nunca chegou a ser um impedimento para o ingresso e o uso regular da imprensa por quem quer que seja, o que por si só já seria um bom motivo para que a profissão fosse preservada, pelo menos no aspecto jurídico, já que na prática ter canudo ou não nunca passou de mera formalidade. Afinal, se é como decretou o editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner, que disse não precisar mais do que seis meses para formar um profissional à altura da Globo, na concorrida palestra que fez recentemente a alunos de uma faculdade de jornalismo em Brasília, desdenhando a capacitação formal, bastaria passar pelo tal treinamento intensivo e estamos conversados. Qualé, Bonner? Qualé?

Jornalista de cepa

De qualquer modo, Bonner deve saber o que diz, com a experiência de quase duas décadas a frente do noticiário de maior audiência e influência no país, se bem que foi no depoimento que deu pouco depois a Marília Gabriela, em seu programa de entrevistas no GNT, que esse desapreço pela capacitação formal, compartilhado por muita gente no setor, se mostra contraditório e ambíguo, para dizer o mínimo.

Perguntado sobre qual considera o grande desafio do trabalho de chefiar e editar o eterno campeão de audiência da casa, Bonner disse que a maior dificuldade – e fruto de constante insatisfação e questionamento – é filtrar o noticiário conforme o grau de importância dos eventos. Ou seja, intuir, garimpar no manancial de informações que pipocam na redação aquilo que é mais relevante, de interesse público – e, é claro, que venha a repercutir, como convém a um jornalismo que se preze.

Pois ao confessar a dificuldade permanente em lidar com a mais elementar função da prática jornalística – a tarefa de dissecar e ordenar os fatos sob o ponto de vista do interesse público –, Bonner inadvertidamente não deixa de admitir que o aprendizado da profissão é bem mais complexo do que falou, requer bem mais preparo do que, retoricamente, talvez para impressionar a platéia de neófitos, bravateou em Brasília. E de fato, não são poucas as queixas e reclamações sobre as pautas e o enfoque que o engessado noticiário do Jornal Nacional costuma apresentar, às voltas com o esforço ainda mais inglório de informar sem provocar melindres e contrariar a imagem de neutralidade que a Globo, pelo menos em relação a seu carro-chefe, vê-se na obrigação de aparentar.

De um modo geral, a afluência cada vez maior de colaboradores de todos os calados e matizes na imprensa não chega a ser um transtorno, muito menos um desprestígio para o jornalista-padrão, aquele que efetivamente faz o trabalho pesado. Muito pelo contrário, opiniões especializadas de outras áreas são sempre bem-vindas, ainda que raramente isentas e imparciais, como seria o ideal. De mais a mais, há que se separar o jornalismo convencional do analítico, do profissional que exerce o ofício em sua plenitude do franco-atirador que eventualmente aparece para tecer considerações de cunho pessoal, em suma, que não representa a posição da casa. Muita gente boa ainda faz confusão sobre isso, a dano do jornalista de cepa, aquele que arregaça as mangas e sai à cata da notícia, ao contrário do jornalismo almofadinha que fica com a fama, dos figurões que se penduram ao laptop cozinhando e, não raro, cafetinando o trabalho alheio.

Claque vibrante

Muito do mau juízo que se faz da imprensa deve-se a essa casta de áulicos que se dedicam a especular sobre os dejetos da política como forma de chamar a atenção e se manter na crista da onda. São jornalistas que não fazem o jornalismo castiço, e sim um tipo de colunismo que, salvo uma ou outra exceção, se equilibra entre o esgoto que denunciam e a lama das segundas intenções. Do alto de sua relativa independência, já que ninguém vive de brisa, acabam não sendo levados a sério exatamente pela radicalização, ostensiva, por verem só um lado da moeda – o que é uma pena na medida em que muito do que criticam e abominam não só procede como deveria repercutir bem mais junto a opinião pública.

Tais distorções, por assim dizer, acabam sendo um prato cheio para os patrulheiros de plantão, aquela turma a que me referi de início, que não perde a chance de malhar a imprensa mesmo por motivos banais, por birra ou simplesmente para aparecer. Leigos que nunca entraram numa Redação, que desconhecem as técnicas, o domínio que é preciso ter dos mais variados recursos e temas, de tudo que envolve a elaboração e edição do material que chega ao público, sem falar na busca da informação em si. E ninguém melhor que este Observatório da Imprensa para volatizar idiossincrasias que no mais das vezes não passam de panfletos permeados de mal-disfarçadas motivações político-partidárias, e por isso mesmo tão pouco proveitosas quanto os ensinamentos que pretendem impingir.

Tolices como implicar com o teor de obituários, como se a quantidade de linhas devesse corresponder à importância do morto; esquadrinhar capas e capas de publicações por simples preciosismo e pedantismo; comparar nomes e épocas passadas para provar teses jornalísticas capciosas; contestar o destaque dado pelo Jornal Nacional à criminosa destruição de dez mil pés de laranja por vândalos do MST, por conta da marota conjectura de que a filmagem poderia ter sido adulterada; e por aí afora. Disparates, antolhos que, afora a consternação pelo ranço de preconceito e discriminação que emanam, só fazem sentido para a claque que vibra quando Lula diz que o papel da imprensa e do jornalismo é apenas de informar, e não fiscalizar.

Ora, se a imprensa não pode fiscalizar, se o TCU também não pode, qualé, meu ? Qualé?

******

Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/11/2009 Roberto Figueiredo

    Enquanto este blá-blá-blá ocorre, o ‘bonzinho’ MST está arregimentando um grupo paramilitar por este país afora visando o óbvio, e seus líderes parasitas viajam de jatinho para se juntarem aos comes e bebes do nosso presidente bonachão. Tudo às custas do povinho que, para a esquerda festiva, é um mero detalhe em sua busca desesperada pelo poder. Que venha a CPI do MST!

  2. Comentou em 06/11/2009 Roberto Figueiredo

    Enquanto este blá-blá-blá ocorre, o ‘bonzinho’ MST está arregimentando um grupo paramilitar por este país afora visando o óbvio, e seus líderes parasitas viajam de jatinho para se juntarem aos comes e bebes do nosso presidente bonachão. Tudo às custas do povinho que, para a esquerda festiva, é um mero detalhe em sua busca desesperada pelo poder. Que venha a CPI do MST!

  3. Comentou em 05/11/2009 Vitor Carleial

    A imprensa não tem meios para fiscalizar. Não tem acesso às declarações de rendimentos ou à movimentação financeira. Não tem acesso a informações protegidas por sigilo bancário, fiscal, profissional ou segredo de justiça. E não deveria, com expedientes de câmera escondida, por exemplo, violar o direito à honra e à intimidade das pessoas. A menos que se considere ético praticar um crime para revelar outro. Ou revelar escutas telefônicas protegidas. Ou se deixar levar por informações de bastidores, em off, muitas vezes ditas no exclusivo interesse das fontes, tratando-as como se fossem a pura expresão da verdade. Imprensa é narração dos fatos relevantes, debate de posições contrárias, análise das conjunturas políticas e econômicas. tudo por meio de informações públicas ou publicáveis e de interesse público. O resto é uso, exploração da imprensa pra fins privados, inconfessáveis, por quem não ousa sair da escuridão em que se encontram e que, por isso mesmo, não pode ter seu nome revelado.

  4. Comentou em 03/11/2009 Edmilson Fidelis

    Prezado, Não sou da imprensa e não sou do TCU, mas ouso afirmar que não são a mesma coisa e que o segundo não depende em nada da primeira.

    Mas, posso estar enganado, não sou jornalista.

  5. Comentou em 02/12/2008 Miro Nunes

    MENSAGEM CONVITE

    Seminário lembra 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos

    Será realizado no dia 10 de dezembro, quarta-feira, o seminário “60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e os desafios para a promoção da justiça social no Brasil”, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio por meio de sua Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio). No auditório do Sindicato, na Rua Evaristo da Veiga 16/17º andar, Cinelândia. Entrada franca.

    A programação começa às 18h com a exibição de curtas-metragens alusivos aos direitos humanos: “Eu assumo essa luta”, direção de Ana Gomes, e “Projeto Re-Visão Cinemina”, da ONG Estimativa.

    Na ocasião, será lançado o livro “As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição”, publicado pelo Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea).

    O debate, das 19h às 21h, terá a participação do diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea, economista Mario Theodoro, organizador do livro, Renata Lira, advogada da ONG Justiça Global, e o jornalista Antônio Góis, da sucursal carioca da Folha de S.Paulo.

    Produzido anualmente, o evento é uma das principais atividades da Cojira-Rio (afrojor_rj@hotmail.com), que faz parte da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial,ligada à Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj).

  6. Comentou em 02/12/2008 Miro Nunes

    MENSAGEM CONVITE

    Seminário lembra 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos

    Será realizado no dia 10 de dezembro, quarta-feira, o seminário “60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e os desafios para a promoção da justiça social no Brasil”, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio por meio de sua Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio). No auditório do Sindicato, na Rua Evaristo da Veiga 16/17º andar, Cinelândia. Entrada franca.

    A programação começa às 18h com a exibição de curtas-metragens alusivos aos direitos humanos: “Eu assumo essa luta”, direção de Ana Gomes, e “Projeto Re-Visão Cinemina”, da ONG Estimativa.

    Na ocasião, será lançado o livro “As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição”, publicado pelo Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea).

    O debate, das 19h às 21h, terá a participação do diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea, economista Mario Theodoro, organizador do livro, Renata Lira, advogada da ONG Justiça Global, e o jornalista Antônio Góis, da sucursal carioca da Folha de S.Paulo.

    Produzido anualmente, o evento é uma das principais atividades da Cojira-Rio (afrojor_rj@hotmail.com), que faz parte da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial,ligada à Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj).

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