Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > CATACUMBAS DO SILÊNCIO

A ‘Legião’ desmorona, ninguém noticia

Por Alberto Dines em 30/03/2010 na edição 583

Na sexta-feira (26/3), em Roma, o comando da Legião de Cristo rendeu-se às evidências sobre a vida dupla ou tripla do seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel (1920-2008). Num breve comunicado admitiu, consternado, que ‘são certas as acusações contra o padre Maciel, entre as quais se incluíam abusos sexuais a seminaristas menores’. O comunicado renegando o seu fundador foi assinado pelo atual diretor-geral da ordem, Álvaro Corcuera.

A inédita proclamação foi para a primeira página dos jornais europeus de sábado (27). O prestigioso El País dedicou-lhe duas páginas, uma delas com enorme foto do pontífice João Paulo II recebendo em audiência o sacerdote mexicano que tanto apreciava e tanto estimulou.

O padre Maciel não era apenas um assumido pedófilo (El País prefere usar a nomenclatura técnica: pederasta). Também abusou de seus filhos quando eram pequenos. Filhos? Além do pecado da sodomia, Marcial Maciel, quebrou os votos de castidade e viveu maritalmente com Blanca Estela Lara (que conheceu quando tinha 18 e ele 56 anos), com quem teve três filhos.

A família apareceu há dias na TV mexicana e uma das crianças, agora adulto, contou com escabrosos pormenores com o seu pai tentou violá-lo e o obrigava a masturbá-lo.

Biografia imaculada

Nossos jornais e revistas não têm correspondentes no México. Mas têm em Roma. Nada disso foi publicado aqui nem no sábado, nem no domingo. A Legião de Cristo funciona no Brasil desde 1985. Em 2006, quando Bento XVI determinou que Marcial Maciel (então com 84 anos) se dedicasse apenas às orações e penitências, o caso foi escondido. Não era notícia. Esta é uma das centenas de não-notícias que uma imprensa engajada e assumidamente confessional como a nossa não se sente obrigada a publicar.

É preciso lembrar que Maciel não era apenas um pecador (na linguagem religiosa), criminoso (em termos jurídicos) ou um tarado (em linguagem corrente) – era um militante político de extrema importância. A ordem dos Legionários de Cristo (fundada em 1941) era o braço armado da direita católica. Prosperou durante a longa ditadura franquista na Espanha e expandiu-se no Novo Mundo apoiada por uma igreja identificada com o que havia de mais conservador no espectro político.

A ordem conta hoje – segundo El País – com 900 sacerdotes, 3 mil seminaristas e 70 mil membros laicos espalhados por 18 países, Estados Unidos inclusive. Tem educandários, universidades e conta com formidáveis apoios empresariais.

De acordo com Garry Wills (historiador emérito, jornalista premiado, autor de 40 livros), a Legião de Cristo aparece nos créditos da famigerada produção de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, e, junto com a Opus Dei, tentou extrair do Vaticano um endosso espiritual para o filme (The New York Review of Books, 8/4/2004; ver aqui, em inglês).

Importante registrar que as duas organizações e seus fundadores assemelham-se tão somente no aspecto ideológico e no incentivo que receberam do Vaticano. Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), criador da Opus Dei, canonizado em 2002, tem uma biografia imaculada. A de Maciel é a de um patife: além das imoralidades pessoais, passava-se por alto funcionário da Shell e agente da CIA.

Silêncio obsequioso

A confirmação das heresias e apostasia de Marcial Maciel veio muito tarde. Há 13 anos, um canal de TV mexicano (CNI Canal 40) preparou uma longa reportagem sobre os abusos cometidos por Maciel. O diretor do programa, jornalista Ciro Gomez Leyva convidou Legionários a contestar as acusações. A partir daquele momento a pressão da Igreja mexicana e da própria presidência da República tornou-se brutal. O documentário foi ao ar, mas no dia seguinte iniciou-se um bloqueio publicitário contra a emissora.

‘Um dos mais vergonhosos casos de censura da história do México’, relembra Leyva. ‘O poder e a fortuna dos Legionários de Cristo conseguiram, durante anos, converter o sofrimento de dezenas de vítmas em conspirações falsas e infundadas’ (El País, 27/3/2010, págs. 28-29).

Vergonhoso também é o comportamento da imprensa brasileira (exceto Veja), que até hoje não conseguiu dar seqüência à reportagem de Roberto Cabrini emitida no SBT no dia 11/3 sobre os abusos sexuais praticados por um monsenhor em Arapiraca (AL) (ver, neste Observatório, ‘Crimes sem punição‘ ‘Começou o outono ou é uma primavera?‘).

***

Sobre a histeria anticatólica e cumplicidades

Com chamada na primeira página, a Folha de S.Paulo publicou na terça-feira (23/3) um artigo do seu colaborador João Pereira Coutinho com o título ‘Padres e pedófilos’, a respeito da onda de notícias sobre abusos sexuais cometidos por sacerdotes católicos.

O articulista pede que a justiça se manifeste, ‘estes crimes não têm desculpa ou justificação (…) mas não é apenas a justiça que tem de fazer o seu caminho. O jornalismo preguiçoso também deveria trilhar o seu, separando a histeria anticatólica da verdade criminal’.

Em que segmento da imprensa brasileira – tão calada, omissa e cúmplice – encontrou o ilustre articulista uma histeria anticatólica?

Quem se encarregou de responder foi a própria Folha, primeiro jornal brasileiro a manifestar-se em editorial sobre a questão dos padres pedófilos:

‘Lançar luz sobre casos de pedofilia e exigir sua punição nada tem a ver com preconceito anticlerical ou com algum tipo de campanha contra a igreja – como afirmou, tipicamente, a imprensa oficial do Vaticano. (…) Nenhuma instituição, por mais veneranda que seja, está a salvo da investigação e do julgamento público; ainda mais quando se acumulam indícios de que sua autoridade e prestígio facilitam a realização, a continuidade e o acobertamento de atos da mais pura infâmia.’ (‘Imperdoável’, domingo, 28/3, pág A-2)

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/04/2010 Marcelo Ramos

    Olha, Cristiana, o que parece é que é uma guerra suja. Um lado expõe os podres do outro. Mas também ainda não estou sabendo os motivos ocultos. Sobre o Papa ser da Opus Dei também não sei, mas a Santa Sé apóia indiretamente a Opus Dei. Vou testar uma hipótese aqui. Será que a Opus Dei americana não está insuflando a extrema direita americana?

  2. Comentou em 31/03/2010 ronaldo abreu

    Cara Cristina, sou católico e sobre a questão dos ‘fiéis’, eu lhe digo. Tem joio em todos os lugares. Sou contador, e se um contador falhar eu vou largar a profissão? Fora que as pessoas acham que católico não pensa, não tem opinião própria. Fora que pedofilia tem em todos os setores e somente se fala da igreja, fora que a maior parte dos casos sãoa antigos ou de padres já bem velhos, ou seja, a safra nova é bem melhor, pois hoje ninguém é forçado pela familia a ser padre e vai para o seminário mais velho tambem. E para mim, eu foco no poder da Eucaristia, erros de A ou B é para estas pessoas assumirem a culpa, ou seja, para mim, a eucaristia sempre será a mesma, não importa se o padre é pedofilo ou não, igual para o kardecista, se todos os mediuns forem pedofilos ele não vai deixar de acreditar na reencarnação

  3. Comentou em 31/03/2010 Cristiana Castro

    O duro disso é que atinge os fiéis, ou outro termo, não sei. Eu fico imaginando se eu fosse de uma religião dessas, a confusão que eu não ia estar fazendo. A imagem de padres, pastores, rabinos, etc…é sempre associada a uma coisa boa, as pessoas religiosas são sempre mais educadas, mais calmas, sei lá. Pq os católicos, eu digo, as pessoas católicas não reagem? Se a gente já fica indignado qdo acusam alguma liderança partidária de corrupção, imagina só ouvir que o líder espiritual da sua crença é pedófilo. Alguma coisa está fora de ordem, pq é propaganda de fé o dia inteiro e, ao mesmo tempo, esculhambam todos os credos. É pra deixar qq um maluco. Independente de qq coisa, essa O.D. a gente já sabe que de religião não tem nada e essa Legião de Cristo…Por São Serapião! Onde o Dines descobre essas coisas?

  4. Comentou em 31/03/2010 Marcelo Ramos

    Eu ouvi falar da Opus Dei pela primeira vez quando era criança. Morei em Niterói, em um bairro onde tinha muitos espanhóis e italianos. E ainda tenho amigos espanhóis e italianos, tanto em Niterói quanto em São Paulo. A Opus Dei é uma Ordem católica menor, assim como a Franciscana. As relações oficiais são essas, porém, é nas relações não-oficiais que começa o problema. Antigamente, eram os Jesuítas e Dominicanos que faziam esse tipo de trabalho. Criar intrigas entre reis e papas, controlar o pensamento do fiéis, tudo isso fazia parte do trabalho. Quando veio a Inquisição, essas Ordens se aproveitaram para aumentar seus bens, chamando de hereges judeus e cristãos-novos, com o objetivo de lhes tomar bens. Isso é passado mas a O.D., hoje, detém os mesmos métodos e os usa eventualmente. Creio que a principal preocupação da O.D. é a crescente perda de poder da Igreja e dos meios de comunicação, que são francamente favoráveis à Igreja. Até o papa, hoje, é acusado indiretamente de ser conivente com essas práticas. Falando do ponto de vista editorial, os jornais perderam oportunidade de faturar com a manchete. Infelizmente, esse tipo de assunto e manchete ainda rendem circulação. Aqui, certamente, dá pra dizer que teve interferência da O.D. que, mesmo não conseguindo evitar a internet, tenta evitar danos maiores.

  5. Comentou em 30/03/2010 Ibsen Marques

    Olha, eu sou católico sem qualquer fundamentalismo.Minha fé é tão clara e aberta quanto é possível a demonstração do subjetivo, mas infelizmente a Igreja está paralizada. Não percebeu ainda que só enfrentando o problema de frente, assumindo sua reponsabilidade e punindo exemplarmente os padres pedófilos ou coniventes ela terá sua credibilidade de volta. Não e´uma questão de perseguição porque a uma forla tarefa contra a pedofilia que ultrapasa a Igreja e atinge toda sociedade, portanto nem ela nem ninguém pode ficar de fora. Como disse Cristo: Pegue a sua cruz e me siga. Está na hora de a Igreja tomar a sua cruz. Paralelo ao saneamento será preciso tomar medidas sérias na avaliação e acompanhamento de seus seminaristas. No momento a Igreja não está precisando que ninguém a difame. Alguns, talvez muitos, maus padres estão se encarregando do trabalho sujo.

  6. Comentou em 30/03/2010 alice franca leite

    Desde que o mundo é mundo quantas ‘GUERRAS SANTAS’ aconteceram?
    Logo, pode-se até MATAR,ESTRUPAR,PEDOFILIZAR,etc … sob o manto de ‘deus’????????????????/

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