Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A Lava Jato na pauta de cada dia

Por Rolf Kuntz em 14/04/2015 na edição 846

A grande investigação do caso de propinas e pilhagem de dinheiro público, a Operação Lava Jato, chegou à Caixa e ao Ministério da Saúde. Com isso, três ex-deputados foram presos. Foi essa a manchete do Estado de S.Paulo, da Folha de S.Paulo e do Globo no sábado (11/4). A semana começou e terminou com o escândalo ocupando o alto da primeira página dos grandes jornais.

Assuntos muito importantes haviam aparecido naqueles dias, como a transformação do vice-presidente, Michel Temer, em uma espécie de superministro negociador, e a votação, na Câmara, de um projeto polêmico sobre a terceirização. Se esse projeto for convertido em lei, as empresas poderão terceirizar até as atividades-fim. Esses e outros temas de grande interesse foram amplamente cobertos, mas a Lava Jato e seus desdobramentos foram mesmo os assuntos mais explorados durante a semana.

Pautas enviesadas? Essa hipótese talvez fosse razoável em outras circunstâncias. Não se pode, neste caso, falar de viés. Os jornais mal conseguem cobrir os novos capítulos da investigação e os desdobramentos diários do escândalo.

Alguns temas são explorados obrigatoriamente por toda a imprensa – como, por exemplo, o depoimento do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, à CPI da Câmara sobre a Petrobras. Mas sobram novidades e no dia a dia cada jornal concentra o foco em algum novo aspecto da história.

Há novidade suficiente para alimentar todas as pautas e o governo contribui para isso. Um decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff ampliou as oportunidades de participação em projetos de interesse público. Com isso, o governo se torna menos dependente das grandes empreiteiras, envolvidas – todas ou quase todas – em episódios de propinas. A exposição mais ampla do assunto foi publicada no Globo.

Articulação de interesses

Outros jornais deram prioridade a outros temas, As dificuldades financeiras das empresas envolvidas na Lava Jato foram manchete do Estadão na segunda-feira (6/4). Atoladas em dívidas e com o nome sujo, grandes empreiteiras tentavam renegociar compromissos de cerca de R$ 15 bilhões. Outras companhias, de vários setores, seguiriam o mesmo caminho, segundo advogados citados na reportagem.

No dia seguinte o noticiário de alguns jornais mostrou os problemas da Schain Óleo e Gás. Encrencada com dívidas de US$ 4,5 bilhões, a empresa havia suspendido a operação de cinco sondas usadas, até há poucos dias, a serviço da Petrobras.

Algumas histórias foram exclusivas. Diante dos casos de corrupção, algumas seguradoras, segundo informou o Valor, já haviam elevado o preço das coberturas de responsabilidade civil contratadas pelas empresas para proteger executivos em casos de reclamações de terceiros. Detalhes como esse, publicado no caderno de finanças, dificilmente aparecem fora da imprensa especializada. Mas a reportagem, apesar de envolver questões muito técnicas, acrescentou um ponto relevante, e até curioso, à história das consequências da Operação Lava Jato.

Muito mais que um caso de corrupção numa grande empresa, o escândalo da Petrobras põe em foco problemas de governo, de relações entre partidos, de critérios de gestão pública e de articulação de interesses políticos e empresariais. Quem quiser avançar no exame do tema ganhará com a leitura do livro Reinventando o Capitalismo de Estado, dos professores Sérgio Lazzarini, do Insper, e Aldo Musacchio, de Harvard. Lançado em 2014 nos Estados Unidos, o livro já foi traduzido e publicado no Brasil.

Importância patente

A corrupção é apenas um dos tipos de relações especiais entre ocupantes de funções públicas e grupos com interesses privados. Há outras formas de promiscuidade, nem todas ilegais, mas sempre resultantes na atribuição de benefícios extraordinários a agentes selecionados. Para entender esse ponto basta examinar a distribuição de certos favores fiscais e as políticas de crédito baseadas no uso de recursos públicos.

Mas no Brasil a corrupção tem sido, com frequência, um componente importante desse tipo de relação. O alcance da Operação Lava Jato nem sequer é conhecido até hoje. A investigação das lambanças na Petrobras pode ter sido apenas o começo de uma longa série de descobertas.

“Lava Jato vai apurar cartel em Angra 3”, noticiou o Valor na quinta-feira (9/4). As manchetes sobre o Ministério da Saúde e a Caixa, publicadas dois dias depois, parecem confirmar a suspeita de um escândalo muito mais amplo que o caso da Petrobras.

Não há como negar a importância política e o enorme alcance desse caso. Se nenhum outro desdobramento ocorresse, duas consequências bastariam para comprovar a importância desse escândalo: o impasse do balanço da Petrobras (nem o do terceiro trimestre foi publicado) e a complicada situação do Tesouro. Se houver socorro oficial à empresa, hoje com gravíssimos problemas de caixa e de financiamento, a nota de crédito do Brasil poderá ser novamente rebaixada. Esse perigo foi apontado mais de uma vez por executivos de agências de classificação. Não há como reduzir a importância da Lava Jato na pauta dos meios de comunicação.

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Rolf Kuntz é jornalista

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