Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > OBAMA PRESIDENTE

A inteligência no poder e o poder da inteligência

Por Alberto Dines em 20/01/2009 na edição 521

Início efetivo do século 21, inauguração de uma nova era ou somente o começo de um mandato presidencial, o 44º da República norte-americana. Qualquer que seja a importância que se atribua à eleição de Barack Hussein Obama, não pode ser esquecido um dado fundamental: a revolução está em curso desde a noite de 4 de novembro de 2008.


E esta revolução diferencia-se do simples messianismo porque inclui a impecável transição de 82 dias. A posse da terça-feira (20/1) é uma solenidade legal, a festa em Washington é o suspiro de alívio de uma nação constrangida pela crueza da realidade e que, afinal, reencontra a sua capacidade de sonhar.


Porém, parte dos milagres já aconteceu: a escolha tranqüila de um negro para ocupar a Casa Branca foi conseqüência direta de duas opções límpidas, indubitáveis: a postulação do candidato democrata foi apresentada como fator de união, claramente pós-racial e pós-ideológica.


A secessão que estava em curso – comandada pelo triunvirato Bush-Cheney-Rumsfeld – não era territorial, não dividia fisicamente a União, mas quebrava-a moral e espiritualmente. Obama e sua equipe rejuntaram-na. Aparentemente, sem traumas: não há adversários nem adversidades. Estão todos no mesmo barco.


Dificuldades orgânicas


Obama construiu uma maioria natural, a mídia percebeu e foi atrás. Obama foi smart – adjetivo abrangente que pode significar inteligente, esperto, sagaz, malicioso e até mesmo elegante (no sentido mais amplo). E a mídia também foi smart, impossível resistir aos apelos da razão, do bom senso, do bom gosto. Alinharam-se com o candidato republicano apenas os velhos cowboys da extrema-direita. Mesmo John McCain entregou-se prazerosamente no final à sofisticação do concorrente.


Inteligência vende mais do que a grosseria monossilábica. Uma retórica superior abre espaço para um jornalismo superior. Cria demandas qualificadas, estabelece padrões e exigências qualificadas.


Quando Hillary Clinton, na semana passada, repetiu quatro vezes no Senado o conceito de smart power, poder inteligente, sugeria uma estratégia para a política externa americana e, concomitantemente, oferecia um produto mais qualificado no mercado de idéias.


O que nos remete ao noticiário sobre a situação financeira do New York Times e a possibilidade de ter parte das suas ações compradas pelo bilionário mexicano Carlos Slim. A ponta visível da crise no jornalão americano é a queda no faturamento publicitário decorrente da queda da circulação. Segundo os analistas, a internet estaria absorvendo este faturamento atraindo segmentos cada vez maiores de leitores.


Indiscutível, os números estão aí. A questão crucial é saber qual a causa da maciça e de certo modo repentina migração da audiência dos jornais impressos para a internet. A rede teria conseguido vencer instantaneamente, num passe de mágica, suas dificuldades orgânicas, inerentes? Ou foram os meios impressos que capitularam e resolveram mimetizar os vencedores oferecendo um produto simplificado, nivelado por baixo, evidentemente menos sofisticado do que oferecia há cinco anos?


Cultura e subcultura


Pode-se avaliar a decrescente qualidade do NYTimes por meio da súmula que vende às segundas-feiras a uma cadeia de jornais do mundo inteiro (no Brasil, a Folha de S.Paulo). Aquilo (ou a quilo) é o melhor que o jornal produz ou é o rescaldo do material médio, de segunda linha? Será que o ‘jornalismo de resultados’, o produto da indústria jornalística, é capaz de produzir smart news? Essa é a questão. E ela vale tanto para a Rua 43 em Manhattan como para a Alameda Barão de Limeira, em São Paulo.


Obama significa a inteligência no poder e o poder inteligente. Tudo indica que esta soma de inteligências não ficará confinada, a tendência é irradiar-se em todas as direções.


O que falta no panorama jornalístico mundial é um número suficiente de profissionais inteligentes capazes de perceber que os problemas de caixa são problemas de caixa, oriundos da má gestão financeira. Não é um problema sistêmico. A perda de circulação e publicidade está na esfera do conteúdo e tem muito a ver com uma desqualificação auto-imposta, uma imolação da cultura à subcultura. Aposta na burrice.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/01/2009 Carlos Lamarca II

    Caro Dines,
    Como afirmou um dos maiores jornalistas brasileiros da atualidade, José Simão, os milagres são tantos que os americanos precisam de um ‘Pai Obama’.
    Agora, impressionante é a falta de uma linha, por parte da imprensa tupiniquim, sobre a real situação da economia americana: quebrada.
    Os americanos estão gastando trilhões sem terem essa dinherama. Estão tomando emprestado do mundo e não terão com que pagar.
    Enquanto isso nossos escribas ficam babando diante do casal Obama.
    São páginas e páginas sobre:
    ‘O casal Obama presenteou o casal Bush com um diário ‘ (erraram até na tradução do inglês); ‘São os novos Kennedy e Jackie’; ‘Glamour está de volta à Casa Branca’, ….

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