Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A manada virtual

Por Ivan Berger em 31/03/2009 na edição 531

Teoricamente, a internet veio para elucidar, clarear as idéias, certo? Nem tanto. Na prática, a profusão de informações e idéias pode ser contraproducente, como efeito colateral de uma revolução eminentemente quantitativa, em que recursos como a velocidade de informações e a interatividade são os maiores atrativos. Nesse aspecto, tudo indica que os meios tradicionais de ensino e formação, entre os quais a imprensa, continuam sendo insubstituíveis, com a web funcionando mais como aliada do que como concorrente.

O fato é que ainda não aprendemos a nos guiar em meio ao cipoal de recursos e opções que a blogosfera pode proporcionar. Falo do usuário comum, que ainda é e deve continuar sendo a grande maioria por um bom tempo, e cujos interesses não vão além da trivialidade dos sites de relacionamento e a navegação à esmo, com ênfase nas buscas por entretenimento e pornografia. Já o maior filão – a quase ilimitada gama de informações e estudos de toda a natureza – ainda é objeto de interesse de uma minoria,segundo os dados disponíveis. Isso a nível popular, é claro, visto que o emprego da informática na área empresarial é outro departamento,que não vem ao caso analisar agora.

O que eu quero mesmo dizer diz respeito à precariedade de grande parte dos questionamentos que alimentam os fóruns de debate da internet. Especialmente os de fundo político, que se ainda são até certo ponto civilizados no contexto de sites em que há algum tipo de controle, no caótico universo dos blogs funcionam com a sutileza de um moedor de carne. Tanto é que volta e meia alguém berra e esperneia contra os ataques de uma turba que, a exemplo dos tubarões e outros carniceiros, parece não resistir ao cheiro de sangue.

Imprensa vacinada

E quanto maior o peixe, melhor, é claro. Ainda mais se este reagir, como fez, talvez incautamente, o grão-jornalista e precursor dos blogs políticos, Ricardo Noblat, neste Observatório (‘Um território sem lei‘), no afã de se justificar pela produção de um programa de jazz na rádio FM do Senado Federal. Fato, portanto, bem antiguinho, e que a exemplo do episódio da ditabranda acabou explorado à exaustão pelos inquisidores de plantão. Celeuma para a qual Noblat contribuiu bastante, diga-se de passagem, ao fomentar um bate-boca que varou a semana, numa lavagem de roupa suja que acabou invadindo sua própria vida privada, com o envolvimento de familiares e a intervenção do filho, André Noblat.

Macaco velho, Noblat deveria saber que quizumbas dessa natureza não diferem das brigas comuns, em que a troca gratuita de insultos normalmente não resulta em vencidos ou vencedores. Todos perdem, quando se baixa o nível, como bem observou o professor Engenio Bucci, ao versar sobre o mesma tema (‘Desaforos entregues em casa‘). Ainda mais em se tratando do velho e marrento antagonismo político-ideológico, pautado por convicções pétreas e eventualmente fossilizadas, e por isso mesmo avesso a qualquer possibilidade de entendimento, e muito menos anuência, com os que não comungam ou rezam pela mesma antiquada cartilha.

Para essas patrulhas, não há atenuantes e sequer o benefício da dúvida quando se trata de julgar o que não lhes é favorável ou conveniente. Para eles, é oito ou oitenta, não concebem que se possa, por exemplo, votar em Lula e dar valor as realizações de seu governo, sem abrir mão do direito de criticá-lo e repudiar as malfeitorias quando for o caso. O apoio tem que ser incondicional, do contrário não tem conversa.

Por acaso, tem sido essa minha posição desde que exponho meus pontos de vista neste nobre espaço, mas vira e mexe sou tachado de antigovernista, tucano e outros bichos, fazer o quê? Se a militância lulo-petista dá de ombros e finge estar tudo bem, paciência, mas daí a cobrar dos outros que façam o mesmo, ignorando, por exemplo, barbaridades como esta expelida por Lula perante a comunidade internacional, ao atribuir a crise mundial a elite branca e de olhos azuis, o que além de inapropriado e deselegante soa como o mais deslavado racismo, definitivamente não contem comigo. Bem fez a imprensa brasileira, que já vacinada contra os arroubos do presidente nem deu muita bola para a nova gafe.

Manipulações e embustes

Tudo bem, democracia é assim mesmo, mas acho o fim da picada que queiram impor pré-requisitos para o exercício da crítica, sob critérios pra lá de tendenciosos e oportunistas como os normalmente esgrimidos para atacar a Folha, Veja, Noblat, enfim, aos representantes de uma imprensa que não se alinha aos interesses governistas, e mais especificamente aos ideais de esquerda que nem Lula teve coragem de encampar. Ataques que muitas vezes procedem, mas que acabam comprometidos em função da procedência duvidosa, da falta de confiabilidade remanescente das falcatruas do petismo.

Vai daí que chega a ser patético que se tente fazer acreditar que toda e qualquer crítica ao governo é fruto de má-fé ou de caráter conspiratório. Como se o governo fosse inatacável e a função da imprensa responsável não fosse fiscalizar e denunciar as malfeitorias. A preocupação em blindar o governo é tanta que enquanto um batalhão de choque é mobilizado para alimentar quizílias irrelevantes, as denúncias da imprensa sobre o vergonhoso esquema de apadrinhamento no bojo do Senado, nas barbas do presidente, são tratadas como se nada tivessem a ver com o governo.

Enfim, não deixa de ser sintomático que o regime dos sonhos da esquerda nativa comecem pelo controle da imprensa, como é típico dos modelos fechados. Os tempos são outros, é claro, nossa democracia bem ou mal parece capaz de resistir a retrocessos dessa ordem, mas convém não esquecer que vivemos sob o signo de transformações. E transformações a jato, alavancadas por mecanismos poderosos como a internet, cujo inexorável avanço muitos vêem como uma verdadeira sentença de morte para a imprensa tradicional.

É possível, mas mesmo que os jornais no atual formato se tornem economicamente inviáveis, isso não quer dizer que o velho e bom jornalismo também esteja fadado a virar peça de museu. Ao contrário, certamente ganhará com a migração para a internet, até mesmo pela perspectiva de ampliar seu público, graças a potencialização de recursos como a interatividade e de blogs de atualização instantânea.

Não há dúvida de que um novo tipo de relacionamento com a mídia está em gestação, moldados pelos múltiplos recursos tecnológicos ao alcance de um simples toque de mão.

Resta saber como as pessoas reagirão frente à massacrante exposição às manipulações e embustes enfronhados na coisa. Se aderem à manada ou começam a ter idéias próprias.

******

Jornalista, Santos, SP

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