Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > CASO RENAN CALHEIROS

A lição que Veja não aprendeu

Por Deonisio da Silva em 05/06/2007 na edição 436

‘Noventa por cento dos políticos dão aos 10% restantes uma péssima reputação’, disse certa vez Henry Kissinger.

A Veja nada aprendeu com o caso do deputado Ibsen Pinheiro, denunciado como ladrão quando era presidente da Câmara dos Deputados. Muitos anos depois, ele foi inocentado, o jornalista confessou a trama criminosa, mas que mais houve? Nada!

Pois desta vez há risco de ameaça semelhante. Todos são inocentes até prova em contrário e não há lei obrigando que inocentes provem sua inocência. Existe o contrário: é preciso provar a acusação.

Apesar de Veja ainda não ter comprovado as denúncias levantadas contra o presidente do Senado, que meio de comunicação social já não repercutiu a reportagem?

Trata-se de questão delicada, pois a mídia tem precípua função social e deve tomar cuidado com a vida privada. Veja levou o presidente do Senado a esmiuçar pagamentos feitos à mulher com quem teve uma filha, fora do casamento, uma tradição brasileira: dois ex-presidentes, ainda vivos, também têm filhos fora do casamento. O senador não seguiu o célebre conselho: ‘Nunca se explique: seus amigos não precisam, e seus inimigos não vão acreditar’.

Esmiuçado em manchete

É evidente que a revista adota a moda dos ‘dois pesos, duas medidas’, pois se de alguns diz tudo e mais um pouco, de outros não conta nem o indispensável.

Com exceção dos generais-presidentes do ciclo militar pós-64, o último civil que os antecedeu, João Goulart, também teve um filho fora do casamento, cuja partilha de bens com os filhos legítimos deu-se em rumoroso caso judicial em Porto Alegre. Getúlio Vargas viveu um grande amor fora do casamento, tendo confessado o caso em suas memórias. (Diário de Getúlio Vargas, Editora Siciliano & FGV).

Quase toda a mídia foi discreta com os nomes envolvidos. A Folha de S.Paulo, porém, não apenas deu os nomes de pai, mãe e filha, como fez manchete sobre o reconhecimento da paternidade devida à menina, em sua edição de 12 de abril: ‘Senado: Renan assume paternidade de filha de jornalista’, assim esmiuçada: ‘O presidente do Senado, Renan Calheiros, reconheceu a paternidade de Maria Catharina Freitas Vasconcellos Calheiros, de 2 anos e 8 meses, filha da jornalista Mônica Veloso’.

Serviço indispensável

Muito mais grave do que as denúncias contra o presidente do Senado – de resto, condenáveis as invasões na vida privada, disfarçadas de interesse público – é a constatação, não da mídia, mas dos tribunais de contas, de que 55% dos políticos tiveram sua eleição financiada por empreiteiras. É claro que elas fizeram um investimento do qual esperam retorno!

Na verdade, faz décadas que a mídia brasileira não dá a mínima para a privacidade dos pobres, tomando cuidado apenas com os ricos ou com os poderosos, temendo ressarcimentos e compensações financeiras que podem ser obtidas por bons advogados, cujos serviços custam caro.

Esta questão, aliás, remete aos defensores públicos, mas quem está preocupado em instalar este tipo de serviço público, tão indispensável quanto os dos acusadores, já que para garantia do trato justo é preciso que o acusado possa se defender de graça, já que foi acusado de graça, isto é, por denunciante pago por impostos, como é o caso do Ministério Público?

Função social

E quando o funcionário público, membro ou não do MF, calunia, o que podem fazer os caluniados? Pagar defensores às próprias expensas? Como? E assim, graves injustiças são praticadas impunemente, sem que haja a devida reparação, a não ser aquela feita pela História, mas são poucos os casos esclarecidos por biografias ou outros estudos. E, além do mais, ocorrem quando o caluniado já morreu…

O jornal espanhol El País, na edição de segunda-feira (4/6), repercutiu a oferta que Larry Flint, editor da revista Hustler, fez em anúncio publicitário veiculado no Washington Post, oferecendo 1 milhão de dólares por quem teve um caso sexual com membro do Congresso ou político de alto nível.

O Brasil, como a França, não é puritano, como são os EUA com a vida privada dos políticos. Mas se o Brasil copiar também este costume, a mídia desvirtuará de vez sua função social.

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Escritor, doutor em Letras pela USP, professor da Universidade Estácio de Sá, onde coordena o Curso de Letras; www.deonisio.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/06/2007 Matheus Reino

    Onde lê-se congresso cabe também senado, câmaras legislativas, Ministério Público, etc….

  2. Comentou em 17/04/2005 Eduardo Guimarães

    Mais um jornalista vem cobrar deste consumidor voraz de jornalismo suas críticas à imprensa. Afinal, qual é a minha? Teria eu algum trauma em relação a jornalistas? Teria eu sido vítima de agressão ou – como sugeriu o jornalista que me cobrou – de estupro por parte de algum (ou de alguma) jornalista ?

    A única razão obscura pela qual eu poderia ser tão crítico em relação à imprensa seria a inveja. Eu trocaria dez, vinte anos de minha vida se pudesse passar ao menos uns dois ou três anos exercendo essa profissão linda – se for exercida com honestidade e espírito público. Acho o jornalismo uma profissão que pode permitir aos que a exercem beneficiarem a coletividade tanto quanto um médico, por exemplo.

    É por isso que critico a imprensa. Fico chocado ao ver jornalistas e empresas jornalísticas cercearem a liberdade de expressão. Não julgo o que certos profissionais fazem e que me sugere ser menos produto de convicção do que de interesses questionáveis; julgo apenas a prática comum no jornalismo brasileiro de tentar inflar opiniões e interesses de determinados e poderosos grupos e apresentá-los como fatos.

    Jornalistas que vendem suas consciências temem perder seus empregos. Só que eu não conseguiria fazer o que fazem, como não conseguem muitos jornalistas de fato. E esses que vendem suas almas por um emprego o fazem desnecessariamente. Há, sim, na grande imprensa gente séria, que consegue manter o emprego e a dignidade simultaneamente

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