Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

IMPRENSA EM QUESTãO > CHÁVEZ EM PAUTA

A informação, a força e a resistência

Por Muniz Sodré em 30/01/2007 na edição 418

Um artigo de Gianni Carta na revista CartaCapital [‘Sarkozy à soviética‘] levanta um tópico importante, ainda não suficientemente discutido: a parcialidade da imprensa brasileira frente a Hugo Chávez. O presidente venezuelano é sistematicamente atacado, senão ridicularizado, por atos e atitudes que, cometidos por governantes como George Bush ou Tony Blair, passam como toleráveis.

Há, porém, algo de jornalisticamente intolerável nesse fenômeno, quando se considera que a mídia é hoje responsável por inteiro pelo agendamento do debate público. Isto não implica referendar a tese apocalíptica do controle das consciências por um ‘Grande Irmão’ orwelliano. Implica, sim, deixar claro que um agendamento parcial e conservador é um desserviço continuado à formação de um espírito público orientado por uma determinação equilibrada de valores.

De início, fica aqui excluída qualquer hipótese de aplauso irrestrito a Chávez, à maneira de seus partidários. O que se tem de levar forçosamente em conta são os efeitos da inconfessa retórica midiática sobre a explícita retórica verbal do governante venezuelano. No próprio texto corrente da imprensa, seja em colunas ou no noticiário corriqueiro, aparecem pequenos sinais de contradição entre a realidade de certos fatos e o discurso generalista orientado pelos editores. Basta prestar atenção a informações com pouco destaque no dia-a-dia dos jornais.

Retórica ultraconservadora

Por exemplo, a propósito de uma discussão sobre a América Latina no Fórum Econômico Mundial em Davos, o colunista Merval Pereira faz saber que…

‘…o presidente internacional da Pepsi-Cola, Michael D. White, foi o investidor que se mostrou mais entusiasmado com as perspectivas da região, que gera 40% do lucro de sua empresa no mundo. Ele garante que não mudou uma única vírgula de seu projeto de investimento na Venezuela por causa de Hugo Chávez.’ (O Globo, 25/1/2007)

Visão distinta teria sua concorrente mais direta, a Coca-Cola que, aparentemente, receia a escalada antiamericana de Chávez.

O interesse deste exemplo está no fato de que as posições favoráveis e desfavoráveis sobre o tópico em questão ancoram-se apenas no nível de avaliação da retórica chavista. O que Michael D. White está dizendo é que a fala do presidente venezuelano é por demais abstrata frente à realidade dos negócios de sua empresa. Ou seja, a retórica antiamericana de um presidente da República não impede ninguém de consumir um produto como o refrigerante implicado.

Toda retórica, bem o sabem os teóricos do discurso, é capaz de representar o real em imagens invertidas ou contrárias ao habitual. A publicidade faz isso o tempo todo, com vistas a criar cenários de sedução ou aliciamento de consumidores. Mas há uma distância entre a representação por demais abstrata e aquela outra que acompanha atos de intervenção direta no real-histórico. Assim, a retórica ultraconservadora de Bush se faz acompanhar de atos concretos, cujas conseqüências se vêem na morte de seus milhares de compatriotas no Iraque, nas violações aos direitos humanos na prisão de Guantánamo, na recusa de proteção à ecologia planetária e outras.

Imperativo político

Chávez é semioticamente rebaixado por bravatas verbais e atitudes estatais. Na prática, ele é capaz de não renovar a licença de uma rede de televisão, ou então expropriar um aeroporto privado em Caracas – acontecimentos tratados como bombásticos pela imprensa (O Globo, 26/1/2007), mesmo quando o texto omite maiores informações sobre a citada rede televisiva e termina esclarecendo que a expropriação do aeroporto visava a diminuir o trânsito próximo ao aeroporto internacional da capital venezuelana. Até mesmo a leitura pública de uma carta de Fidel Castro sobre o seu estado de saúde por parte do presidente venezuelano é conotada como uma aberração.

Na verdade, a imprensa vem informando o seu público mais sobre a imagem de Chávez do que sobre a realidade do relacionamento político entre o governante e seu povo – ou entre ele e os outros governos da América Latina. É uma imagem problemática, sem dúvida, diante das exigências oblíquas de ajustamento das aparências políticas à lógica do neoliberalismo galopante. É uma imagem estatista, emocional, retrô, demodée. Ele a reforça com uma retórica desse calibre, embora nem melhor nem pior do que os discursos de Bush, Blair e quejandos. Demonizá-lo, porém, é incorrer jornalisticamente na retórica enviesada da desinformação.

No começo de sua pequena biografia de Freud, Stefan Zweig diz que ‘a medida mais certa de uma força é a resistência que ela é capaz de sobrepujar’. Para melhor informar sobre a realidade venezuelana – e é hoje um imperativo político estarmos a par do verdadeiro potencial político-econômico da ‘região’ latino-americana – a imprensa séria deve obrigar-se a balancear no noticiário o jogo da força e da resistência.

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Jornalista, escritor, professor-titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/01/2007 Andréia Mello

    Interessante ler todos esses comentários e ver como os leitores se ofendem pessoalmente com as posições expressas. Não há dúvidas de que na imprensa há parcialismo! Por isso escolhemos os jornais, revistas e sites que lemos, optando por aquele que condiz com a nossa posição política ou de vida.
    Em relação a Cháves devo concordar com a matéria. Nas últimas semanas foram inúmeras as críticas contra ele. Certas ou erradas, creio que devam ser avaliadas com cuidado.
    Existe um documentário(não me recordo o título) feito por jornalistas da CNN que acompanhavam a tentativa de golpe contra Cháves e foram mandados parar de gravar em dado momento. Essas pessoas, jornalistas comprometidos com o esclarecimento da população, continuaram a gravar e lançaram o documentário. Vale a pena ver e perceber que as palavras do Sr. Sodré não são tão sem sentido assim.

  2. Comentou em 31/01/2007 Pedro Afonso

    Não pude deixar de me expressr ao ver a indicação do link para o site de notícias (?) ‘indymedia’. Simplesmente teoria da conspiração em estado bruto e apalermardo. Deve ser impresso e depois lido no banheiro para evitar contaminação. Gabeira fazendo parte da oposição ? Jean Charles assassinado a mando dos Estados Unidos ? Revista Primeira Leitura era tão financiada por grandes bancos que faliu ? Nada faz sentido. Nem mesmo uma tal de JIBRA (Jornalistas Independentes do Brasil) com sede em Londres. Ora, tudo fica perdoado pois como eles estão de férias em Londres (quem paga esta conta ?) não fazem a menor idéia do que se passa em Pindorama, apenas repetem sem questionar (se não perdem a boquinha) o que seus ‘cumpanheiros’ pedem para espalhar ‘nas oropa’ para consolidar a grande revolução bolivariana e o espírito do foro de são paulo. Vão trabalhar de verdade e deixa este dinheiro que vem do povo brasileiro ser aplicado aqui em saúde e educação. Chega de ONGs que só querem saber de dinheiro mole. Chega de PT que mantém isto tudo.

  3. Comentou em 31/01/2007 Normando Menezes

    entre outros, não citados porque se beneficiam de nossas
    incertezas, figuram entre os alegres ganhadores da loteria do golpe. Cabe
    aos bons jornalistas, descobrir quem os tem premiado.

    * Para facilitar o trabalho, apresentamos alguns dados fundamentais: R$ 76
    mil entre 10/2005 e 03/2006; R$ 234 mil entre 07/2005 e 03/2006; R$ 450 mil
    entre 08/2005 e 03/2006; R$ 34 mil entre 07/2005 e 03/2006; R$ 906 mil entre
    06/2005 e 03/2006; R$ 54 mil (em 10 parcelas) entre 05/2006 e 02/2006; R$
    111 mil entre 08/2005 e 03/2006; R$ 432 mil entre 10/2005 e 03/2006; R$ 454
    mil entre 10/2005 e 03/2006; R$ 32 mil entre 08/2005 e 03/2006; R$ 321 mil
    em 12/2005; R$ 98 mil entre 07/2005 e 03/2006; R$ 132 mil entre 10/2005 e
    03/2006; R$ 42 mil entre 10/2005 e 03/2006.

    Interessante é que idêntico sistema de compra seletiva de jornalistas e
    comunicadores tem sido registrado na Venezuela, no Paraguai e, mais
    recentemente, no Peru. A comparação nas metodologias nos permite deduzir que
    há uma inteligência operativa internacional por trás dos projetos de
    desestabilização de governos.

    * *Dados obtidos sem conhecimento do governo federal, a partir de esforços
    de reportagem de ex-integrantes do Prime Suspectz, hoje voluntários do jibra

  4. Comentou em 30/01/2007 Apolonio Silva

    Munis Sodré, quem sabe depois de ouvir a militância gritar tantas vezes de complô contra Lula, acaba de inventar o complô anti-Chaves. Ele inocenta Chaves pela imagem que ele mesmo espalha pelos quatro cantos do mundo. A culpa é…da imprensa! Sodré defende que a imagem de caudilho demodéé de Chaves é resultado das lentes das câmeras. Propõe que se procurem lentes para melhorar a imagem de Chaves. Portanto o jornalismo deve fazer o papel dos marqueteiros de Chaves. De algum lugar Sodré tirou que a imagem de Bush é ‘melhor’ do que de Chaves na A.L. (apesar de pesquisas indicarem que é por aqui que Bush é mais impopular). Somos todos carneirinhos que a imprensa pastoreia com suas imagens. Nunca vi Chaves com sua bravata ‘Alca…Alca…Al carajo’ na televisão. Se vi me enganei. É óbvio que o homem tem imenso preparo e contribui para uma imagem civilizada de seu país como quer Sodré. Há cada vez menos esperança para a AL…

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