Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & PODER

A lógica dos ataques ao vice-presidente

Por J. Carlos de Assis em 03/02/2004 na edição 262

A eficácia da infâmia jornalística não se esgota na reportagem inicial, mas se manifesta sobretudo nas repercussões que lhes autenticam a suposta veracidade. O Sistema Globo, coordenando as baterias pesadas do Fantástico, do jornal O Globo e da revista Época, atacou violentamente o vice-presidente José Alencar a partir de domingo, 25, justamente na semana de viagem do presidente Lula à Índia e à Europa, durante a qual o vice assumiria a interinidade. O motivo era o suposto apadrinhamento de um neto de um amigo para que conseguisse uma residência médica num hospital público.

O bombardeio foi reforçado por outra denúncia, a de que o vice teria orientado outro hospital público a furar a fila de transplante de medula óssea em favor de uma jovem paciente, a pedido de um parlamentar. As duas denúncias são falsas. Entretanto, o noticiário que se seguiu em quase toda a grande imprensa não deixou por menos: julgou e condenou José Alencar! Alguns jornais e revistas tomaram por fato o que o primeiro denunciante apresentou, sem o menor cuidado de checagem. E ninguém perguntou o óbvio: a quem interessa desmoralizar o vice, por um pretexto infame?

Eis como, por exemplo, Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo – talvez o único jornal no Brasil que, por sua independência econômica e linha editorial, poderia confrontar o Sistema Globo – se refere a Alencar:

‘O próprio vice não está com essa bola toda. Além de insistir na lengalenga dos juros, numa hora aparece cartinha para furar fila de transplante, noutra, para pedir que um apadrinhado passe em concurso na raça. Convenhamos que não é nada engrandecedor’.

Pronto, a sentença foi passada. Em duas frases, Alencar é uma lengalenga, um furador de fila de transplante e um violador de concurso público.

Se a jornalista não tomasse como verdade tudo o que o Fantástico diz (o nome já seria uma advertência), teria apurado os seguintes fatos:

1. Não existe fila para transplante de medula óssea, portanto, mesmo se quisesse, Alencar não a poderia ter furado;

2. O resultado do concurso de residência médica para o qual Alencar teria indicado o apadrinhado, o neto de um avô amigo, foi divulgado quatro dias antes que seu chefe-de-gabinete escrevesse a carta de recomendação. Portanto, o suposto pedido (suposto, porque pediu-se apenas que a carta anexa fosse lida com ‘especial interesse’) é posterior ao resultado do concurso.

Interesses pesados

Os fatos que poderiam ser apurados com base numa investigação criteriosa vão muito além desses. Era materialmente impossível que Alencar praticasse esses dois favorecimentos que lhe foram imputados, mas ele poderia ter tido a intenção. No tempo da Lei de Segurança Nacional, da qual eu próprio fui vítima, julgava-se não o fato, mas a intenção. Apliquemos, pois, a LSN aos episódios ‘denunciados’ pela Globo. Não há nada – um ofício ou um telefonema de Alencar pedindo por protegido. Tudo o que existe é uma iniciativa encaminhando os pedidos aos órgãos competentes do governo, sem o mais remoto indício de pressão política ou moral.

Se a jornalista da Folha tivesse apurado isso tudo e chegado à conclusão de que a reportagem do Fantástico foi o que é, isto é, uma infâmia, ela não teria o entorno adequado onde encaixar uma mensagem subliminar perdida entre outras e que, no fundo, é o texto principal de seu artigo: a insistência de Alencar na lengalenga dos juros. É isso. Algo que não incomoda apenas a equipe econômica neoliberal, o sistema financeiro especulativo, os beneficiários da agiotagem institucionalizada no Brasil. Incomoda sobretudo a jornalistas que, consciente ou inconscientemente, prestam serviços a esses setores.

Observe-se que, no campo do debate ideológico, é quem mais deve aos bancos que mais necessidade sente de lhes prestar serviços. O Sistema Globo tem hoje uma dívida da ordem de 3 bilhões de dólares. Por isso se sente na obrigação de defender aquilo de que os bancos mais gostam, isto é, uma política monetária restritiva de juros altos. Poder-se-ia pensar que, como grande devedora, a Globo deveria lutar por juros baixos. Acontece que sua dívida é com bancos no exterior, e esta não se reduz com a queda das taxas internas.

É possível também que o Sistema Globo acredite estar fazendo um favor ao ministro Palocci ao tentar expor o vice-presidente à execração pública, em razão da notória posição deste contra as taxas de juros exorbitantes. Se pensar assim, vai dar com os burros n'água. O que está fazendo é enxovalhar o governo como um todo, com repercussões indiretas para a imagem do próprio presidente Lula, que convidou Alencar para sua chapa e tem nele um correligionário e um auxiliar leal e confiável.

Em algum momento no futuro, não sei se próximo ou remoto, a sociedade brasileira vai querer fazer um acerto com a política monetária conduzida pelo Banco Central. Claro, se insistirmos na política atual por muito tempo acabaremos destruídos enquanto economia. Como não sou fatalista, acredito que poderemos caminhar para uma política de pleno emprego, sob a liderança carismática do presidente Lula, e com os serviços inestimáveis do vice. Até lá, a sociedade brasileira será muito bem servida se ele continuar insistindo na lengalenga contra os juros altos. Mas que se prepare para mais ataques: os interesses envolvidos são pesados demais para serem embaralhados por quem tem em vista apenas o interesse público.

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